|
|
Quarta-feira, Março 31, 2004
Polemiza aê:
Posted
7:31 PM
by Heterogêneo
Singela homenagem
Vumbora cair no frevo que o bloco está vindo com o boneco. Ô que coisa linda! Mais tarde vamos dar uma passada na casa de Lia, uma amiga que mora na beira do mar, em Itamaracá.
Vich, o mandacaru floresceu, vai chover! Vamos embora rápido! Marquei com Lia só às sete, então, vamos geral pra casa do Azevedo, pra fazermos uma hora. O Azevedo é um cara legal, ele sempre faz fogueira no jardim, adora fogo. Depois, ele lê literatura de cordel. A casa dele é um lugar encantado, vice?
Azevedo, abre a porta, é Alceu! Azevedo!! Vich, acho que ele não tá em casa, deve ter ido ao porto comprar galinha pra canja do jantar. Vamos lá encontrar com ele.
- Fala Azevedo, te achei. E aí, veio comprar galinha?
- Olhe, até vim, mas até agora não vi nenhuma. O máximo que vi foi um galo.
- Mas eu sei de um homem que passa a meia noite em frente à sua casa vendendo galinha.
- Ah é? Fica tarde pra janta, mas não tem problema não. Vamos relaxar agora, nos vestir de caretas e cair na folia.
- Só se for agora. Temos que aproveitar, porque semana que vem eu volto pra terra seca do sertão e você pra Faculdade de Direito.
- É, mas tem que ter pique, porque quarta-feira de cinzas ainda tem o Bloco do Bacalhau do Batata.
- E o pior é que antes do bloco eu ainda vou ralar coco.
- Já eu vou dançar um maracatu.
- Maracatu, frevo, coco, forró, ciranda. É muita coisa pra dançar num carnaval só.
- E daí, somos pernambucanos, filhos da música, da beleza e da folia!
Nota do autor: como dá para notar há muitas referências ao folclore e à cultura pernambucana. Quem não a conhece bem não compreende legal o texto, por isto coloquei todos estes links. Espero que os visitem por duas razões:
1 - não percam esta oportunidade de com simples cliques conhecerem um pouco desta rica e maravilhosa cultura;
2 - deu um trabalho do cacete.
Terça-feira, Março 30, 2004
Polemiza aê:
Posted
6:48 PM
by Heterogêneo
Senhoras e senhores, a patroa
Publico uma das duas únicas crônicas que minha amada escreveu, demostrando que seu veio artístico é variado. Continuo escrevendo as minhas, já tenho umas cinco manuscritas, mas ando sem tempo para digitar. Tenho certeza que vocês gostarão desta daqui, tenho até medo que depois disto vocês nem queiram mais ler as minhas. Divirtam-se!
"Mais um dia 25 horas. Corria muito. Saíra praticamente correndo da Estação
Carioca, no Centro da cidade. Passava sempre por alí. Quase sempre correndo.
Dessa vez era para ir ao Banco, eram quase 16h e precisava correr, o banco
iria fechar. Nunca prestara atenção à quantidade de artistas que ficavam
ali. Todos os dias. Engraçado, passava ali todos os dia e nunca os tinha
reparado. Como é a vida!
Nesse momento se deu conta do quanto a sua vida era exaustiva. Cansativa.
Não tinha tempo para nada e sentiu inveja daqueles artistas. Provavelmente
não tinham tanto dinheiro quanto ele. Ficavam ali, debaixo de sol dia após
dia tentando arrecadar algum com seus quadros. Mas pareciam felizes. Olhem
para a cara deles...felizes sim. Alguns têm talento, pensou. Outros não.
Outros parecem querer ter talento. Parou na porta da estação, de frente para
a Rio Branco. Esqueceu das contas e foi ver os quadros, conversar com os
artistas. Nunca tinha feito isso antes. Já tinha sim, visto quadros
maravilhosos, pintados pelos mais deslumbrantes e famosos pintores.
Rembrant, Monet, Picasso. Mas nunca havia conversado com um. Ficou ali o
resto do dia, de papo pro ar com cada um deles. Porém um chamou sua atenção.
Tinha quadros fantásticos. Desenhos à carvão. Lindos, porém com uma
atmosfera pesada. Tentou descobrir de onde vinha tanta amargura. Em um dia
não foi possível. Nínguém falaria da sua vida assim, pra um estranho
qualquer.
Todos os dias a partir daquele, não passava mais correndo. Parava ali para
conversar com ele. Ganhou intimidade e com isso sua amizade. Aos poucos foi
descobrindo a dura vida daquele rapaz. Descobriu então a alma de um artista.
Descobriu a amargura dos quadros na vida daquele rapaz. Dizem que os quadros
expressam o estado de espírito do artista. Disso ele sabia, mas nunca tinha
sido tocado daquela maneira por um. Ficou tocado com a história que aqueles
quadros contavam e ninguém se dava conta. Como assim ninguém se dava conta?
