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[Quinta-feira, Maio 15, 2008]


publicação em 29/05/08, quinta-feira. Av. Mem de Sá, 126, Lapa. Rio de Janeiro. Haverá show de samba, forró e chorinho. Apareça.

por Renato Amado * 12:35 AM

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[Terça-feira, Novembro 20, 2007]

As Letras de TUPI

Olhava para minha infância e via todas as letras bem alinhadas, num azul desbotado, porém belo: TV TUPI. Aqueles pedaços de madeira, ou seja lá qual fosse o material, eram testemunhas e provas documentais da história. Mas aos poucos eles foram sumindo. A primeira letra a debandar foi o “V”, que saiu sem se despedir, apenas deixando um breve bilhete: “Vou-me”. E foi-se.

Em seguida, desapareceram os tês. Ao que dizem, cansaram da vida de ruína de patrimônio histórico negligenciado, juntaram-se a um “A” que vagava perdido pelo mundo e fundaram uma multinacional de grande sucesso: AT & T.

Aos treze anos de idade, vi a memorável TV TUPI se transformar num assignificativo “UPI”. O prédio já estava a ponto de desabar desde minha tenra infância, as letras eram as únicas sobras em estado apresentável da histórica casa e agora restavam poucas dentre elas. A TV TUPI de tantas histórias, tantos Repórteres Esso e telenovelas. Ah... a Tupi, sinto saudade dela mesmo ainda não existindo durante sua inigualável trajetória. Agora, um “UPI” era tudo que restava da sede carioca do primeiro canal de televisão deste país, do antigo canal seis. Não podia permitir que este resto de memória se perdesse.

Subi, com uma mochila nas costas, o muro da casa em ruína pela Avenida São Sebastião, que, a despeito do seu prenome, trata-se de uma ruela estreita e sem saída por onde mal passam dois carros. Caminhei sobre o teto e desci para o parapeito, ficando em frente ao meu precioso “UPI”. Abri a mochila, peguei uma rede e argamassa. Prendi muito bem o emaranhado de náilon em volta do resto de história. Pronto, agora tinha certeza de que as letras não fugiriam.

Entretanto, qual não foi minha surpresa no dia seguinte pela manhã, quando me deparei com a rede rasgada e a ausência do “U”. Interroguei um mendigo que vivia sob a antiga construção, que no centro tem um arco, por baixo do qual passa uma avenida. Viver naquele lugar era, sem sombra de dúvida, um ato de extrema coragem, afinal aquele troço podia desmoronar a qualquer momento. O homem me respondeu que durante a madrugada o “U” ficara contorcendo-se, debatendo-se e jogando-se contra a rede. Um transeunte, vendo o desespero da letra, apiedou-se, foi em casa, buscou uma tesoura, subiu no telhado da construção e cortou a rede. Revoltei-me com a atitude do coração mole. Apenas um irracional nos deixaria com aquele “PI”! Uma madrugada fora suficiente para destruir meu primeiro plano. Percebi que teria que me doar com mais afinco à causa se quisesse salvar o que o Poder Público, em conluio com o tempo, estava em vias de destruir.

Na primeira oportunidade em que passei pelo meu quarto, abri o armário e procurei pelo empoeirado vinte e dois do meu avô. Prendi-o no cós da calça, peguei um velho e carcomido saco de dormir, coloquei-o dentro da minha mochila, escalei o mesmo muro e fui para junto das letras. “Muito bem, disse, acabou a farra, ninguém mais escapa! Farei guarda a noite toda, todas as noites. Qualquer movimento além da dilatação leva bala!” O dia não me preocupava, pois sabia que o movimento de carros e pessoas inviabilizaria uma fuga.

Nas oito primeiras noites tudo transcorreu bem. Graças ao controle que tinha sobre meu corpo, adquirido após anos de meditação zen-budista, mantinha o sono leve, de modo que acordava com qualquer barulho ou movimento. Bastava uma dilatação um pouco maior numa noite quente - algo bastante comum na Urca, devido ao calor liberado pelo morro após o fim do dia - para que eu levantasse com a arma engatilhada e apontada para o suspeito, numa fração de segundos. Contudo, este estado de constante alerta não me permitia sonos reparadores. E foi isto que deu ensejo à história da nona e fatídica noite.

Por volta de uma da madrugada, meu corpo cansado se aferrou a um profundo sono. Sequer sonhava, meu estado de total exasperação não permitia tal gasto de energia. O coração batia lenta e fracamente, minha respiração acompanhava-lhe o ritmo. Um leigo podia julgar-me morto. Percebendo o erro fatal, “I”, que apesar de grande como as demais letras, era minúsculo (não o represento aqui desta forma para realçar sua imponência), utilizou seu pingo para cutucar “P”, que, assim como eu, dormia profundamente. Assustada, a letra de Pedro, Paulo e tantos outros nomes, deu um pequeno pulo, incapaz de retirar-me daquele estado de hibernação. “I” apontou para mim com seu pingo. Ao notar a situação em que se encontrava o agora patético guardião, “P” não resistiu e me deu uma cabeçada na boca do estômago. Meu metabolismo se acelerou rapidamente e acordei arfante, sem nenhuma noção do que se passava ou onde estava. Foi quando “I” empurrou-me para fora do parapeito, fazendo com que eu despencasse, ainda ofegante, na Avenida João Luiz Alves. Ao atingir o solo, parei de tentar inspirar, vi as duas últimas letras do monumento se embrenhando no mato do Morro da Urca, enquanto as estrelas me convidavam a compartilhar-lhes a eternidade. Foi quando percebi que havia entrado para a história como o único homem assassinado por um par de letras.


por Renato Amado * 10:48 AM

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[Sexta-feira, Junho 22, 2007]

Simbiose

Abelha no ouvido. Um terror! Horrível! Tenebroso! Infernal! Estas palavras devem estar passando pela sua cabeça. Passaram pela minha, mas apenas num instante inicial. Depois, pensei que seria algo deveras inovador se eu me tornasse uma colméia ambulante. Além de vender mel, eu seria chamado para shows ao redor do país. Viraria uma grande atração.

Não sei se foi a proximidade do ouvido com o cérebro que permitiu que eu e a abelha entrássemos em sintonia, numa relação simbiótica, que a fez começar a somar sua cera à minha, dando origem ao primeiro favo. Provavelmente o primeiro favo da história a conter cera abelha e humana.

Certo dia minha amiguinha amarelada encontrou a saída do meu ouvido. Fiquei muito triste, imaginando que ela havia me abandonado por todo o sempre e jamais retornaria. Mas quedei-me inerte, na esperança de ela me encontrar caso retornasse. E não é que ela retornou! Veio maior do que nunca, opulente, magnânima, imponente, carregando pólem entre suas patas. E com ela trouxe duas amiguinhas. Entraram as três no meu ouvido (sim, cabe) e lá ficaram por algumas horas até que uma delas saiu em busca de pólem e retornou igualmente magnânima.

Estabelecemos essa rotina, até que, num dia inesquecível (não me esqueço a data até hoje: 11 de setembro de 2001), jorrou mel de minha orelha. Confesso-lhes que chorei. Chorei de emoção. A simbiose estava completa. Eu era um ser totalmente integrado à natureza, praticamente um elemental. Oh, quanta emoção ao recordar-me!

Mel de eucalipto! Essa era minha produção. Um mel forte, escuro, encorpado, um pouco áspero até. Uma delícia. Havia alguns eucaliptos próximos à minha casa, de onde as minhas queridas Regina, Vera e Marissol recolhiam o pólem que servia de matéria prima para o mel produzido dentro de mim e o qual comecei a vender. Era simples. Fiz um pequeno buraco no meu travesseiro. Ao dormir, encaixava a orelha nesse buraco e embaixo ficava um frasco que recolhia o mel. Era pouquinho, bem pouquinho, algumas gotas por noite. Mas ao final de um mês eu havia preenchido o primeiro frasco. Vendi, vendi por dez reais. Poderia ser mais barato, mas convenhamos, foi um mês de produção.Claro, não narrei o procedimento ao comprador, caso contrário ele ficaria com asco.

Bem, mas este seria o primeiro e único frasco de mel vendido, afinal, de alguma forma, devido à relação simbiótica, ao estreito laço no plano espiritual e mental que eu estabeleci com minhas inquilinas, eu sabia que a vida das minhas queridas estava próxima do fim e isto me atormentava. Me atormentava a realidade de não mais tê-las comigo, não mais vê-las aproximando-se imponentes, como que com o peito estufado, orgulhosas trazendo o pólem de eucalipto que, com tanto custo, buscaram. Mas também me incomodava ver o fim de um sonho, de uma coisa tão diferente que duraria tão pouco tempo. Por que tudo na vida que é diferente, que foge do padrão acaba durando pouco? Por que ser durasse muito tornar-se-ia também um padrão e perderia a graça? Pode ser, mas eu queria mais. Queria continuar criando abelhas no meu ouvido direito. A perda das minhas queridas Regina, Vera e Marissol era inevitável, mas talvez a perda da mini colméia não o fosse.

Pesquisei um pouco e me falaram que há algumas essências que atraem abelha. Pinguei, então, essência de eucalipto, no fundo de meu ouvido. E qual não foi minha surpresa ao ver aproximar-se, magistral, ao mesmo tempo ameaçadora e deslumbrantemente uma fantástica abelha rainha! Enorme, se comparada às demais. Bela, belíssima, linda, saudável! Impávido colosso! Foi direto ao meu ouvido, sem hesitar. Teve dificuldade de nele ingressar, afinal era apertada e já havia três ocupantes. Mas, empurra um pouco de lá, tromba um pouco de cá, dá um passinho para o lado... enfim, o pessoal, digo, abelhal acabou se entendendo e se apertando lá dentro. Confesso que a partir desse momento comecei a sentir um certo incômodo. Não havia muito espaço para o meu tímpano, mas aos poucos acabei me acostumando e algo que era dor passou a ser, simplesmente, uma sensação diferente.
A rainha, que não consegui me decidir se chamaria de Vitória ou Elisabeth, pôs ovos, muitos ovos, que garantiriam minha produção de mel por um grande período.

Aos poucos fui percebendo que meu ouvido estava cada vez mais cheio. A população aumentava sensivelmente. Sentia isso. Desenvolvi um tato tão aguçado no meu ouvido direito que sentia sempre que uma nova larva rompia um ovo para conhecer o mundo, o seu mundo, seu pequeno mundinho, que era o meu ouvido direito, nestes primeiros momentos de sua vida.

Com o aumento da população (e o retorno da dor, que novamente deixou de ser uma simples sensação), a produção de mel aumentou, junto com a minha alegria que, infelizmente não durou muito. Marissol nos deixou. Ela, ela que fora a primeira a se encantar pelo meu tímpano direito. Ela, a colonizadora, a precursora, a grande responsável por tudo isso, muito mais do que eu, nos deixou. Sem dúvida agora ela está no céu das abelhas, ocupando um trono à direita da Abelha Rainha-Deus. Seu velório foi emocionante. Todas as demais abandonaram meu ouvido para olharem o ente querido falecido uma última vez. A tristeza era nítida entre elas. Pensas que sou maluco por afirmar isso, mas não sou. Sim, não é possível que reparar que uma abelha está triste através dos sentidos tradicionais, como visão e olfato. Mas, como já disse, minha ligação com elas dava-se em outro plano, em outra dimensão. Não é possível traduzi-la perfeitamente, uma vez que nossa linguagem é hermética, influenciada pelas supostas luzes dos séculos dezessete e dezoito, palavras místicas, tão comuns no vocabulário indígena, foram abandonadas. Místico tornou-se algo pejorativo. Mas, se queres uma palavras para definir minha ligação com minhas inquilinas é esta: mística. E se essa palavra tem um tom pejorativo ou de alguma forma estranho para você, que se exploda. Já estou fazendo muito em narrar-lhe algo que é dificilmente contemplável no plano da narrativa.

Mas voltando. Após a tristíssima morte de Marissol, ocorreram as lamentáveis mortes de Vera e de Regina, nesta ordem. Tudo no espaço de apenas uma semana. Meu coração, meus olhos e minhas vísceras nunca haviam chorado tanto. Foi, sem dúvida, a semana mais difícil de minha existência.
A par dos lamentáveis falecimentos a produção de mel ia bem, ampliando-se, a ponto de encher um pote por semana. Todos devidamente vendidos. Comentava-se muito do sabor dele, que era delicioso. Eu dizia que era porque era de eucalipto, mas os mais entendidos diziam que não, que não era só isso, que havia um algo mais indecifrável. Mas eu decifrei. Era o favo composto por cera humana junto com cera de abelha que dava este sabor especial e místico (olha a palavrinha aí de novo) àquele mel.

Talvez devido a este quê místico meu mel começou a fazer um sucesso estrondoso entre os hippies daqui de Mauá. Começaram a comprá-lo semanalmente e, devido ao sucesso, que se ampliava junto com a população e a produção, fiquei com medo que descobrissem meu segredo e me linchassem ou algo do gênero. Mais não foi isso que ocorreu.

O Raul, um hippie coroa a gente fina, entrou na minha casa de surpresa e viu duas abelhas rondando meu ouvido direito e depois entrando. Ele gritou desesperado, ao me ver calmo:
- Entraram duas abelhas no seu ouvido, bicho, entraram duas abelhas no seu ouvido! Não sentiu não? Caralho, fodeu, elas vão te picar, vamos correr pro poste de saúde!
- Relaxa. - respondi - Elas estão em casa.
- ????
Narrei-lhe a história, já preparado para levar umas porradas ao fim delas, afinal ao Raul era um dos meus principais compradores.
- Caraaaaalho, bicho, que história foda! Meu irmão, isso dava um livro, quadros, todo tipo de arte... é muito lindo, muito bonito, de uma beleza cosmológica, holista, demais! - foi o que obtive como resposta no lugar das esperadas pancadas.
A partir de então virei atração e meu mel quadruplicou de preço. Quarenta reais. Isso mesmo, quarenta reais era o valor do frasco de mel. Pode fazer cara feia, pode se indignar. Já vi muita gente fazer isso por conta do preço justo que fixei. Ora, até prova em contrário, eu era o único homem do mundo a ter uma colméia no ouvido. O preço é definido pela escassez, então, na verdade, eu poderia estar cobrando muito mais. Mas não, ficava nos quarenta reais.

Surgiu um senhor. Um velhinho, que devia ter para lá de oitenta anos, muito interessado no meu mel. Eu já o havia visto por Mauá. Era um médico, um médico meio doido, quase um cientista maluco. Era famoso na região por ter uma máquina de fazer chover e uma tal de caixa orgônica. Diz-se que se você fica quarenta minutos por dia dentro dessa caixa sua saúde se acerta. Eu sei lá, não vou fazer nenhum juízo de valor, apesar de achar o negócio meio esquisito, mas não estou aqui pra julgar, estou para contar. Enfim, esse senhor, chamado Antônio Moraes, começou a se dirigir à minha casa com enorme freqüência, comprar meu mel quase semanalmente. Ele chegava ao ponto de comprar potes ainda não completos, apesar de eu não dar desconto por isso, tamanha era sua sede pelo meu mel. Ele dizia que meu produto tinha uma alta concentração de energia orgônica pelo fato de sua produção envolver dois tipos de vida distintas, quais sejam, gente e abelha. Essa energia, segundo seus relatos, é ótima para a saúde, equilibrando a energia do corpo, de forma a prevenir câncer e outras doenças. Achando que esta história poderia render uma marketing positivo pedi-lhe que fizesse uma medição exata da quantidade de orgon contido em 300 ml do meu mel. Paguei com três frascos gratuitos. Após uma semana de estudos ele me informou que havia uma concentração de 173 unidades de energia por centímetro cúbico. Não teria idéia do que isso significa não fosse ele ter começado a frase com a palavra "impressionante" e findado-a informando que um mel comum tem um já alta concentração de 73 unidades de energia por centímetro cúbico. Em outras palavras, e minha cera sozinha era responsável por 100 unidades de energia por orgônica por centímetro cúbico, isto é, mais do que o mel em si. Isso levou o Dr. Antônio Moraes a passar a recomendar aos seus pacientes que comecem a cera do próprio ouvido e, com base nisso iniciou um estudo sobre a energia orgônica eliminada pelo nosso organismo. Segundo concluiu preliminarmente, devido às nossas couraças, desenvolvidas desde a infância por sentimentos negativos e repressivos, e que impedem a circulação de energia. Essa energia retida, então, acumula-se nas extremidades, sendo desperdiçada. O doutor, então, observou que pessoas com menor circulação energética apresentavam um menor crescimento de cera, unha e cabelo. Contudo, ainda tinha dúvidas se o reingresso dessa energia eliminada pelo nosso corpo era realmente positivo, ou se não seria melhor buscar energia que jamais adentrara em nosso organismo, estando, portanto, menos pura, menos carregada de nossas tensões. Até a presente data esta questão ainda não foi respondida. Enquanto isso, alguns pacientes vão comendo cera a título experimental.
Se as teorias do Dr. Antônio Moraes estão certas ou não não faço idéia, mas o fato é que acrescentei no rótulo do meu mel a concentração de energia orgônica que ele possuía e meu público expandiu-se, junto com meu preço.Mas quando eu estava no auge da lucratividade o doutor maluquinho procurou-me:
- Seu mel não é mais o mesmo.
- Por que, doutor?
- Você não está mais fazendo isso com o coração. Tem fins capitalistas, pretende acumular capital acima de tudo, se rende às leis de mercado, subindo o preço quando sobe a demanda. Com isso, sentimentos negativos cresceram em você, reforçando suas couraças, ampliando sua produção de cera. Mas essa energia que está chegando na sua cera está muito, muito suja. O último mel que comprei estava intragável! Tive que passá-lo por um filtro orgônico para que pudesse consumi-lo com alguma satisfação. Você precisa aumentar o amor e a compaixão dentro de você, caso contrário a qualidade do seu mel vai continuar em franca decadência.

Não sei se as teorias do doutor estavam certas ou se ele espalhou isso por toda Visconde de Mauá, mas o fato é que pouco após esse diálogo as vendas e a também a expectativa de vida das minhas abelhas, caíram. Provavelmente ele estava certo. Mas como eu resolveria a questão? Se eu buscasse ampliar a compaixão com o fim de melhorar minhas vendas na verdade não estaria alimentando qualquer sentimento solidário, mas apenas reforçando minha veia egoísta. Teria que buscar o amor ao próximo pelo simples prazer de amá-lo, a solidariedade como um fim em si mesmo. Mas... ora, se eu fizesse isso não viria a subir os preços jamais. Pelo contrário, talvez o preço caísse. Bem, então talvez não valesse a pena essa tal de compaixão. Além disso, esse papo todo estava me dando um nó na cabeça. Decidi ignorar as palavras do velhinho e aceitar as variações de mercado como coisa natural, de época. Assim como as frutas têm época, meu mel também podia ter.

As vendas estacionaram no patamar acima apresentado. Isso me irritou. Pela primeira vez passava meses sem ampliar a vendagem. Isso estava me irritando. Queria fazer sucesso, um estrondoso sucesso, com meu mel de eucalipto de dupla cera. Mas as coisas não iam bem. Novamente o Dr. Antônio Moraes me procurou.
- Você tem que alterar seu rótulo.
- Por que?
- Porque reestudei e a atual concentração de unidade de energia pura, limpa, aproveitável por centímetro cúbico é de 85.
- Quanto é do mel normal mesmo?
- 73.
- Hmm... bem, ainda estou no lucro. Ok, vou ver o que faço. ¿ e ele retirou-se. Claro que eu não alterei meu rótulo. Deixei como estava. Ele voltou a procurar-me.
- Vou ter que espalhar que você mente. Não é ético o que você está fazendo.
- Doutor, eu nunca falei para nenhum paciente seu para deixar de ser otário e ficar pagando para entrar numa caixa de madeira com algodão que o senhor diz acumular energia e melhorar a saúde.
- Baseio-me em estudos científicos.
- Doutor, o senhor não é cientista, é um bruxo.
- Engana-se. Sou cientista.
- Pois bem, doutor, faça como quiser. Não cederei a ameaças.
- Pois é, mas na hora em que minhas palavras te foram úteis você não hesitou em colocá-las no seu rótulo.
- Passar bem, doutor.

De fato, em pouco tempo, ganhei fama de mentiroso em toda Visconde de Mauá e meu mel passou a acumular-se na minha casa. Precisava de mais energia. Precisava de uma maldita caixa orgônica, para melhorar a qualidade do meu mel. Procurei o Dr. Antônio Moraes. Ele, primeiramente, fez uma massagem energética um tanto diferente em mim. Disse que era para desatar os nós, permitindo que a energia que entraria via caixa orgônica circulasse bem dentro de mim. Em seguida, me deixou dentro da caixa por quarenta minutos. A única coisa que senti, num primeiro momento, foi um certo incômodo no intestino. Ao perguntar-lhe o preço, ele apenas acenou com a mão para que eu fosse embora e mandou que eu retornasse diariamente, para entrar na caixa orgônica.

Fui aos poucos me sentindo melhor, mais equilibrado. Sentia que a energia fluía melhor pelo meu corpo. Estava mais alegra, mais flexível física e socialmente. Tinha prazer em conversar com os fregueses, explicar-lhes sobre o meu mel, minha abelhas, energia orgônica... às vezes o papo era tão bom que o aceitava como pagamento. E assim minha alegria e minha espontaneidade foram me deixando, bem como às minhas amigas abelhas, pleno. Meu mel melhorou sensivelmente, a clientela aumentou, mas mantive o preço, pois queria minha casa sempre cheia. Mesmo que o mel acabasse e eu não tivesse como vender mais, o mero prazer da prosa já me trazia plenitude muito maior do que qualquer trocado. E assim vivi feliz por dois longos anos, até que a rainha morreu. Mas minha vida jamais seria a mesma: estava energeticamente equilibrado e surdo do ouvido direito.


por Renato Amado * 12:40 PM

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[Sábado, Abril 21, 2007]

Ao Vivo

Beijos na nuca, mãos roçando pelo meu corpo, acariciando meus mamilos, passando pelo meu tórax e abdômen, me fazendo estremecer e me arrepiar. Arrepios, arrepios que sua língua no meu ombro, no meu pescoço, me causam. Seus dentes são dentes de prazer, é a vampira da luxúria. Sua ira luxuriosa me enche de tesão e me faz perder parcialmente os sentidos. Meu mundo são suas carícias.

Ela pára e retoma as carícias. Suas mãos são delícias inflamadas, que me acariciam inteiro, acariciam meu falo. Ela cochicha no meu ouvido e mordisca todo meu braço. Minhas orelhas são abrigos para sua língua. Ela puxa minha cabeça para junto de si pelo cabelo e se enche de tesão. Me enche de tesão. Suas mãos retornam ao meu falo, mas por fora de bermuda. Agora ela levanta e bermuda e sua mão direita e meu falo entram em contato direto. Sua boca continua circundando minha orelha. Ela dá um suspiro e agarra meu pau com força. Está com tesão. Por um segundo hesita, não sabe por onde continuar. Passa a boca para a orelha oposta e desce para a nuca. Começa a lamber minha nuca e descer pela cervical. Me arrepio, estremeço. Sua língua faz agora o caminho inverso e em seguida desce pelo meu braço, retorna, morde meu ombro e agora dá várias mordiscadas acompanhadas de lambidas no meu braço.

Sua língua repousa sobre a prega do meu cotovelo esquerdo e lá permanece por alguns segundos. Suspiro, gemo. O prazer só aumenta. Ela ri. Não sei de quê. Ela esclarece: "você tá lambuzando sua bermuda". Agora ela passeia com as mãos freneticamente pelo meu corpo, eventualmente usa a unha. Estou o tempo todo de costas. Escuto o barulho de uma peça de roupa saindo. Ela deve ter tirado a camisa. Olho para trás, estava certo. Ela pergunta com o que estou preocupado. Achou meu olhar desconfiado. Falo: "com nada, queria ver que peça de roupa você tinha tirado". "Qual você quer que eu tire agora?", ela pergunta. O sutiã, eu respondo. Ela tira o sutiã e começa a esfregar os seios nas minhas costas. Que delícia, que delícia sentir seus mamilos roçando a minha pele.

Ela manda eu tirar minha bermuda, senta no meu colo de frente. Eu começo a chupar e acariciar seus seios e todo o seu torso. Em seguida ela pega o meu pau. Geme baixinho. A excitação mútua é grande. Ela rebola no meu colo, ainda está de calcinha. Chupo seu seio esquerdo com muito vigor, sua respiração se acelera, se acentua.

Ela sai do meu colo, se ajoelha na minha frente e começa a me chupar. Ela me conhece bem, sabe fazer isso muito bem. Sua língua percorre a extremidade da minha glande. Como é bom. Fecho os olhos por um instante, mordo o lábio inferior de tesão. Eventualmente ela acerta uma determinado ponto que me faz estremecer e dar um profundo suspiro. Meu pau ergue-se rapidamente nesses momentos.

Sua mão entra no jogo. A chupada está maravilhosa, nem consigo entender direito o que ela está fazendo. Está incrível, não há palavras pra descrever o prazer que sinto. Língua, lábio, dedos, palma da mão. Todos trabalham em conjunto. Todos trabalham juntos pelo meu prazer. Eles, definitivamente, sabem trabalhar em equipe. É incrível! Ela começa a chupar com mais vigor e a acariciar meu mamilo esquerdo enquanto chupa. Ele é muito sensível e vou à loucura quando ela começa a mexer nele. De repente, uma sensação maravilhosa: ela começa a dar tapinhas com a língua na base da minha glande. É bom demais, muito, muito bom. Me acalmo um pouco, respiro lentamente, recobro os sentidos que já estava perdendo. Ela continua a me chupar. Agora mais calma, parece ser um pequeno intervalo, parece preceder nova investida. Ela começa a dar tapinhas com a língua na base da minha glande de novo. Dedo ainda no meu mamilo esquerdo. Nossa, como agüento!?! Preciso parar de escrever. Está difícil conciliar. Hora de eu ir para o ataque.


por Renato Amado * 3:20 AM

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[Sábado, Abril 14, 2007]

Voltei à ativa

Voltei a escrever, mas confesso que não tenho postado nada aqui. Alguns concursos literários exigem ineditismo, não tenho tido tempo pra visitar outros blogs, o que é fator essencial para manter a audiência de um blog e estou com muita energia sendo consumida por outros projetos, tanto profissionais quanto literários.

Entretanto, diante da mera possibilidade de ganhar uma força, através de um link, dos amigos do livro, site referência em termos literário, que realizou a leitura crítica do meu livro, dando-me ânimo, diante das palavras elogiosas, para colocá-lo rodando pelas editoras deste país, decidi ensaiar uma ressurreição deste abandonado endereço. Então, vamos lá. Após anos, um novo conto deste que vos fala. E vou voltar pegando pesado, liberando todo meu lado bukowskiano (li "Misto Quente" logo antes de escrevê-lo). Pesado só no vocabulário. O conto é leve, pequeno e despretensioso. Escrito em quinze minutos. Espero que não assuste eventuais novos leitores. Mas basta descer a barra de rolamento para ver que esta é apenas uma das minhas facetas literárias. Espero que se divirtam. Um abraço e saudações literárias. Viva a literatura!!


Conflitos Naturais

O vento roça os seios, mas antes passa pela perna e entra pela saia, refrescando-lhe a buceta. Buceta de mulher vadia, mulher piranha, é assim. Coça e vive quente. Precisa levar umas estocadas pra parar de coçar e pra esquentar mais ainda. Mas depois, depois de terminado o coito e escorrido o sêmen, ela esfria. Esfria, esfria, esfria... E nesse momento a vadia fica tranqüila, tranqüila, tranqüila... Mas depois, o negócio começa a esquentar e a vadia tem que dar de novo.

Vai catar homem. Homem pra comer mulher nesse mundo não falta. Homem de todo jeito e mulher de todo jeito. Aliás, pra piranha feia é bem tranqüilo conseguir um rapaz de aparência ao menos mediana, de vez em quando, afinal homem é um bicho meio sem critério. Percebe que tem um buceta queimando quer logo se queimar nela. Ah, esses homens!

É, meus caros, mas houve um dia, um único dia, em que sua buceta resfriou sem um falo.

Era uma quinta-feira santa chuvosa... fria... frente fria daquelas que fecha o tempo o dia inteiro. Chuva, chuva, chuva, chuva, chuva e mais chuva e tome de chover o dia inteiro. Nada de temporal não, aquela chuva que fica, fica, fica. Sabe o tipo de chuva de que estou falando, não sabe? Aquela que persiste o dia inteiro, acompanhada de um vento que varia de força, chegando a dar um uivo baixinho em alguns momentos.

Pois bem, nessa quinta feira santa ela estava, às quatro da tarde, deitada sobre sua cama, bem à vontade: de pernas abertas, sem calcinha, trajando saia e uma blusa de alcinha leve. Ela era uma vadia de verdade, ou seja, não era só a sua buceta que era quente, mas o corpo todo. Quando era comida, precisava não só de um falo a introduzir-se nela, mas também de mãos e músculos e boca a roçarem-lhe o resto do corpo, de preferência com força. Isso explica seus trajes em meio è frente fria. Ah, além dos trajes, tinha um romance fácil em sua mão direita. Pois bem, ela estava perdida no livro quando uma rajada de vento arrepiou-a toda. O vento veio encanado. Entrou pela janela de um quarto, tomou a forma do corredor, por ele serpenteando, e abriu-se como cone ao chegar à sua cama. Nossa, o que foi aquilo!?! Um impacto arrepiante, enregelante e delicioso que percorreu seu corpo por dez intermináveis e inacreditáveis segundos, ao fim dos quais ela teve um intenso orgasmo. Piranha é assim, goza à toa.

Essa história nos demonstra a força dos fenômenos naturais. Como uma simples rajada de vento conseguiu gelar aquela buceta só gelável após um coito selvagem? Ninguém explica. Bem, sabe-se que a buceta pelando também é obra da natureza, então, o que tivemos, foi um embate entre dois fatos naturais de gigantescas proporções: a buceta que péla da piranha e a frente fria santa. Seria o poder de Deus? Ou será que teve o dedinho do Coelhinho da Páscoa? Mamíferos...! Ran!


por Renato Amado * 6:35 PM

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[Quarta-feira, Fevereiro 08, 2006]

Galera, ando totalmente sem tempo e sem previsão de voltar a atualizar isto daqui com freqüência maior do que uma vez por semestre. Pra completar, como nunca mais escrevi, não sei se minha criatividade ainda existe. Estou precisando exercitá-la. Por isto, depois de um milênio, acabei de escrever uma crônica, mas nem sei se está boa. Como suponho que nem mais há leitores freqüentando isto daqui, deixo este post pra não me tirarem do ar, mas não vou publicar o conto porque não estou a fim . Tem outro inédito, mas que também não estou a fim de publicar. Vou expor na internet sem nenhuma função, já que não tem ninguém pra ler? Se eu estiver errado, por favor mostrem que ainda há quem entre aqui, então eu posto. Não, isto não é esporro aos meus ex-leitores. Claro, também deixaria de entrar num blog que não é atualizado regularmente há um ano. Então, confesso que este post é mais pra não me tirarem do ar. Mas, se por ventura eu estiver equivocado quanto à ausência de leitores, posso pensar em publicar os dois textos que tenho. Caso contrário, não vale a pena perder o caráter inédito do texto, requisito para vários concursos.

Se estiverem pensando mal de mim terão problemas, pois o meu estagiário certamente descubrirá e em seguida os delatará para mim, que usarei meus poderes para acabar com suas insignificantes existências. Porra, Tô viajando... não vou apagar não, deixa ai quieto. É o sono.... enfim, se alguém ainda estiver freqüentando isto daqui avise, porque então eu penso eu postar algo de útil. Se algum dia eu voltar a atualizar sério avisarei. Não, não deleto o blog! Sou pentelho, vou ficar aqui ocupando o espaço do servidor!! Algum dia pode me dar um tilt (e um tempo, ou melhor, prioridade, afinal, o dia tem 24 h. para todos) e de repente eu resolvo ressuscitar este treco.

Abraços e feliz 2006.

por Renato Amado * 11:25 PM

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[Domingo, Outubro 09, 2005]

Muito estudo, pouco tempo...

por Renato Amado * 5:26 PM

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[Sexta-feira, Julho 08, 2005]

Enfim, bacharel

Custou mas o filha nasceu, só falta pegar o canudo. Nesta última segunda feira fui sabatinado durante uma hora e dez minutos por uns sujeitos que queriam me derrubar de qualquer jeito, na apresentação da minha polêmica monografia "A Questão Agrária e o Crime de Esbulho Possessório". Para aqueles que não manjam de "advogês" significa uma análise à luz do Direito Penal, das ocupações de terra promovidas pelos movimentos sociais. Concluo pela ausência de crime, discorre sobre desobediência civil, que entendo ser um direito fundamental e outras chatices para aqueles que entraram aqui em busca de contos nitidamente amadores, mas contos. Acho que ficou bacana e me orgulho não resiste a informá-los que encerrei minha vida acadêmica com um redondo 10. Quem tiver interesse em ler não me incomodo em disponibilizá-la. Até pra quem não é da área jurídica mas tem interesse pelo tema acho que pode ser interessente, pois dedico um longo capítulo à questão agrária, contando a origem do latifúndio, o histórico da luta pela terra, dados sobre o conflito no campo e o que foi feito até hoje em termos de reforma agrária. Enfim, chega de falar sobre minha monografia.

Sem contos por enquanto. Estudo é a palavra do momento, mas pra não deixar de falar de literatura, vou retomar a coluna

As insignificantes opiniões do Amado

Apesar de ser Amado e parente distante confesso que até pouco tempo não tinha lido nada do Jorge. Não é que o cara é bom? Deviam fazer uma lei segundo a qual todos aqueles que habitam grandes centros deveriam ler Capitães da Areia uma vez a cada cinco anos. Nestes tempo de "mata, mutila, destrói!" nos ajuda a ver ser humanos por detrás dos papéis de marginalizados, membros das forças do mal.

Acabei de ler Gabriela Cravo e Canela. A personagem é tão interessante que quase me apaixonei pela moça. É um livro um tantinho só prolixo, mas recomendo.

Fico por aqui, encerrando um longo silêncio.

Abraços e beijos.

Obs.: não, nada de dôto adEvogado. Ainda tenho que passar no exame de ordem (prova da OAB) pra ostentar o título de Ilustríssimo Senhô Dotô Adevogado, com anel de rubi e broche da OAB na lapela.
Obs.2: como sou prevenido, antes que o Roberto Jefferson diga alguma coisa, me defendo previamente: não conheço os senhores Marcos VAlério, Genuino, Delúbio, José Dirceu. Coloco desde já meus sigilos bancário (cheque especial, mas ainda sem juros, porque sou cliente Real e tenho 10 dias sem juros no cheque especial. Este banco existe. Este banco é Real), fiscal (sou isento, mas vá lá) e telefônico (plano perfil de 100 minutos, não dá pra negociar muita coisa) à disposição daPolícia Federal, das 24CPI's e 69 CPMI's.

por Renato Amado * 5:10 PM

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[Terça-feira, Maio 24, 2005]

UM DIA DE TRABALHO

Acordou tarde. Na véspera fora à Feira de São Cristóvão, onde dançou forró até tarde. Mas era verão e ainda havia muito dia pela frente. Pegou os espetos de carne, de frango, os salsichões, a farofa, os queijos coalho, as cervejas, os refrigerantes, água, Hula-hula, isopor, gelo, churrasqueira portátil, fita K7 do Bruno e Marroni, colocou o gelo e as bebidas dentro do isopor, o isopor, a churrasqueira e a comida dentro do porta-mala e a fita no toca-fita do Passat 1997 e seguiu em direção à Urca.

Um pouco antes de chegar à praia, na Rua Marechal Cantuária, já era possível ouvir o burburinho vindo daquela curta faixa de areia. Era sempre o mesmo burburinho, barulho de pessoas conversando enquanto algumas crianças soltavam gritos estridentes, acompanhados por outros de vendedores que ofereciam seus produtos em decibéis proibitivos.
Quando viu a areia branca completamente respingada por pontos negros e pardos, logo imaginou que seria difícil encontrar vaga. Reduziu a velocidade e olhou em volta; mal podia ver a calçada. Eram carros em todos os cantos. O 107 atrás dele fazia barulhos, demonstrando irritação com a baixa velocidade. Reparou na saída da Avenida São Sebastião. Tratava-se de uma ladeira sem saída, estreita, mas com a boca larga como a de um funil. Calculou que se parasse seu automóvel exatamente no meio da entrada do funil haveria espaço para que um carro o contornasse, tanto pela direita, quanto pela esquerda. A Urca era um bairro sem violência, não deveria haver policiais por ali para multá-lo, pensou... e estacionou.
Enquanto retirava a mercadoria do porta-malas, um 206, ano 2002 encostou ao seu lado. Um rapaz jovem, loiro, com olhos claros e um bonito rosto abaixou o vidro e reclamou da "vaga" inventada por João, que olhou em volta e viu diversos carros de moradores estacionados sobre a calçada. Sabia que se tratava de carros de moradores, pois eram modelos do terceiro milênio.
- E aqueles carros ali, parados em cima da calçada? - indagou o suburbano.
- A maioria dos prédios daqui não têm garagem. Se não pararmos na calçada, não temos onde colocar os carros.
- Bem-vindo ao clube.

O jovem murmurou algum xingamento, bateu irritado com as duas mãos contra o volante e seguiu caminho. João terminou de tirar o ganha-pão do carro e seguiu em direção à praia. Logo seus gritos de venda se integrariam ao característico som daquele lugar.

A lotação não se traduziu em boas vendas. A medida que a hora passava a praia enchia, mas seu bolso parecia indiferente a este fato. Desanimado, enquanto fritava um espeto de carne, olhou para o lado esquerdo. Viu o Unibanco. Aos poucos, começou a devolver a cabeça de volta ao alinhamento normal, mas parou logo, ao ver pessoas desembarcando do 107. Não parava de descer gente. Agradeceu a Deus por ter um carro e continuou o movimento com a cabeça. Em seguida viu, na Avenida Portugal, próxima à banca de jornal, uma bela moça passeando com um bonito labrador preto. Ela trajava um short curto e possuía belas coxas. Descansou seus olhos nela por poucos segundos e prosseguiu seu percurso, que desta vez só foi interrompido já na praia, por um grupo de crianças que brincava na água, tacando água uma nas outras. Não tinha graça. Correu os olhos de volta ao espetinho e mudou-o de lado para que não queimasse. Esperou dois minutos, perguntou ao freguês se queria farofa. À resposta negativa, apenas entregou a comida e pegou os dois reais de pagamento.
Ao fim da tarde ainda sobrava muita carne e a praia já estava vazia. Decidiu tentar a sorte com os pescadores da Avenida João Luiz Alvez. No caminho, ainda na praia, cruzou com a menina que vira passeando com um labrador oras antes. Ela estava sozinha e trocara o short por uma calça. Provavelmente cortava caminho pela areia, a fim de não ter que caminhar todo o contorno da praia, por debaixo da antiga T.V.Tupi, onde, hoje em dia, só restava um ¿U¿ na fachada. Num impulso, deu-lhe boa tarde, retribuída com as mesmas palavras, mas num tom bem menos simpático.
Alguns passos adiante seus olhos perderam-se noutra coxa. Uma mulher com a pele branca e cabelo liso jogava vôlei em dupla com um homem. Quando a praia começava a ter mais moradores do que suburbanos era porque realmente estava na hora de partir.
Caminhou cem metros junto à mureta da Avenida João Luiz Alvez, quando se deparou com o primeiro grupo de pescadores. Ficou por ali e decidiu puxar assunto.
Pelo que percebeu os pescadores estavam uma classe social acima do pessoal da praia, de quem falavam com certo desdém. Não moravam na Baixada, mas na Zona Norte, alguns até na Zona Sul. Tinham empregos que João considerava bons, como auxiliar administrativo e cartorário. Poucos minutos após a chegada de João, dois moradores se juntaram à pescaria e logo perguntaram qual o preço da cerveja. João já estava pensando em vendê-la mais caro desde que descobrira que seus novos fregueses moravam em bairros como Tijuca e Flamengo. Agora, então, que surgiam locais, com varas e linhas de qualidade é que não tinha mais dúvida.
- Dois reais a Skol. - respondeu.
Sua estratégia deu certo. A compra do nativo incentivou os demais a abrirem a carteira. Pescaria é algo entediante, pensou, nada melhor que uma cervejinha para animar.
Em duas horas vendeu toda a cerveja, mas a comida cismava em quedar quieta no seu carro. Acabada a cevada fermentada não conseguiu vender mais nada.
Retornou, com a churrasqueira e o isopor, ao seu carro. Trocou o pneu que misticamente arriara e voltou à Baixada. Amanhã chegaria mais cedo, para encontrar uma vaga.


por Renato Amado * 9:09 PM

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[Terça-feira, Abril 05, 2005]

Meus caros (se é que alguém ainda continua visitando este abandonado endereço), sei que estou sumido desde o fim do ano passado. Por hora, digo apenas que estou, sem exageiro algum, mais atolado que nunca, precisava de dias de 30 horas. Entretanto, se pensam, só porque não tenho atualizado este blog, que a literatura foi jogada para escanteio, enganam-se. Apesar da falta de tempo dou meu jeitinho pra dedica-la, se não o tempo merecido, ao menos uma pontinha dele, mesmo que isto me custe preciosas horas de sono. Em breve mando notícias sobre minhas incursões neste terreno. Por enquanto, deixo-os com um conto que me levou pra final de um concurso de redação, no qual o tema era "Solidariedade". Espero que gostem.

Beijos e abraços.

MUNDO SINGULAR

Apenas sento e lamento. Todas as opções encontram-se esgotadas. Deixo de lamentar e resigno-me. Quedo parado, a contemplar a multidão como se olhasse o infinito. Um vazio cheio me cerca. Pernas e corpos e pastas e ternos e saias cruzam-se e seguem sem valor. Não passam de pernas e corpos e pastas e ternos e saias. Não há seres humanos por trás destes objetos, são apenas o que vejo, de forma isolada, nada mais, não formam um conjunto. Indiferença total a este mundo, é o que sinto. Não amo nem odeio nada. Só não sou indiferente a mim, a única coisa que tem algum significado, o único ser que não é meramente cabeça, tronco e membros, mas uma pessoa, com sentimentos e contradições.
Já eles não me vêem como os vejo. Percebi isto um pouco antes de me isolar completamente e passar a ignorá-los. Olham-me com desprezo e incômodo. Alguns me enxergam como vítima e refletem sobre a injustiça, outros como vagabundo. Por qualquer uma destas óticas, sempre incomodo.
Mas não mais me importo com isto, afinal, doravante nada mais além de mim tem algum significado ou valor. Corpos e pastas e ternos e saias e... voz. Uma voz está próxima e constante. Não passa como todas as demais, mas permanece ao meu lado, estática. Dirijo meu olhar em direção a ela e vejo cabeça, tronco e membros. Um único grupo destas partes corpóreas, de modo que a voz só pode estar a minha procura, a menos que o referido corpo tenha a estranha mania de falar sozinho. Olho-o e nossos olhos se encontram. Neste momento, o corpo deixa de ser um conjunto de partes coladas, para se tornar algo único e pleno de significado. Os ruídos que de sua boca emanam deixam de ser ondas sonoras jogadas ao ar para tornarem-se palavras. Palavras que se transformam em amor e solidariedade.
Seguro a mão do amigo e seguimos juntos, rumo a um mundo cheio de valores, seres humanos, sentimentos, coletivismo e luta.


por Renato Amado * 11:38 PM

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[Quinta-feira, Fevereiro 03, 2005]

Mulher do Padre

Parada cardio-respiratória, dizia o boletim médico. Pouco importava, o relevante é que ela estava morta e nada a traria de volta. Apesar da idade e das diversas doenças que a haviam atacado nos últimos anos, nenhuma das meninas se conformava com a perda da sua mestra. Pediram ao padre que rezasse uma missa pela ressurreição da alma de Madame Bardeau.

- Uma missa de sétimo dia para a dona de um bordel?!? - espantou-se o clérigo.
- Mas padre, ela era cristã.
- Uma cristã que não segue os ensinamentos de Jesus não é uma cristã.
- Padre, ela rezava todos os dias e só não vinha à missa aos domingos porque tentou uma vez e todos a olharam torto.
- Sinto muito, minha filha.
- Padre, por favor! - implorou a quenga, aos prantos - A missa da ressurreição não pode ser negada a ninguém! Qualquer alma precisa de luz. Se o senhor acha que ela não achou o caminho certo em vida, ajude-a a encontrá-lo agora! Em nome da Santíssima Trindade e do amor de Cristo!
- Não fale em nome Deles, pecadora!
- Padre, realmente negarás luz a uma alma?
- Esta alma nunca desejou iluminação, porque a desejaria agora?
- Padre, pelo amor de Deus! - implorou a prostituta, de joelhos, cabeça baixa, aos prantos, segurando a mão direita do religioso. Durante alguns segundos, só se ouvia os soluços da suplicante, ecoando pela sacristia.
- Está bem, minha filha, rezarei uma missa em nome de sua falecida patroa. Mas se eu reparar algum decote impróprio ou saia menor do que manda os bons costumes, dentro da Igreja, cancelarei a missa no mesmo instante. Também não quero alarde. Rezaremos com as portas da Igreja fechadas, sem nenhum canto ou instrumento musical. Entrem pala porta lateral, certificando-se que não haja ninguém vendo. Sejamos discretos. Não quero arruinar minha reputação na cidade.
- Como o senhor desejar, Padre.

Para que chamasse menos atenção, a missa foi celebrada às 23:00 h., numa quarta-feira, horário no qual todos na cidade encontram-se adormecidos. Como não havia saguão e não se podia chamar atenção na praça defronte à igreja, a social inerente a qualquer missa de sétimo dia foi realizada dentro da própria sala de orações, onde o padre viu-se envolvido numa prosa com duas quengas sobre como as mulheres tinham poucas opções de trabalho nas pequenas cidades, enquanto que nos grandes centros já ocupavam postos de poder. O papo estava tão animado que o eclesiástico não resistiu a oferecer um vinho às simpáticas visitantes. Mas a garrafa não durou muito. Todas as presentes pediram um gole e o padre, já acostumado a esta bebida, não demonstrou preocupação em poupá-la. Logo retornou com uma garrafa da uva de Baco em cada mão.

O álcool não tardou a produzir um dos seus efeitos mais inevitáveis: liberação da libido. Em alguns minutos o sacerdote viu-se atracado com uma quenga sobre o altar. Sua roupa foi retirada por várias mãos, enquanto ouvia gargalhadas por todos os lados. Mal podia mover-se ou bem compreender o que ocorria. Subitamente percebeu que seu falo estava envolto por um tecido úmido, quente e macio, o que lhe causou um dejá vu, fazendo-o lembra-se de sua pré-adolescência na roça, em meio a cabritas e galinhas. Contudo, a sensação desta vez era muito mais prazerosa e havia um rodízio, quase uma luta por aquele órgão até então ignorado.

Mas a brincadeira durou pouco. Em pouco mais de um minuto o clérigo despejou dúzias de mililitros de vitamina C e frutose sobre alguma das suas amantes. Qual, ele não sabia precisar. Foram todas embora, decepcionadas com a rapidez do padre, deixando-o estirado ofegante, sobre o altar, enquanto Jesus crucificado fitava-o incrédulo. Ele viu o Salvador com os olhos fixos nele, assustou-se, segurou a batina rapidamente sobre o corpo, tapando as partes íntimas e correu em direção ao seu quarto.

Na madrugada seguinte, Manoel e sua mulher passeavam pela rua, a fim de aproveitar o frescor da noite e o silêncio da cidade, quando viram-se cercados por duas enormes mulas, uma de pelo marrom e outra de pelo preto. Aquela com ferraduras de prata, esta as tinha de aço. Ambas com um freio na boca.

O casal colou suas costas uma na do outro, enquanto os animais os rodiavam e relinchavam em alturas estarrecedoras.

- Manoel, diz que não é o que eu estou pensando! - disse Rosalina, com a voz trêmula.
- É isto mesmo, mulé!
- Ai... e o que a gente faz?
- Num lembro. Tem um jeito delas não atacarem.
- Então lembre logo, homi de Deus, porque elas não tiram os olhos das minhas mãos!
- É isso!
- Isso o quê, homi?
- Deita no chão, de boca fechada e esconde as unhas debaixo do seu corpo.
- Ai... tem certeza que isso funciona?
- Faz logo o que eu tô mandando, antes que elas ataquem!

Rosalina obedeceu, Manoel acompanhou-a e as bestas foram embora.

- Onde já se viu!?! Duas! Este padre é um sem vergo...
- Mulé?
- Oi?
- Não foram só duas.

Mais uma mula apareceu, soltando fogo pelas ventas. Esta tinha o pelo preto, com uma cruz no dorso. Também possuía freio na boca, mas nenhuma ferradura nos pés.

- De novo! - disse Manoel.

Sua mulher deitou-se de bruços, com a boca fechada e as mãos sob os seios. Manoel fez o mesmo.

- Não é possível! Não é possível! - exclamou Rosalina - Isso tem que chegar aos ouvidos do cardeal!
- Me pergunto quem são essas moças. - disse Manoel.
- Pergunto-me também. Será que tem alguma forma d'agente descobrir?
- Num sei não, mulé.
- Vamos amanhã na livraria. Lá deve ter alguma coisa.
- Deve.

No dia seguinte o casal foi à livraria do cigano, onde encontraram algo útil. Dizia o enorme volume, na página cinqüenta e cinco: ¿se queres saber quem é aquela que deitou-se com o padre e transformou-se numa Mula-Sem-Cabeça, há de se atirar um ovo com uma fita amarrada com o nome da suspeita, numa fogueira e rezar três vezes a seguinte oração:

'A mulher do padre
Não ouve missa
Nem atrás dela.
Há quem fique ...
Como isso é verdade,
assa o ovo
e a linha fica'

Caso a linha não se desfaça, então a suspeita é realmente culpada.
Se você desejar quebrar o encantamento deve arrancar o freio da boca da besta.¿
- Impossível! - exclamou Rosalina.
- O quê? - perguntou Manoel, com seu carregado sotaque interiorano.
- Arrancar o freio da boca da bicha!
- É, deve ser bem difícil, mesmo. O melhor que a gente faz é não sair mais a noite.
- Manoel. - disse Rosalina em tom grave e voz baixa.
- Sim.
- Podemos descobrir quem foram e matar as desgraçadas enquanto elas estiverem em forma de gente.
- Que isso, mulé!?! Tá maluca, querendo matar gente! Virou assassina, agora!?!
- Não tô assassinando porque só quero proteger os moradores e estas pessoas não são mais gente, são coisa, besta, fera. Coisa amaldiçoada, do Demônio.
- Mulé, desculpa, mas não posso concordar com um negócio desses.
- Ah, não pode não, é?
- Não.
- Então tá bom! Num preciso de homi pra tudo não! Posso me virar sozinha!

Foram embora brigados. Manoel foi para o Bar do Zé tomar cerveja e jogar sinuca em mesa pequena, enquanto Rosalina passou na quitanda da família de Marrissol para comprar ovo, no armarinho para comprar fitas e foi para casa prepará-las, escrevendo o nome de todas as mulheres da cidade, cada um em uma fita, o que lhe custou algumas horas. Ao chegar em casa, Manoel viu sua mulher sobre a mesa de jantar, com um pilô na mão, escrevendo numa fita, enquanto diversas outras, já com nomes gravados, repousavam sobre o canto da mesa.

- Chegou bem na hora. Esta é a última. - disse Rosalina.
- É mesmo, é?
- É.
- Que pena, por que eu já tinha feito uma pra te adiantar.
- Carece não.
- Mas será que você não se esqueceu de ninguém?
- Não.
- Tem certeza?
- Tenho, homi! Por que pergunta tanto?
- Vê se este nome você escreveu? - e arremessou sobre a mesa, em frente aos olhos de sua mulher, uma fita com o nome "Rosalina" gravado a caneta.

A mulher de Manoel levantou-se num pulo e com o dedo em riste, apontando o rosto do marido, gritou:

- O que é isso!?! Você não respeita mais a sua mulher não, é!?!
- Quem é capaz de descumprir um mandamento é capaz de descumprir dois.
- Pois veja bem, seu calhorda! Sei que você faz isso comigo só pra me deixar nervosa! Então quero que você se dane!
- Vai jogar a fita na fogueira ou não vai?
- Que se dane essa fita e você! Eu ignoro os dois! Se você quiser, que taque e faça a reza, vou ignorar qualquer coisa que você faça!
- Tá bom, então.

Manoel foi tomar banho enquanto sua mulher preparava a fogueira. Um a um ela foi tacando os ovos enrolados pelas fitas na fogueira e recitando três vezes o verso que aprendera. Três fitas não queimaram. Cada uma com o nome de uma prostituta. Quando o ritual terminou, Manoel dirigiu-se para junto da fogueira, pegou um ovo que sobrara, enrolou-o com a fita gravada com o nome de sua mulher, tacou-o na fogueira e executou a reza três vezes, conforme o livro mandava. A fita queimou-se por completo.

- Satisfeito agora?
- Tô.

Rosalina passou quase toda a noite em claro, elaborando um plano para matar as quengas. Só adormeceu pela manhã e quando acordou estava toda amarrada na cama. Seu marido, tranqüilo, tocava violão. Ela começou a gritar e ele terminou a música serenamente, como se nada estivesse ocorrendo. Em seguida, puxou uma cadeira, colocou-a ao lado da cama, sentou-se e começou a conversar com sua mulher.

- Vai ficar aí até eu resolver o problema das mulas-sem-cabeça, sem matar ninguém.
- Desgraçado! Eu te mato!
- Ah, é? Como?
- Espera eu sair daqui!

Durante quase uma semana Rosalina foi alimentada pelo seu marido presa à cama. Nos primeiros dias, cuspia a comida na cara de Manoel, em sinal de protesto, mas à medida que a fome apertava, sua resistência à comida reduzia-se, até chegar ao ponto de cobrar o jantar do seu marido. Quando ele não estava em casa, suas necessidades eram feitas numa fralda geriátrica. Nos momentos em que seu esposo estava presente, levava-a ao toalete e entrava junto com ela, para que não trancasse a porta. Em seguida, a escoltava de volta para a cama e a amarrava novamente. Nas poucas vezes em que decidiu gritar, Manoel amordaçou-a, mas ele acabou por convencê-la de que aquele tipo de expediente de nada adiantaria, ou melhor, apenas a prejudicaria, pois ele seria obrigado a contar a todos a razão daquela bizarra atitude. Como toda a cidade o conhecia, a população saberia que falava a verdade.

Manoel procurou seu amigo e companheiro de banda, o inacreditavelmente habilidoso, João da Silva. Pediu que o jovem o ajudasse a retirar o freio da boca das mulas na próxima vez que aparecessem. João, diante da gravidade da situação, não pode recusar utilizar suas capacidades extraordinárias. Passaram a fazer ronda todas as noites, mas apenas uma semana depois da primeira aparição, na madrugada de quinta para sexta-feira, as mulas-sem-cabeça surgiram. Desta vez, as três juntas.

O marido de Rosalina partiu em direção a uma delas e sem hesitar, meteu-lhe a mão na boca, para tentar arrancar-lhe o freio. Entretanto, a mula fechou a boca com sua mão dentro dela e começou a chupar o dedo de Manoel. Enquanto isto, João, sem muita dificuldade, uma vez que movia-se numa velocidade impossível, arrancava o freio das outras duas mulas. Quando abriu a boca da terceira mula, salvando João, enquanto arrancava o freio do animal, viu um cotoco de dedo sair da boca da mulher metamorfoseada. O indicador de Manoel resumia-se a um fino pedaço de carne, em formato de picolé chupado.

Enquanto Manoel estrebuchava de dor, no chão, os animais iam, aos poucos, tomando forma de gente, até voltarem a ser as quengas que atacaram o padre. Nuas, correram para o Cabaré da Madame Bardeua, uma vez que já se encontravam em uniforme adequado ao trabalho. Manoel, vendo aqueles belos corpos despidos, esqueceu-se da dor e acompanhou-as, já que sabia que, diante dos últimos eventos, doravante necessitaria delas para satisfazer sua libido. Como as havia salvo da maldição e praticamente perdido um dedo por isto, exigiu atendimento VIP e gratuito, no que foi atendido. Em troca, tocava violão para os clientes gratuitamente, duas vezes por semana, sempre que não estava viajando com a sua banda..


por Renato Amado * 1:02 PM

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[Terça-feira, Dezembro 14, 2004]

Pô, bicho...

Cauã e Haina leram uma reportagem sobre o Vale do Rio Preto na revista "Natureza, Cosmos e Cia.." De acordo com a publicação, a referida região possui uma energia superpositiva devido ao seu alinhamento com Escorpião, possibilitando uma entrada direta da energia cósmica. Animados com tão relevante informação, o casal dirigiu-se à região, onde passariam a viver.

Escolheram a cidade de Só Sebastiana, onde começaram a praticar o artesanato. Entretanto, logo descobriram que a população local não era nada aficionada pela vanguarda conceitual do artesanato cósmico da Era de Aquário. A única maneira de ganhar dinheiro como artesãos naquela região, pensaram, era vendendo para turista.

Passaram, então, a dividir-se entre Nova Córdoba do Rio Preto e Só Sebastiana. Aquela cidade era vista como um mal necessário nas suas vidas. Embora não gostassem de regiões turísticas, onde o burguês vai se divertir as custas do trabalho do povo explorado, necessitavam delas para se sustentar. Mas sempre que podiam iam a Só Sebastiana, cidade pobre, mal tratada e suja, ou seja, perfeita.

Em Só Sebastiana, ficaram sabendo que havia um índio preso porque quis vender a erva do bem na cidade. O casal achou isto completamente nada a ver e onda errada. Foram, numa boa, trocar uma idéia tranqüila com o delegado.

- Tranqüilo é o cacete! Esse índio é um marginal!
- Pô, aí... nada a ver... libera o cara... - disse Cauã.
- Libero o escambau! Vão embora, por favor!
- Ih.... o camarada tá estressado... relaaaaaxa bicho...
- Eu vou é relaxar o cacetete em cima de vocês se não saírem logo! Andem, andem! Circulando, circulando! - inquietou-se o delegado, gesticulando para que se movessem.

Os artesãos foram embora achando o papo do delegado total nada a ver e em total desalinho com as energias cósmicas. O dia seguinte era de visita e eles decidiram que aproveitariam para levar um pouco de felicidade e energia para o índio.
- Bicho, tá vendo esse cristal? - perguntou Haina.
- Índio está.
- Então, ele foi energizado por um grande mago polaco. Ele tá cheio de yang que vai te dar força nessa hora difícil.
- Índio querer sair daqui.
- É, eu sei... mas falamos com o delegado e ele disse que não vai te liberar não. Maior onda errada, aí.
- Mas não tem outro jeito de Índio sair daqui?
- Pô bicho, só se você fugisse. - respondeu Cauã.
- Então Índio querer fugir.
- Calma bicho! Como é que você vai conseguir fazer isso?
- Índio segura o carcereiro quando ele abrir a porta para Índio sair da cela.
- Ih... o cara apelando pra violência, aí. Nada a ver...
- Você ter alguma idéia melhor.
- Com certeza... vamos deixar uma vela queimando na mesa do delegado pra levar luz pra ele. Sinto que dentro daquela pedra há uma esponja pronta pra ser encharcada de amor... e a luz é capaz de atravessar a rocha.
- Luz atravessar rocha!?!
- Com certeza... a luz atravessa qualquer coisa.
- Estranho.
- O quê?
- A cela devia ser mais clara.

Conversaram por mais algum tempo. Haina, inconformada com a dureza do delegado, foi tentar amolecê-lo. Tudo que ele precisava, imaginava, era de um pouco de amor e luz.

- Senhor delegado?
- Sim.
- O senhor se incomodaria se eu deixasse uma vela queimando aqui na sua mesa? Olha, é de citronela, então, além de te trazer luz, serve pra espantar mosquitos.
- Espanta mosquito isso daí, é? - questionou o delegado, com ar desconfiado e curioso, olhando para a vela com canto de olho.
- Espanta sim.
- Então tá, pode deixar. Agora vai, vai. Circulando, circulando.

O casal abandonou a delegacia comemorando efusivamente aquela demonstração de flexibilidade por parte do chefe da polícia. Tinham certeza que a luz daquela vela iluminaria seu coração.

Uma semana depois, foram novamente ter com o delegado. Haina, que desde o sucesso do diálogo travado na semana anterior achava que tinha pego o jeito de como aborda-lo, serviu de interlocutora, enquanto Cauã esperava encostado no muro da delegacia, fazendo artesanato com pedaços de arame, para passar o tempo.

- Senhor delegado?
- Sim.
- É... sobre o Índio. Será que o senhor não pensou um pouco sobre o caso dele durante esta semana? Ele é um bom sujeito... nem sabia que o fumo que vendia era proibido.
- Isso é verdade.
- Então, o senhor não acha que ele merecia uma segunda chance?
- Não!!
- Poxa, mas por que, se o senhor mesmo concordou que ele nem sabia o que fazia?
- Não sabia. Por isso mesmo vai ficar preso pra aprender a deixar de ser burro!
- E quando termina a pena dele?
- Ano que vem. Mas se você e o seu marido continuarem torrando a minha paciência deixo ele mais um ano aí dentro.
- Mais um ano nos aturando, já pensou...
- Coisa nenhuma! Se vocês me encherem demais, prendo também! É só fazer uma revista no seu marido, que vai sair de tudo daquela bolsinha colorida de tricô de viado dele. Então, circulando, antes que minha paciência acabe mais ainda e eu mande prender vocês dois!

Haina retornou ao banco da praça onde morava, desanimada. O Índio teria que esperar mais um ano...


por Renato Amado * 5:35 PM

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[Segunda-feira, Dezembro 13, 2004]

Desacredite Acredite

Finalmente, após três décadas transcorridas desde o seu nascimento, Marissol convenceu-se de que havia encontrado o homem da sua vida.

Bom, na verdade ela já o conhecera no berço. Entretanto, pelo fato das duas famílias serem muito próximas, criou-se um certo tabu envolvendo-as. O tabu, durante anos, não conteve os desejos do novo casal. Bom, na verdade não o fez pois não era necessário. Sua força era tal que a própria existência do desejo era inconcebível. Contudo, quando os dois estavam a poucos dias de completar sua terceira década de existência, um diálogo abriu-lhes a porta da realidade.

- Trinta anos... - disse Marissol.
- Trinta anos. - respondeu Carlos.
- Trinta anos de solidão...
- Trinta anos de solidão.
- Há dois anos prometi pra mim que até os trinta eu casaria...
- Aos vinte e oito me prometi que dos trinta não passava.
- É difícil arrumar uma pessoa como eu neste fim de mundo. Que seja caseiro, goste de ler, quieto, mas não perca uma noite forró e forrochô...
- Também acho. Também não consigo encontrar alguém assim... acho que você é a única pessoa deste jeito que conheço, mas...
- Mas o quê?
- Mas você é minha irmã.
- De criação.
- Dá no mesmo.
- O homem não tem o direito de criar parentescos que Deus não criou.
- Não, mas você... - Marissol interrompeu, pousando seu indicador direito sobre seus lábios e então beijou-o

A paixão foi imediata. Em duas semanas, Carlos pediu a mão da bela de cabelos negros.

Ambos de família tradicional, o casamento foi marcado para o dia 22 de maio, mesmo sendo uma segunda-feira. Marissol convidou Marvin e Kessie como padrinhos, ao passo que seu noivo optou pelo irmão da noiva, futuro cunhado e velho amigo, João. Como madrinha, convidou Cláudia, antiga amiga do forró.

No dia do casamento chovia cântaros, inviabilizando que qualquer um saísse de casa, mas os noivos e os padrinhos não poderiam se permitir tal acomodação. Uma amiga e um jovem menino, filho do vizinho, seguravam o vestido de Marissol, a fim de impedir que este sujasse de lama. Quando finalmente estavam a poucos passos da igreja, todos encharcados e com os pés cobertos por barro, viram o topo da torre da sacristia levantar vôo, indo pousar do outro lado da cidade, mas largando o sino logo na decolagem e pousando-o caprichosamente sobre a cúpula do altar, abrindo uma enorme clarabóia.

Marissol caiu de joelhos, com as mãos sobre o rosto, aos prantos. Sua amiga agachou-se para consolá-la enquanto o bem intencionado menino que a ajudava permaneceu segurando o vestido por um tempo, sem querer expondo a coxa da noiva, enquanto fitava, incrédulo, a pequena igreja. Marissol retornou ao seu lar, amparada pela amiga.

Uma segunda tentativa haveria de se realizar dali a dois meses, não fosse a forte pneumonia que atacou o noivo na véspera da cerimônia, deixando-o de cama.

Marcou-se nova data para o casamento: em quinze dias ele ocorreria, mesmo sob as mais adversas circunstâncias. Mas desta vez foi o padre quem adoeceu no próprio dia da celebração, de forma que não havia tempo para que outro pároco viesse da capital do Estado. Não adiantava recorrer às cidades vizinhas, pois o mesmo padre respondia por todas as paróquias, indo de cidade em cidade.

Desesperada após o terceiro fracasso, Marissol foi chorar nos colos de Marvin, o Livreiro.

- Não é possível, Marvin, toda vez que vou casar alguma coisa acontece! Não é normal uma coisa dessas! Alguém deve ter jogado um mau olhado, me ajuda! - desesperou-se a eterna noiva.
- Minha querida, a mente pode tudo. Só que mais poderosa que a mente de um é a mente de todos.
- O que você quer dizer?
- Que qualquer crendice popular funciona simplesmente porque as pessoas acreditam que funciona, que os entes folclóricos existem porque acreditam neles...
- Que meu irmão corre rápido como um raio porque ele acredita que pode. - interrompeu Marissol.
- Exatamente.
- Então quer dizer que se eu não acreditar em mau olhado ele não vai funcionar.
- Exatamente, minha querida, mas você tem que não acreditar de verdade. Se você ficar repetindo na sua cabecinha que não acredita é porque na verdade ainda acredita. Você não tem que tentar não acreditar, você tem que não acreditar.

Marissol enxugou as lágrimas e recompôs-se.

- Fácil assim?
- Fácil assim. Agora, tem que ver se é mesmo mau olhado. Pode ser por motivo de alguma outra crendice, aí você vai ter que descobrir qual a crendice e desacreditar dela.
- Ai Minha Nossa Senhora, bem que eu tava achando muito fácil! Mas como eu posso descobrir qual a crendice?
- Pensa qual é a capaz de impedir casamento. Mas a melhor forma de você se proteger de tudo não é usando figuinha, nem carregando alho. Simplesmente desacredite tudo que possa influenciar na sua vida sem depender de você. Tome as rédeas.
- Ah, mas não acreditar em mais nada assim é difícil.
- Um trabalho de anos... e o pior é que depois de desacreditar tudo, você tem que passar a acreditar em tudo.
- Hã?
- Ah, minha filha, acho que falei demais. Desse jeito vou acabar enrolando a sua cabecinha. Por hora, faça o seguinte: descubra o que está te impedindo de casar e desacredite esta coisa.
- Mas como eu posso descobrir o que me impede?
- Acreditando que você pode descobrir. Este mundo é um jogo de acreditar e desacreditar. Dominando estes dois verbos, você domina o mundo.
- Ai... mas parece tão difícil. - disse a doce menina, com rosto de desânimo.
- Alguém aqui falou em facilidade?

Marissol deu um tímido sorriso e abraçou o cigano, que em seguida levantou, perguntando à sua amiga se gostaria de beber um chá de maçã. Diante da resposta afirmativa, abriu uma imperceptível porta, na qual Marissol jamais havia notado, sob a escada do sótão, que dava para a cozinha. A menina segui-o e espantou-se com o que viu. Embora olhando pelo lado de fora da casa nada se visse ali, a discreta porta dava para uma ampla cozinha de mármore branco. Contava com um fogão a lenha, um a gás com uma chaleira em cima, duas pias, um armário de madeira no alto da parede do canto direito e uma prateleira na parede oposta à porta, repleta de saches de chá, de variados sabores.

- Nossa Senhora de Lurdes, como pode ter uma cozinha deste tamanho onde não tem espaço pra nada! - espantou-se Marissol.
- Simplesmente acreditando nela. - respondeu o cigano, enquanto procurava o chá de maça em meio a tantos sabores.

Os dois beberam o chá numa mesa da biblioteca e conversaram amenidades, acompanhados, no final, pela divertida Kessie.

Marissol foi embora impressionada e certa que bastava acreditar que encontraria o motivo para não casar e então desacreditá-lo, que a cerimônia se realizaria. Dormiu ansiosa, porém tranqüila.

No dia seguinte retornou à livraria de Marvin, mas desta vez não o procurava. Tinha ido ao encontro dos livros.

Após quinze minutos de pesquisa, encontrou uma enciclopédia de superstições. Nela, viu uma que poderia enquadrar-se ao seu caso. Diziam as letras: "aquela que tiver o pé varrido jamais se casará." Pensou, pensou, pensou... e lembrou-se. Quando era criança, seu irmão adorava brincar de espada com o vizinho, utilizando a vassoura. Quando a brincadeira terminava ele ia guardar sua arma, mas caso encontrasse com a irmã no caminho, varria-lhe o pé de pirraça, para que a piaçaba a espetasse. Devolveu o livro à estante e foi para casa. No caminho riu de como era boba em imaginar que as varridas que são irmão dera em seu pé na infância poderiam impedi-la de casar. Para certificar-se que realmente havia jogado tal crença fora, ao chegar, pegou uma vassoura e pôs-se a varrer, calma e ironicamente, seu próprio pé. Em seguida, dirigiu-se à casa do noivo.

- Meu amor, podemos remarcar o casamento, tenho certeza que desta vez dará tudo certo.
- Que Jesus te ouça...

Marcaram a cerimônia para dali a sete dias.

Era uma noite de lua cheia, que iluminava a bela tez da noiva. Ela caminhou majestosamente em direção à igreja, iluminada pelas luzes artificiais e pelo sol refletido no satélite. Adentrou a Igreja de braços dados com seu pai, que entregou-a ao noivo. Todos, inclusive o padre, o noivo e os padrinhos, pareciam tensos e com pressa. Queriam realizar a cerimônia logo, antes que algum imprevisto novamente jogasse tudo pelos ares. Apenas Marvin parecia sereno e sorriu discretamente para Marissol quando esta chegou ao altar.

O sermão foi curtíssimo. Era nítido o desconforto e a tensão geral. Todos olhavam em volta, verificando se estava tudo em ordem, se o teto ou a parede não ameaçavam desabar... alguns, por segurança, preferiram assistir à cerimônia do lado de fora da Igreja.

Como Marissol e Marvin tinham certeza, o casamento transcorreu perfeitamente. Os noivos trocaram as alianças, o padre declarou-os marido e mulher e todos tiveram uma ótima noite de festa na Praça Central, acompanhados por uma enorme e laranja lua, ao som da banda da madrinha e do irmão da noiva, Chorões do Rio Preto.


por Renato Amado * 1:26 PM

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[Sexta-feira, Novembro 26, 2004]

As insignificantes opiniões literárias do Amado

"Lolita", romance de Vladimir Nabukov (ou algo perto disto) - trata-se de um ótimo romance, narrado em primeira pessoa, que narra a história de como um intelectual veio a se apaixonar por uma ninfeta. Nenhuma elocubração é escondida do leitor, permitindo que vejamos o protagonista não como um cara mau, mas como uma pessoa que trabalha dentro de outra lógica. O livro bate de frente com conceitos como "mau" e "bom" e nos mostra como talvez o que exista são diferentes formas encarar o mundo. Acho que o filme "Fale com Ela" mostra muito bem isto. Alguém diria que aquele rapaz que estuprou é menina em como é um monstro, como o que vendo o corpo da protagonista em coma de Kill Bill? Enfim, o livro nos ajuda a tentar compreender melhor a mente alheia antes de taxar as pessoas com adjetivos que parte de conceitos culturais que nem sempre são compartilhados por mentes doentias. O livro é grande e sinceramente acho que poderia ter umas trinta páginas a menos, que seria perfeito. Mas continua sendo muito bom e recomendo.



por Renato Amado * 1:08 PM

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[Terça-feira, Novembro 16, 2004]

Experiências espiritualmente provundas - ainda sob a influência de um certo Charles...

Missa de 7º dia da diretora do colégio onde estudei primário e ginásio. Ótima oportunidade para resolver algumas pendências. Canivete no bolso, camisinha na carteira, lá fui eu.

Antes da missa, pessoas que há muito não se viam ficam felizes em se rever, contudo, a etiqueta não permite grandes sorrisos e abraços alegres. Encontro minha velha e interrompida inimizade. Um breve e seco aperto de mão. Vamos ao ¿Glória Aleluia¿.

Terminadas as sessões de reza, os velhos amigos decidem tomar um chopp na Cobal. Vou junto, assim como minha namoradinha de quinze anos atrás e meu velho rival. Sento-me entre os dois. Sorrateiramente coloco meu braço por trás da cadeira da velha amada, enquanto aproximo meu rosto. Quanto estou quase conseguindo o beijo de língua que fora negado anos antes ("de língua só depois dos dezoito"), meu inimigo me cutuca pedindo um cigarro de bale. Maldito! Todos sabem que detesto cigarro de bale! Isto é fumo de maricas, de cara que quer tirar ondinha! Cigarro de mauricinho, de playboy, almofadinha! Respeito mais quem me pede um Carlton.
- Não fumo - disse.
- Você não fuma?
- Não cigarro de maricas.
- Ih... cigarro de maricas... qual é a tua cara?

Pronto, era a oportunidade que eu esperava. Levantei-me da mesa, armando o canivete e chamei o indivíduo para cair dentro. Ele hesitou, mas levantou. Quando avançou, cravei-lhe a lâmina na barriga. Quando ele se curvou, com as mãos no abdome, levantei sua cabeça e cortei-lhe o pescoço, causando um derramamento de sangue a la Kill Bill. Puxei a cachorra que tentava pegar pelo braço e corri para dentro do carro. Para minha surpresa ela gostou do meu ato.
- Nossa, que excitante!
- Gostou boneca?
- Nossa, que excitante!
- E aquele beijo de língua que você me devia? Agora você já é maior de dezoito.

Ela enfiou a língua na minha boca, enquanto eu acariciava sua xota.

- Nossa, que excitante! - ela disse.
- Vamos para um motel?
- Nossa, que excitante!

Seguimos para o motel Panda, próximo dali. Este motel tem duas peculiaridades: é caríssimo; o período dele é de doze horas, não aceita menos. Entramos. Arranquei sua camisa, rasguei seu sutiã e tirei sua saia em um átimo. Atordoada, ela tentava arrancar minha roupa, mas ao ponto de excitação em que se encontrava, sequer tinha coordenação para tal. Despi-me, então, deitei-a na cama e comecei a chupar seus mamilos.

- Nossa, que excitante! - ela disse.

Beijei e mordi seu pescoço, lambi sua orelha, apertei sua bunda e meti. Foram dez minutos de estocada, em variações de papai e mamãe, tais como frango assado e "T". Mas este foi apenas o primeiro de cinco coitos.

Ocorre que tenho um sério problema. Enjôo das xotas com incrível rapidez, de modo que a quarta caralhada, forçosamente, teve que ser pelo cu e sem preservativo, pois levara apenas três. Bom, meus caros leitores, é aqui que começa a parte surreal da história.

Estávamos fazendo um clássico e até monótono sexo anal, quando após um ronco vindo do ânus da minha parceira, ocorreu uma alteração de pressão e nada mais se movia. Nem mais para dentro, nem para fora. Eu forçava, mas não conseguia retirar ou meter sequer um milímetro. Só havia uma saída: emergência do Miguel Couto.

Nos enrolamos num lençol de casal e entramos no carro. Eu cuidando dos pedais e da marcha, enquanto ela se responsabilizava pelo volante. Num dado momento, ela teve que fazer uma brusca manobra para não bater em um carro que avançara o sinal, quase nos abalroando.

- Só me faltava levar uma batida agora. - eu disse.
- Nossa, que excitante! - ela respondeu.

Minha parceira parecia estar gostando da brincadeira, talvez porque ela não fosse professora em uma faculdade de medicina.

Chegando à emergência, ocorreu o que eu mais temia.

- Professor! O senhor por aqui!

Pensei na minha carreira, dei meia volta e decidi procurar outro hospital. Fui para o Padre Severino, na Barra da Tijuca. Nenhum aluno desta vez.

- Doutor?
- Sim?
- Estamos com um problema um tanto o quanto delicado e provavelmente inédito.
- Pois não.
- Bem, é que... houve uma um problema de pressão, criando um vácuo e... bem, acho que o senhor já compreendeu.

Ele fez uma cara de interrogação, olhando para nossos corpos, dispostos um atrás do outro e enrolados num lençol, como quem diz: "é isto mesmo que eu estou pensando?"

- É, doutor, é isto mesmo que o senhor está pensando.

Ele tirou o lençol e inseriu um catéter no orifício da minha namoradinha.

- Ai! - eu disse.
- Nossa, que excitante! - ela disse.

Respirei aliviado, cobri-me, junto com minha parceira, no lençol e fomos até o carro, onde comecei a vestir-me. Eis que ela exclamou.

- Pera aí, mas nós não terminamos!

Bom, pelo menos desta vez ela mudou a frase. Merecia algo por isto. Qual era o mau? Afinal, um raio não cai duas vezes no mesmo lugar. Roguei-a para que não peidasse e comecei a meter.


por Renato Amado * 5:10 PM

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[Quarta-feira, Novembro 10, 2004]

Sansara, a cobra e a política

Sansara já não mais suportava esta encarnação. Sempre odiara cobras. Todos, na alta cúpula celeste, sabiam de sua repulsa por este animal. Aliás, ter transparecido este tipo de fraqueza foi, sem dúvida, um grande erro.

A política celeste é ainda mais agressiva que a terrena. Cá, neste plano em que nos encontramos, quando um grupo atinge o poder, trata o rival de forma amigável, na esperança de que este dê-lhe uma ajuda, ao menos nas questões mais cruciais. Já no plano além-nuvem, inimigos políticos dormem e acordam, todos os dias, odiando-se.

Quando a Frente Almas Liberais Terrenas tomou o poder, após duas eras na oposição, vingou-se, com extremo vigor, dos antigos situacionistas. Vários membros de terceiro e segundo escalão foram reencarnados em seres desprezíveis, destes que fazem a alma regredir, tais como vermes, piolhos e protozoários. Já os pertencentes ao primeiro escalão do Governo Celeste foram reencarnados em seres de vida mais longa, para que fossem mantidos durante um maior período distantes da política sobrenatural, mas incapazes de uma boa comunicação como os papagaios. Deste forma, o ótimo trabalho de organizações como o Projeto Tamar foi de grande serviço para os novos governantes dos céus. Certo é que dentre cada mil tartaruguinhas recém-nascidas, apenas uma ou duas chegam à idade adulta, mas isto não era nenhum problema para os novos donos do poder, afinal, sem dúvida alguma, as sobreviventes eram as ocupadas por espíritos antigos e poderosos.

Cobras não são tão longevas como tartarugas, mas têm uma capacidade de comunicação muito limitada, o que dificulta que uma alma já tão evoluída como Sansara faça algum proveito de tal encarnação.

Chacrinha era, sem dúvida, uma alma evoluída, pois a evolução dá-se através, principalmente, da comunicação, de forma que almas mais experientes, para continuarem no seu processo evolutivo, necessitam de uma intensa comunicação. As almas mais jovens costumam encarnar em animais simples ou vegetais, pois, primeiro, dá-se a comunicação com o mundo. Quando este é enfim compreendido, passa-se, então, à etapa mais complexa: entender os seres que nele habitam. Esta compreensão dá-se pela observação e pela comunicação, de modo que "quem não se comunica, se trumbica", ou seja, não evolui.

Encarnar como cobra é o sonho de toda alma jovem. O sexto sentido do qual este animal é dotado proporciona uma compreensão de mundo que nenhum outro ser é capaz de ter, contudo, Sansara há muito já ultrapassara este estágio. Para que o leitor possa entender como nossa protagonista sentia-se, só vislumbro uma analogia terrena capaz de ilustrar bem o caso: imagine um mestrando obrigado a ter que freqüentar, durante um ano, uma turma de alfabetização. Certamente aquela encarnação seria inútil para Sansara.

Entretanto, durante suas rastejâncias de réptil, Sansara deparou-se com algo familiar. Viu um humano que reconheceu. Neste momento, apesar de jibóia (ao menos, no processo de encarnação, Sansara conseguiu desviar-se para o corpo de uma cobra imponente), teve dois sentimentos extremamente humanos: desprezo e ódio. Estava a ponto de atacar o maldito, quando este entrou em um jipe.

Aquele sentimento inerente apenas a humanos e almas desencarnadas inquietou a cobra, dando um nó na sua psique, até então quase inexistente. Sansara passou dias e noites rastejando, inquieta, de um lado para outro, sem dormir. Tentava, involuntariamente, compreender o que ocorrera ao ver aquele homem. Eis que, de súbito, uma imagem veio à sua cabeça: a alma que ocupava aquele corpo, sobre um palanque celeste, dizendo que, após milênios de retrocesso, nas mãos dos miseráveis idealistas do atraso, o mundo voltaria a progredir, tal qual na Grécia Antiga.

Não era qualquer alma, principalmente na forma de uma cobra, que conseguia lembrar-se de um fato celeste. Estava escancarada a incompatibilidade havida entre a alma Sansara e a primitiva jibóia. Ela necessitava de um corpo humano e sabia disso.

Plenamente ciente da sua condição de alma reencarnada, Sansara sabia que suicidar-se não adiantaria, uma vez que, com seus inimigos no poder, não reencarnaria em melhor condição, salvo uma grande evolução nesta encarnação, o que faria com que ela retornasse ao cenário celeste com muito mais poder e influência. Deveria descobrir um meio de trocar de corpo com a alma rival que encontrou durante suas rastejâncias. Como alma antiga e uma das mais poderosas e sábias existentes, sabia que nada era impossível, mas difícil ou dificílimo. Bom, atingir a consciência da sua condição de alma e lembrar-se de fatos do além já era algo praticamente inalcansável. Fazê-lo na forma de um réptil, então, era inédito, mas Sansara foi capaz. Sentia-se, agora, no seu auge, mais nada lhe parecia impossível. Mas como prosseguir?

Sansara rastejou, rastejou e rastejou, durante muitos dias, pensando, até que, mais uma vez, deparou-se com uma alma conhecida e novamente um sentimento humano atacou-lhe: ternura. Era Cristóvão, uma poderosa e antiga alma, de espírito aventureiro, que gostava de longas encarnações. Envolvia-se com a política celeste, mas abaixo do que seu poder permitiria. Era conhecedor de profundos mistérios, desbravador do mundo e a alma de maior IEPE (Índice de Evolução Por Encarnação). Estava num corpo muito velho, já curvado, utilizando bengala e a esta altura da sua encarnação, poderosa como era, provavelmente já tomara consciência do mundo celeste. Sansara aproximou-se lentamente, para evitar um susto. Não chegou por trás, mas pela frente, com a cabeça erguida, na esperança de que Cristóvão a reconhecesse. Este franziu o senho e observou-a, com a bengala erguida, por precaução. Ambos estáticos, a enorme jibóia e o velho, durante vários minutos, nenhum se movia; três metros os separavam.

- Sansara? - indagou o velho.

A jibóia consentiu com a cabeça.

O velho abriu um largo sorriso e disse:

- Oh, minha querida! Que saudade, como quero abraçar-te e te cumprimentar, mas não faço idéia de como se abraça uma cobra.

A jibóia andou em sua direção e começou a enroscar-se em seu corpo, como faz para matar suas presas, por sufocamento. Após enroscá-lo dos pés ao peito, soltou-o.

- Bem pensado - disse Cristóvão - venha, porque não entra um pouco, para conversarmos mais a vontade?

Saíram do quintal da casa do velho e abriram uma porta que dava para um livraria repleta de livros antigos, com tapete verde, um abajur feito de osso de tigre e pele de lhama, algumas pequenas mesas e cadeiras de madeira, numa das quais uma senhora já velha, porém ao menos uma geração abaixo do velho, estava sentada lendo e tomando um chá. Ao ver aquela enorme cobra adentrando a livraria junto com seu marido, a velha, assustada, deu um pulo da cadeira, levantando esta com as mãos para proteger-se.

- Calma, minha velha, esta é uma antiquíssima amiga.

A velha fez uma expressão de profunda interrogação, mas como não duvidava de mais nada vindo do seu marido, sentou-se na cadeira e retomou sua leitura.
- Vamos, amiga, vamos lá para o quarto, para não assustarmos os poucos fregueses que de vez em quando aparecem. - disse o livreiro.

Subiram, então, uma escada tosca, composta por velhas tábuas de madeiras, que dava para um sótão, com um colchão de casal, um abajur e uma pequena pilha de livros ao lado deste. O velho sentou-se no colchão, encostando suas costas na parede oposta à entrada, utilizando dois travesseiros para permitir maior conforto. Sansara foi para a extremidade oposta ao colchão, onde utilizou todo o cumprimento do quarto para espichar seu enorme corpo.

- Então, minha cara, em que posso lhe ajudar? - indagou o livreiro.

O diálogo entre um velho humano e uma jibóia, embora surrealista, transcorreu muito bem. Bastava Cristóvão olhar para os olhos de Sansara que compreendia o que esta queria dizer. Ela explicou-lhe o que ocorrera e o que desejava fazer, indagando-o, por fim, se ele sabia como realizar esta complexa operação.
- Sei. - respondeu o velho.

Alma conhecedora dos grandes mistérios do mundo, uma das mais evoluídas de que se tem notícia, Cristóvão explicou a Sansara como proceder.

Durante a madrugada, a cobra se dirigiu ao local onde vira o espírito rival, na companhia do velho. Tratava-se de uma fazenda, a poucos quilômetros da cidade. Cristóvão abriu, cuidadosa e silenciosamente, a janela, permitindo que Sansara rastejasse para dentro; ele entrou atrás. Viram-se numa grande sala, com lareira, cadeiras de madeira com tiras de couro escura onde se podia sentar, sofás, poltronas, uma enorme mesa de jantar, com cadeiras suntuosas. Tudo quanto possível de madeira e o que não era composto por este material, possuía cores que o imitavam. Havia uma porta de correr, que preferiram não abrir, uma vez que a obviedade indicava não ser ali o quarto. Subiram, então, uma escada de madeira, produzindo um certo rangido. O segundo andar contornava a escada e era composto por diversas portas, talvez dez. Sansara, aproveitando seus sentidos de cobra, foi capaz de descobrir quais os cômodos ocupados. Eram dois. Escolheram um aleatoriamente e tiveram sorte. Ao abrir a porta, viram o prefeito de Maricá do Rio Preto, encarnado por um espírito inimigo de Sansara e Cristóvão, acordar de sobressalto, abrindo uma gaveta do criado-mudo, a fim de sacar uma pistola. Sua mulher, que dormia ao lado, também levantou assustada. Contudo, antes que o prefeito pegasse a arma, o livreiro, capaz de relativizar o tempo, deslocou-se andando, na sua realidade temporal lentamente, apoiado na sua bengala, até a o local onde seu inimigo estava e deu-lhe uma forte bengalada na cabeça, jogando-o de volta para a cama. Em seguida, ainda com a vantagem do tempo correr a seu favor, deu mais três pauladas na cabeça do prefeito, levando-o a nocaute, enquanto sua mulher se espremia numa extremidade do quarto, amedrontada. Sansara dirigiu-se ao rival nocauteado, enquanto o velho imobilizava a primeira-dama municipal. Aquela, então, começou a deslizar sobre o corpo imóvel, de barriga para cima, sobre a cama, do prefeito, até chegar à sua boca, quando, então, começou a entrar pelo seu corpo, saindo pelo ânus. O homem permaneceu inerte e inconsciente enquanto a gigantesca cobra o penetrava. Quando esta saiu completamente, o prefeito acordou sobressaltado e se afastou da cobra, com sua integridade física milagrosamente intacta. Ele, então, segurou a jibóia pela cabeça, enquanto o livreiro, dilatando o tempo, levou o jipe do prefeito para a porta da casa. Cristóvão subiu as escadas, ainda fazendo uso de suas habilidades com o tempo e ao chegar ao quarto, ajudou o prefeito a segurar a jibóia. Desceram as escadas segurando o animal e colocaram-no dentro do porta mala do jipe. Dirigiram durante toda uma tarde, a princípio por estrada de terra e em seguida, pelo mato. Só, então, soltaram o animal e retornaram à cidade.

Sansara, agora conhecida, no plano terrestre, como Prefeito ou Seu Bonjardim, acabou com as políticas clientelistas e não conseguiu ser reeleita. Sem dúvida esta passagem terrena será de grande valia para ela pois, desde já, aprenderá as artimanhas da vida de oposicionista.


Obs.: foi sem lisérgicos, eu juro!

Bom, depois deste conto totalmente viajante, que tal um pouco de crítica literária. Afinal, se este é um blog literário, porque não falarmos sobre a literatura, afinal, sem ela isto daqui não existiria. É isto aí, esta inaugurada a seção As insignificanes opiniões literárias do Amado. Vamos lá.

Começo pelo fim, ou seja, pelo último livro que acabei de ler: Numa Fria, de Charles Bukowski.

Bukowski é o típico cara que quer saber de álcool e fodas, para usar um linguajar bem típico dele. As palavras xoxota, foda e uísque são as mais utilizadas no livro, além de um blasé "tudo bem". Este livro é de contos e embora o nome dos personagens seja trocado a cada um deles, embora alguns se repitam, são todos os mesmos, o próprio Bukowski. Este cidadão me gera, simultaneamente uma certa admiração e repulsa. Admiração por ser capaz de dizer "tudo bem" ou "entendo" frente a notícias catastróficas, como, "sua irmã foi estuprada". Serenidade 100%. Contudo, esta postura "foda-se" denota um certo egoísmo, tipo, a onda é curtir a vida e foda-se! Ora, as vezes me pergunto qual a diferença entre o playboy e o boêmio alternativo que passa a vida inteira curtindo com pouco dinheiro. Não sei, mas sei lá por que este segundo me atrai um tanto e confesso que dentro de mim há um Bukowski. Sem dúvida que ele é apenas uma fração de mim, mas lá está e atualemente mais forte do que nunca.
Bukowski usa um vocabulário simples e repete muitas palavras. Pode-se até dizer que há uma certa pobreza vocabular. Os contos dele são essencialmente divertidos, além de mostrarem um estilo de vida que pode ser atraente. Assim como o filme Cazuza, Bukowski influencia, para o bem ou para o mal. Digamos que o cara era um filho da puta legal.
Se alguém pensa em ler, recomendo a leitura. Pocketbook, lê-se rápido, literatura leve. O livro é repetitivo, as personagens e situações não variam tanto, mas como é pequeno, tá tranqüilo. Não leria um livro de 300 páginas escrito por ele.

Para manter o clima bukowskiniano, beijundas, beicetas e boas fodas a todos.

Ah, confesso que escrevi um conto totalmente influenciado pelo sujeito. Se alguém quiser vislumbrar um pouco do estilo, leia o post "Pela Moral e os Bons Costumes". Meu estilo de escrever é bem diferente do dele, mas o conteúdo dos contos dele é levemente semelhante ao deste.




por Renato Amado * 6:05 PM

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[Segunda-feira, Novembro 08, 2004]

Metrossexualismo de Rincão

Desta vez os ciganos chegaram a Só Sebastiana trazendo cosméticos e afins, comprados em camelôs italianos, mas sempre contendo o nome "Paris". Beatriz se apaixonou pela "loção cremosa para as mãos", Lurdes comprou cinco frascos de "creme para celulite", Gilda adquiriu todas as "loções para escovação pós-banho de cabelos secos e cacheados, suavemente claros". Cláudia, por sua vez, acabou comprando barato todos os frascos de "shampoo de camomila para clareamento de cabelos lisos, normais, compridos, sem ponta dupla, jamais pintados, para mulheres decididas." O bom preço foi porque Cláudia era a única habitante da cidade que se enquadrava em tais especificações. Embora Lídia tivesse cabelos lisos, normais, compridos, sem ponta dupla e jamais pintados, ela ficou em dúvida entre o produto em questão e "condicionador 2 em 1 de aloe vera, aromatizado por algas, para cabelos normais." Como aquele produto, em suas especificações, exigia que a mulher fosse decidida e Lídia ficou em dúvida sobre qual dos eau de toillete adquiriria, comprou este.

Serginho decidiu indagar aos ciganos se aqueles produtos o deixaria semelhante aos atores de T.V. Diante da resposta afirmativa, foi o primeiro homem do Vale do Rio Preto a engajar-se no mundo dos cosméticos. Comprou um ¿creme facial para peles oleosas¿.

Robinho assustou-se ao ouvir a justificativa do atraso do amigo para um compromisso marcado.
- Tava ficando igual aos cabras da T.V.
- Como?
- Passei este creme aqui, olha. Ele melhora a sua pele, deixando você pintoso como os cabras da televisão. Comprei com os ciganos, acho que eles ainda têm mais. Você vai ver, em três meses eu vou estar pegando todas as cocotas desta cidade, haha.
- E quem te disse que isto daí funciona?
- Os ciganos.
- E você confia nestes cabras!?!
- É que vi um produto igualzinho a este na TV, que dizia que acabava com as espinhas e equilibrava a oleosidade da pele, deixando a pessoa muito mais atraente.
- Ah, você viu um igual na TV!?! - excitou-se Robinho.
- Isso.

Robinho ficou pensativo durante alguns segundos, com a mão no queixo, e então, disse:
- Espera um pouquinho aí, que vou comprar um igual.

Robinho, então, comprou o seu "creme facial para peles oleosas" e em seguida, tentou convencer Ricardinho a fazer o mesmo.

- Vamos lá, cara, esta é a sua chance de sair desta foça!
- Não me apoquente não, homi!Cuida lá dos seus que eu cuido cá dos meus! Já falei que não ponho mais a cara na rua.
- E seu eu trouxer um pra você, você usa?
- Aí posso pensar.
- Sua pele é seca ou oleosa?
- Cumé?
- Sua pele é seca ou oleosa?
- E eu sei lá que diabos é isso!?!
- Quando você passa a mão no seu rosto, ela fica assim... como eu vou dizer... meio brilhando, engordurada?
- Brilhando fica a mão da minha mãe, quando ela passa esmalte.
- Não, o esmalte é só na unha. Tô falando assim... se seu dedo, na parte que você esfregou no rosto fica brilhando?
- Meu dedo mesmo que não. Coisa mais esquisita, dedo que brilha! Nunca vi isso.

Diante da resposta do amigo, Robinho elaborou um diagnóstico sobre as qualidades da pele de Ricardinho. Então, deu-lhe de presente um "creme facial para peles secas, sensíveis e pouco porosas". Pronto, pensou, agora o Ricardinho vai deixar de lado este negócio de não sair de casa porque é feio. Só porque ele é completamente diferente dos moços da televisão? Pois agora ele vai ficar idêntico. Se bem que o caso dele é grave... acho melhor eu levar também esta "tinta de clareamento" e este "alisador de cabelo elétrico", além é claro desta cera quente, para ele depilar os pêlos do peito, porque ator jovem de TV nunca é muito peludo. Ah, sim, um pó de arroz também cai bem, assim como este lápis para dar um retoque na sobrancelha, deixando ele com um rosto um pouquinho mais imponente. Deixa eu ver o que mais... hmmm, acho que um creme para as mãos vai cair bem, afinal o Ricardinho tem a mão dura e cheia de calo. É, mas já que estou cuidando dos calos da mão, acho que posso fazer o mesmo com os dos pés. Uma lixa para o pé resolve este problema. Um gel para ajeitar o cabelo, depois de alisado, também é uma boa. Vai sair caro, mas faço isto por um grande amigo.

Chegando à casa onde Ricardinho morava com sua mãe e sua irmã mais nova, Robinho entregou as compras ao amigo e deu-lhe um forte abraço, rogando por melhoras e coragem e lhe garantindo uma nova vida após o uso dos produtos levados. Foi embora na certeza de que, em breve, o amigo de infância sairia da vida reclusa, oriunda de um trauma adquirido após ouvir da menina pela qual era apaixonado que ele não a interessava, por ser "um caboclo pixaim, diferente de qualquer homem que a gente vê nas novelas". Este golpe atingiu Ricardinho até o fundo, penetrando no terreno obscuro do cérebro humano, levando-o a um estado semelhante à loucura que o prendia em casa até então. Convencido de sua feiura frente aos padrões vigentes, Ricardinho decidiu não mais incomodar aos demais olhos e trancou-se, de uma vez por todas, na casa de seus pais, onde apenas estes eram obrigados a tolerar aquele rosto terrível e, mesmo assim, Ricardinho os poupava o máximo possível, olhando sempre para baixo, tentando manter escondida a maior parte de sua fisionomia. Os únicos que recebia em seu quarto eram Robinho e Serginho, mesmo assim, com muita má vontade. Mas aqueles produtos traziam uma esperança.

Cabelo liso e loiro, pele branca de pó de arroz, Ricardinho transformou-se num novo homem. Saiu à rua pela primeira vez, após anos, irreconhecível. Os locais perguntavam-se quem devia ser aquele forasteiro. Alguns diziam que era o fantasma de Affonsín Cierón, que viera assombrar alguns antigos rivais. Segundo diziam, depois de morto o sujeito ficava com a pele pálida e muitas vezes até o cabelo clareava. Contudo, muitos argumentavam que não haveria nenhuma razão para Affonsín ter, na forma de assombração, o cabelo curto, se cultivara longas madeixas durante toda a sua vida. Um consenso pairava, entretanto, sobre uma questão: definitivamente, aquele não era Ricardinho. Os nativos não entendiam por que aquele ser, fosse ele fantasma ou forasteiro, insistia em dizer ser um sujeito que tinha aparência oposta. Todos suspeitavam muito dele, tinham medo e preferiam manter distância, mesmo que os amigos Robinho e Serginho insistissem que o Fantasma era mesmo Ricardinho.

Sequer a mãe e o pai do rapaz podiam acreditar tratar-se de seu filho, mesmo com a identidade de vozes. Ricardinho poderia resolver o problema simplesmente tomando um banho de mangueira na frente de todos, retirando o pó de arroz do corpo, mas preferia ser desacreditado a voltar àquela antiga e tenebrosa aparência de caboclo pobre, com cabelo ruim de negro. Ao menos ainda conservava os dentes, mas a identificação da sua figura com raças excluídas, inferiores, era insuportável. Por mais que Serginho também tivesse a pele escura, ele era um mulato forte e vigoroso, destes que vemos em desfiles de escola de samba. Embora escuro, os traços de Serginho eram de europeu. Nada de beiço grande e nariz arrebitado de porco. Serginho era o típico negro que o establishment dizia bonito, a fim de convencer a plebe de que não havia racismo, mas omitindo que apenas o considerava bonito porque, apesar de negro, possuía traços europeus. Mas Ricardinho não era assim. Tinha pele de caboclo, traços de caboclo e cabelo de preto pixaim. Era o pior resultado possível da miscigenação racial havida nesta terra. Era preferível ser uma incógnita temida, mas de aparência tolerável, a retornar ao velho estado de resumo negativo da nação. Quando saía do banho, Ricardinho só se olhava no espelho após passar o pó de arroz no corpo.

Embora nunca tenha-se chegado a um consenso se Ricardinho era ou não o espectro de Affonsín, por não haver termo melhor para designa-lo, passou a ser conhecido como Fantasma. A palidez da pele, conferida pelo pó-de-arroz, reforçava o codinome. Mas Ricardinho não se incomodava. Sabia que a bela Zulmira gostava dele, mas que apenas o desprezara anos atrás devido à sua aparência repugnante. Ao conversar com ela, a empatia de outros tempos retornaria e Zulmira apaixonar-se-ia pelo Fantasma. O casamento dela certamente dera-se por pressão dos pais, pois não restam dúvidas que Ricardinho era o homem de sua vida, apenas rejeitado por uma questão física já superada. Zulmira não pensaria duas vezes em largar seu marido para ficar com seu verdadeiro amor.

Durante um ano, o Fantasma vagou pela cidade, esperando que a ansiedade diminuísse, pois tinha medo que esta destruísse todos os seus planos, quando ele fosse abordar sua amada. Contudo, notando que tal fato jamais ocorreria, Ricardinho não teve outro opção, senão abordar seu amor, mesmo com os nervos a produzirem descargas elétricas superiores a de uma tempestade de verão. Ele sabia todos os horários dela. Enquanto Zulmira retornava do trabalho para casa, interceptou-a.

- Sei que não é feliz no seu casamento.
- O que você tem a ver com minha vida, seu Fantasma esquisito!
- Escuto as brigas. Sei como ele é repressor e que não te permite um dedinho de prosa com uma amiga, sequer. Você não é obrigada a aturar isto.
- Sei que não sou. - respondeu Zulmira, já emocionada, por lembrar das inúmeras brigas que fazem do seu casamento um inferno. - Por isto mesmo vou embora! - desabafou desamparada, baixando a cabeça, enquanto uma lágrima furtiva corria-lhe pelo rosto.
Serginho tentou abraça-la, mas foi repelido.

- Você não precisa ir embora. Diga ao cabra que quer se separar e fique por aqui. Não precisará ir longe para conseguir outro homem.
- Preciso do dinheiro dele para sobreviver. Paga-se muito mal às mulheres nesta cidade, por isso vou para um lugar onde eu possa ganhar um dinheiro suficiente para ter minha independência.
- Eu te sustento. - precipitou-se o Fantasma.
- Que isso!?! O que você está dizendo, seu louco!?! Você acha que vou me casar com você!?! Mas nem morta, meu querido!
- Também não acredita que eu sou o Ricardinho?
- Olha, se você é ou não o Ricardinho eu não sei. Mas sei muito bem que sendo ou não sendo, não me interessa em nada. O senhor, agora, por favor me dê licença, pois preciso ir para casa resolver minhas coisas. Não sei nem porque resolvi te contar as coisas que disse, foi um momento de fraqueza, porque estou emocionalmente abalada. - disse Zulmira, em tom rude.

A amada de Ricardinho começou a caminhar com firmeza, mas foi interceptada por ele.
- Você não se abriu para mim por fraqueza, mas porque nos amamos. Será que você não vê isto, que nascemos um para o outro?
- Um para azucrinar o outro, só se for. Você é o azucrinador e eu azucrinada. Olha só, esta é a última vez que eu vou pedir-lhe licença, homi. Se você não sair da minha frente quando eu falar a palavra "licença", vou gritar, espernear e te dar um chute nos bagos! - dois segundos de silêncio - Licença.

Ricardinho deixou Zulmira passar, na certeza de que, apesar da repulsa inicial, ela refletiria sobre o que ele disse e, se não viesse a procura-lo em seguida, ao menos o trataria com menos má vontade nas próximas abordagens.

Poucas horas mais tarde, entretanto, no silêncio da madrugada, Zulmira pegaria o cavalo de seu marido e partiria, com uma pequena mala, rumo a Maricá do Rio Preto, onde, enfim, conseguiria a desejada independência financeira, trabalhando no Cabaré da Madame Bardeau.


por Renato Amado * 5:00 PM

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[Domingo, Outubro 31, 2004]

AMADO, FALANDO DIRETO DO NIRVANA - SHOW DO "THE DOORS"NO RIO DE JANEIRO

O PROBLEMA TODO DESTA HISTÓRIA DE SHOW DO DOORS É QUE, AGORA QUE ATINGI O AUGE DA EXISTÊNCIA HUMANA, NÃO SEI O QUE FAZER. DEVO ASSALTAR UM BANCO E PASSAR OS PRÓXIMOS ANOS RONDANDO O MUNDO, ASSISTINDO A SHOWS DO "THE DOORS 21st CENTURY" OU DEVO CONFORMAR-ME QUE DIFICILMENTE VIVEREI OUTRO MOMENTO DE TAMANHA INTENSIDADE? NÃO, ME FALEM DE FILHOS. Por que eu quereria um pentelho me enchando um saco, sugando meu dinheiro, mais tarde querendo meu carro... e mais cedo mijando em mim, depois de ter gastado o dia cuidando dele. Bebês são seres maus e ingratos, o que confirma a teoria hobbesiana do homem natural como um cara mal, filho da puta, lobo do outro. Ah...tô viajando demais. Tudo isto pra dizer que o show não foi foda. Não é possível descrevê-lo porque não existe palavra na língua portuguesa para isto. Logo na segunda ou terceira música (love me two times) pensei: salvo alguma catástrofe que venha a ocorrer, este já é o maior show da minha vida. Com "Breack on Through"percebi que era meu maior momento e com"light my Fire" percebi que o era de longe.

Bom, não sei porque estou escrevendo isto, acho que é uma vontade de dizer de forma sutil: "vocês que não foram vocês são uns otários. Passa fome? Não!!! Então devia ter gasto esta grana. Bom, paguei caro, mas pelo menos agora sei como se senti um jogador de futebol, ao ganhar uma copa do mundo, senti-me igual.

Existem duas coisas das quais ninguém me convence:
1 - que o vocalista não baixou o espírito do Morisson, porque ele tavao Jim;
2 que eu não estava lá dentro do palco, parte integrante do show, da música, como a bateria.

Aos que não foram, aviso que até Breack on Through acompanhado pela bateria da "Mocidade Independente de Padre Miguel"ouvi.

Renato Amado, direto do Nirvana,

câmbio, desligo.

por Renato Amado * 3:06 AM

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[Quinta-feira, Outubro 28, 2004]

Cachimbo da paz

Cansado, ferido, nu e carregando um grande saco de couro cheio, o índio chegou a Só Sebastiana.

- Ih, um índio! Todo ferrado! Índio, o que você faz aqui? - perguntou Robinho.
- Índio foge. - respondeu o Índio - A nossa terra, terra dos índios, é dos índios mesmo, no papel. Já faz alguns anos que as autoridades disseram que aquela terra é só nossa e de mais ninguém. Então, passamos a cobrar dos garimpeiros para eles poderem usar. Acontece que eles nunca aceitaram isto muito bem, então, atacaram a gente nesta madrugada. Poucos sobreviveram. Não sei o que aconteceu com minha família. Fugi para cá.
- Nossa, Índio, o que você pretende fazer agora?
- Dar um jeito de ganhar um dinheirinho por aqui.
- Já sabe como?
- Índio sabe. Enquanto saía da floresta, Índio pegou bastante fumo, que tá tudo dentro deste saco aqui. Vou vender.
- Ih, Índio, acontece que todo mundo daqui compra fumo lá com o Seu João Carlos. Acho difícil que eles parem de comprar com ele para comprar com o senhor.
- Mas fumo de Índio ser diferente. Fumo de Índio proporcionar viagem do espírito.
- Como é que é, Índio?
- Fumo de Índio proporcionar viagem do espírito.
- Nossa, e como é que é esta viagem?
- O espírito fica leve e pode partir para a viagem que quiser, isto depende do espírito de cada um. Quer ser meu primeiro freguês?
- Estou com pouco dinheiro, Índio. Acho que não carece.
- Índio dá provinha de graça.
- De graça até injeção na testa...

- E aí, gostou?
- Vich, Índio, está tudo normal.
- Não por muito tempo.
- Não estou levando fé neste seu fumo não, Índio.
- Espera que fumo de Índio fazer efeito, mas demora uns minutinhos.

- Pô, Índio, então quer dizer que os caras foram lá e começaram a cortar, passar a faca em todo mundo!?!
- É, mais ou menos isto.
- Pô, Índio, que viagem! E você fez o quê?
- Corri.
- Qual é, Índio, deixa de ser peidão.
- Deixa de ser o que, jovem?
- Peidão. Não sabe o que é peidão, não? É como falam os cabras lá da cidade grande. Tem que aprender a falar que nem eles, para tirar onda. Viu, falei que nem eles de novo.
- Tirar o que, rapaz?
- Onda, Índio. Tirar onda. Ficar malandrinho, sacô.
- Sacô.
- Aí, Índio, este seu fumo é arretado, viu?
- Arretado não, é maneiro. Tem que falar que nem os cabras da cidade grande para tirar onda.
- Pô, Índio, como é que você aprendeu a falar maneiro?
- Tem uma TV lá na tribo.
- Uma TV, Índio?!? Que viaaaagem... então, a gente pensa que os índios ficam tudo lá, deitadão na rede, tranqüilão, mas eles tão como? Vendo TV neoroticamente. Mas pega na mata?
- Não, por isso instalamos uma parabólica. - Noooossa, Índio! Tribo com parabólica, que loucura...
- Índio adora ver programa de briga de casal.
- É mesmo, Índio? Estes programas são arretados demais.
- Maneiros.
- Isto, são maneiros demais. Índio, me segue que eu vou te ajudar a vender este trem daí, porque é bom demais.

- Sérginhoooo! Serginhoooo! Aparece aí, homi!!!
- Calma, homi! Precisa gritar assim?
- Anda logo, que o Índio aqui tem um negócio legar para apresentar.

Uma hora mais tarde, nas pedras junto ao Rio Preto...

- Mas aí, Índio, este seu trem vai vender pra cacete! - disse Serginho.
- Com certeza... - disse Robinho, com olhos serrados e aparência de sonâmbulo.
- Aí, Índio, você é o Índio mais gente fina que já conheci! - disse Serginho, empolgado.
- E por acaso você já conheceu algum outro? - questionou o Índio.
- Ih, não. Caraaaaca! Que viagem, me pegou! Quaquaquaqua, quaquaquaqua, quaquaqua...
- Porra, Serginho, dá para parar de rir, cacete! Parece um pato, porra! - disse Robinho, com a cabeça caída contra os braços, que estavam apoiados sobre os cotovelos, que descansavam sobre as pernas. Com a palma das mãos, não parava de esfregar os olhos.

O riso no rosto de Serginho se desfez por completo e ele adotou uma expressão de sepulcral seriedade.
- Qual é, Robinho!?! Deixa eu me divertir em paz!
- Ah, cala a boca. - respondeu Robinho.
- Qual é, Robinho, porra! Não se avexe comigo! Fica na sua que eu fico na minha!
- O problema é que você não está na sua. Esta sua risada de pato empesteia todo o ambiente.
- Vai se ferrar, Robinho!

Robinho não respondeu, deitou-se sobre uma pedra e dormiu o sono dos justos.
Serginho ficou sério, contemplando um redemoinho no rio durante um período e em seguida dirigiu-se ao Índio, quando deu-se conta de sua ausência. Sacudiu, então, seu amigo, acordando-o.

- Que foi Serginho... - disse Robinho, com voz de madrugada.
- Cara, o Índio sumiu!
- Ele não sumiu, ele foi embora.
- Ah é? E como é que você sabe?
- Eu vi, porra.
- Como você viu se você estava dormindo?
- Ele veio me dar tchau.
- Ah... foi te dar tchau... Índio safado! Não vou mais ser freguês dele. Dá tchau para você e não dá para mim, onde já se viu!?!
- Ele deu para você, mongol, só que você estava viajando com rio e nem percebeu.

O Índio foi rodar a cidade, a fim de conquistar novos fregueses, oferecendo pequenas amostras grátis. Mas para a sua surpresa, quando foi fazê-lo ao delegado, levou um tapa na cara que produziu um estalo audível a quarteirões de distância. O saco com a mercadoria caiu no chão.

- Índio vagabundo, de merda! Que falta de respeito é esta!?! Está achando que isto daqui é zona!?! Quer zona vai lá para Maricá do Rio Preto, aquilo sim que é bagunça! Aqui impera a Lei e a ordem! Pode algemar.

Um homem vestindo um colete marrom, com suas iniciais e algumas estrela, que denotavam méritos conquistados através de sua carreira, colocou o Índio violentamente de costas contra a parede. Puxou seus dois braços para trás e o algemou. Em seguida, trancafiou-o numa minúscula cela, com mais sete homens.

A nova moradia do Índio era composta por quatro colchões no chão, uma latrina fétida e imunda ao fundo, um cano que não parava de pingar, com uma torneira em baixo que, caso girada, o transformava numa ducha tosca, paredes e a grade de entrada. O chão era constantemente úmido, consequentemente os colchões também. A roupa de cama limitava-se a um lençol incapaz de cobrir todo o corpo.

- São quatro colchões para sete pessoas, então toda noite, três dormem em pé. Fazemos revezamento, menos o compadre ali, que dorme em casa. - disse, um homem simples, de aparência rústica e humilde, transbordando um certo carisma e muito sotaque interiorano ,apontando com a cabeça para um sujeito bem vestido, com um elegante suspensório preto, calça e sapato da mesma cor e camisa de botões azul clara - Como você está chegando agora, vai ter que ser o último da fila.

Assustado, o Índio assentiu com a cabeça e sentou-se acuado, num ângulo da cela.

- Gato comeu sua língua, homi? - perguntou, o mesmo homem.

O Índio balançou a cabeça negativamente.

- Então por que não fala, homi de Deus? Por que veio parar aqui?
- Índio não sabe, - respondeu - fui vender fumo para delegado e ele bateu e prendeu Índio.
- Você estava vendendo a erva maldita, Índio?
- Não, Índio vendia erva para viagem do espírito.
- Vich... é esta mesma. Índio estava vendendo erva maldita... acho que você vai ficar bastante tempo aqui dentro, então é melhor eu te apresentar o pessoal.

Puxou um negro forte e vigoroso pelo braço.

- Este daqui é o Sansão. Crime: passou a vara na mulher do delegado. Pena: "vai apodrecer aí dentro, desgraçado!"

Fez sinal para um rapaz com cara de cansaço. Sua barba estava por fazer e aparentava ser mais velho do que realmente era. Seu senho estava constantemente franzido. Exalava mau-humor.

- Este daqui é o Antônio. Está preso porque brigou com João num churrasco. - disse o interlocutor do Índio, apontando para um jovem com pose de homem forte e feito, mas que não passava de uma criança crescida. Tinha a pele branca e o cabelo encaracolado em mexas grandes e modernas. Sua pele era ainda de garoto e a barba mal começava a despontar. Parecia buscar tornar-se um homem globalizado. - Disputa por mulé, sabe como é...
- Disputa é o cacete! - interrompeu Antônio - a mulher já era minha e o pirralho resolveu se engraçar para cima dela enquanto eu ia ao banheiro.
- Não me engracei nada! O que eu posso fazer se você não consegue dar conta da mulé e ela precisa de outro homem que a satisfaça?

O mal-humorado jogou seu corpo sobre o do semi-globalizado, então eles começaram a rolar ferozmente pelo chão. Os demais presos, com exceção do Índio e de um de aparência aristocrática, jogaram-se no chão para separar os combatentes. Após levarem alguns socos injustos, os adeptos do deixa-disso obtiveram êxito.

- Bem, continuando... este a minha esquerda é o Juremir. Juremir, apesar desta cara de enfezado e mal, com esta testa que mais parece a Muralha da China (né Muralha?) e estes olhos esbugalhados de bandido, sempre foi um sujeito muito tranqüilo e amoroso, até que flagrou um sujeito rolando no mato com sua filhinha de treze anos. Deu tanto sopapo no cidadão que acabou matando o pobre coitado. - Juremir franziu o senho para o apresentador - Digo, o cabra safado. Depois disto, nunca mais voltou à antiga serenidade. Pena: quatorze anos.

- Aquele ali, ao lado do Juremir, é o Caio. Ele é assim magro, fraco e baixinho, mas ainda tem músculos suficientes para bater numa mulher. Pegou sua dona olhando um cabra mais moço no forrochô. Então, não teve dúvida, quando chegou em casa, deu-lhe uma lição. Acontece que a esposa dele tinha visto, dois dias antes, um programa na TV que dizia para as mulheres que apanhassem do marido irem para a delegacia, fazer queixa. Ela, então, resolveu copiar e agora chora em casa a falta do marido, que vai passar dois anos aqui dentro. Ela tentou retirar a queixa, mas não deixaram.

- Por fim, aquele ali no canto, fumando um charuto e com cara de patrão é o Thomas. Mas presta atenção, é "Tômas", se você chamar ele de "Tomás" ele fica bravo. O Thomas desviou o dinheiro que era para fazer um hospital, para construir uma piscina na casa dele, a única da cidade. Ele consegue tirar um dinheiro bão todo mês cobrando entrada para as pessoas poderem ir para a piscina. Ele deve ser sempre bem tratado aqui dentro porque nos paga para isto. Assim como o delegado também o trata bem. Passa só o dia e o início da noite aqui dentro. Na calada da madrugada, quando já não tem ninguém na rua, o delegado vem aqui e abre a porta para ele, que volta de manhã cedo. Pena: o delegado disse que se ele quiser ir embora na semana que vem não tem problema.

- E finalmente eu. Sou o Zé Galinha. Ao contrário do que você pode pensar, não ganhei este apelido por ser um grande conquistador, mas porque fui preso acusado de roubar a galinha da mulher do prefeito, sem trocadilho, por favor. A galinha da mulher do prefeito fugiu e a primeira dama cismou que alguém tinha roubado. Como eu fui visto passando em frente a casa de Sua Excelência mais ou menos na hora da fuga, então cismaram que fui eu que roubei a galinha, mas eu tenho certeza que ela fugiu, porque uma vez eu vi esta galinha tentando pular a cerca do curral e ela quase conseguiu. De tanto treinar, a bicha foi pegando prática e acabou conseguindo. É isto, Índio, estas pessoas serão sua família pelos próximos tempos. Mas eu também acho que tem outro motivo para eles me prenderem. É que eu e o prefeito nos conhecemos desde moleques pequenos e eu sempre ganhava dele em todas as brincadeiras. Depois que crescemos, continuei ganhando, só que aí, valendo dinheiro. Acho que ele nunca aceito isto muito bem.
- Você esqueceu de dizer sua pena. - disse Caio.
- Ah, é. Dois anos, mas já estou aqui faz mais de ano e meio, então daqui a pouco eu estou saindo, se o delegado deixar. É, porque diz a lenda que se o delegado não for com a cara do preso, ou se tiverem poucos presos na delegacia, ele deixa o sujeito preso além da pena, o tempo que ele achar mió. Quanto à cela, sei que você deve estar achando o lugar meio feinho, mas vai melhorar. Semana que vem, parece que vão fazer um buraco na parede do fundo e colocar uma grade para o sol poder entrar, aí a gente vai poder até pegar uma corzinha. Se bem que você não precisa, né?

Robinho e Serginho foram informados sobre a prisão do Índio alguns dias depois. Ficaram chocados em saber que aquele fumo tão bacana era proibido. Decidiram que deveriam ajudar o Índio, mas como? Seria difícil conseguir entrar na delegacia, furtar a chave e abrir a porta para o Índio sair da cela. Contudo, a mente inquieta de Robinho não tardou em funcionar. No dia de visita, foram ter com o Índio.

- Índio, onde conseguimos aquele fumo? - perguntou Robinho.
- Se Índio disser, ninguém mais compra a mercadoria do Índio.
- É, mas se Índio ficar preso, também ninguém compra a mercadoria do Índio. - retrucou Serginho - Olha só, nós dois temos um plano para tira-lo daí, mas para isto precisamos saber onde conseguir o fumo.

O Índio explicou-lhes detalhadamente, alertando-os para tomar cuidado com os garimpeiros, que estão dominando a região onde o fumo se encontra. Os jovens se despediram e seguiram, a cavalo, para a floresta, onde tiveram que espancar um garimpeiro até a inconsciência para que conseguissem coletar o fumo, já que o catador de ouro não queria deixar. Voltaram para Só Sebastiana com um quarto de uma mochila cheia.

- Nossa, conseguimos pegar bastante. - disse Serginho - Que tal se a gente fumar um pouquinho antes de executarmos o plano?
- Não desconcentra, Serginho. Primeiro libertamos o Índio, depois nos preocupamos com o resto.
- Poxa, mas foi estressante esta história toda de ir à floresta. Pega cavalo, briga com garimpeiro... também sou filho de Deus, ora.
- Olha, meia noite vou te encontrar no lugar marcado e se você não estiver lá vou te encher de porrada, tá entendendo?
- Positivo. - respondeu Serginho em tom descontraído.
- Vê lá, hein. Meia noite e nem um minuto a mais.

Robinho chegou ao ponto de encontro no horário marcado, onde Serginho já o esperava, contudo, não ficou muito feliz com isto, afinal seu amigo brincava, correndo de um lado para outro e arremessando pedras e pedaços de madeira, com Tody, um cachorro de rua que por ali vivia.

- Serginho, porra! Olha o barulho que você está fazendo, homi! - disse Robinho, em tom irritado, porém sussurante.
- Ih... não se avexe não, só estava brincando com o Tody.
- É, mas todo mundo vai achar estranho você estar brincando com o Tody a esta hora em plena quinta-feira! Vamos logo, antes que todos nos reparem.

Dirigiram-se à venda de Seu João Carlos, que tinha uma frágil porta de madeira, que foi aberta sem grande dificuldade por Serginho, com um ébrio encontrão, que o fez cair no chão do interior do estabelecimento. Tiraram um pouco de fumo da mochila e subtraíram dois maços de cigarro de uma prateleira.

- Ih Robinho...
- Que foi?
- Esquecemos que os maços têm plástico em volta. O Seu João Carlos com certeza vai reparar que eles foram abertos.
- Hmmm... é verdade, não tinha pensado nisto. Bom, agora já estamos aqui.

Cada um pegou um cigarro e esvaziou o fumo que tinha dentro, para colocar o fumo do Índio no lugar.

- Ih Robinho...
- Que foi?
- Ficou tosco.

Qualquer criança repararia que o conteúdo do cigarro que Serginho adulterou fora trocado. O fumo não era capaz de preencher completamente o papel que o enrolava, deixando o cigarro com a consistência de um pastel. O mesmo aconteceu com o cigarro que Robinho adulterou.

- Vamos fazer isto com o cigarro de palha. - disse Robinho - Deve ser mais fácil.
- Os guardas fumam cigarro de palha? - perguntou Serginho.
- Não. - respondeu