Como podiam as pessoas nunca ter percebido aquele artista? Ficaram muito
amigos, e aos poucos foi comprando um a um de seus quadros. Agora eles
preenchiam sua sala. Continuava indo lá, conversar com o artista. Conheceu
até sua família. E pensou, que com tantos contatos, poderia divulgar o
trabalho do amigo e torná-lo renomado. É isso!
Não se passaram dois meses para o vernissage. Um sucesso. Todos os quadros
vendidos. Capa do segundo caderno. Não é qualquer coisa. Todo mundo feliz,
dinheiro no caixa. E o artista voltou à Estação da carioca. Mas seus quadros
vendiam tanto... ganhava tanto dinheiro... por quê isso? O artista precisa
da dor, para ser um grande artista. Entendeu nosso amigo, que continuou indo
ao Largo da Carioca para tomar um chopp com o artista. Não corria mais como
antes."
Terça-feira, Março 23, 2004
Polemiza aê:
Posted
2:40 PM
by Heterogêneo
Barba Ruiva - final alternativo
Irritado pelo fato de terem mexido com um defeito seu, Barba Ruiva foi deixando a calma de lado. Aos poucos, sua barba deixava de contrastar com a sua pele, que atingia a mesma coloração. Apenas seus olhos de ódio chamavam a atenção.
Deu um empurrão nos que o cercavam, arremessou a T.V do videoquê no mais alto e forte deles e correu na direção da churrasqueira. Pegou dois espetos e se dirigiu novamente aos boêmios, que ficaram tensos ao ver aquele homem portando ¿quatro¿ objetos perfurantes e quentes.
Com o maior deles ainda atordoado e tentando tirar o aparelho televisivo de sua cabeça, Barba Ruiva não teve dificuldade em liqüidar os demais, numa espécie de ballet sangrento.
Chegara, agora, a vez do grandalhão. Apesar de trêbado, este cidadão metia medo em Barba Ruiva. Eram mais de dois metros de altura, um pé semelhante ao do Bozo e uma garrafa de whisky na mão que poderia ser usada como arma. Barba Ruiva fraquejou por um instante, enquanto cercava seu adversário.
Mas o grandalhão não era de briga, pensava em uma saída criativa. Falou, então: "olha, a carne de vocês já está no fim. Vamos fazer um acordo: você não tenta me matar e eu deixo vocês assarem meus amigos."
Barba Ruiva ficou inerte pensando por alguns instantes. Neste momento, o Grandalhão pensou em dar-lhe um golpe surpresa, mas concluiu que aquilo seria desleal e tinha esperança que seu oponente aceitasse o trato. Eis que veio a reposta: "e o videoquê? Você me obrigou a quebra-lo na sua cabeça, precisamos de algum tipo de ressarcimento."
Grandalhão tremeu, não tinha pensado nisto. O que responderia agora? Olhou para a churrasqueira ao lado e viu algumas garrafas de whisky. "Ofereço-lhe todo o whisky que temos em troca da minha humilde vida."
Dirigiram-se, então, à churrasqueira ao lado. Barba Ruiva conferiu se os whiskys eram de qualidade e contou quantas garrafas havia. Todo este processo demorou um tempo, mas valeu a pena, pois conseguiu uma boa negociação, que envolvia carne humana e litros de whisky. Quando estava retornando satisfeito para churrasqueira, ouviu seu primo gritar:
"Carlos, acabou a carne!" Com um leve sorriso no rosto, Barba ruiva respondeu: "Negociei e consegui mais. Vamos colocar no espeto os amigos do grandalhão aqui." "Mas é justamente esta a carne que acabou", respondeu o primo.
Com este fato novo, a negociação perdera o objeto. Barba Ruiva não tinha mais porque poupar Grandalhão por causa da carne dos seus amigos, afinal eles já tinham sido devorados. Além disto, precisava de mais comida e o supermercado estava fechado a esta hora.
Enfrentou o medo e deu uma estocada em Grandalhão. Mas ele não caiu e revidou com um soco na cara que levou Barba Ruiva ao chão. Arrancou um dos espetos da mão direita do rival e perfurou-lhe a barriga. Ao fazer isto, viu seu inimigo moribundo e começou a gargalhar para o céu, antes de empalada final. Ocorre que, de tão bêbado, Grandalhão esqueceu-se que Barba Ruiva portava outro espeto na mão esquerda. Como um último ato, Carlos cravou com vontade o espeto no tórax do inimigo. Morreram os dois, um por cima do outro.
A família não esperava um final tão bom e excitante. Agora tinham carne para a noite inteira, além de um belo estoque de whisky. As crianças, enquanto comiam o tio, falavam: "isto foi por aquela palmada e isto por não ter ido ao parquinho comigo". Todos comeram, beberam e viveram felizes para sempre.
Nota do autor: com isto, pode-se dizer que o pecado gula foi abordado. De qualquer forma já escrevi outra crônica sobre o tema, mas acho que ficou ruim. Se vocês fizerem muita questão, publico assim mesmo. Maria, obrigado pela idéia.
Segunda-feira, Março 22, 2004
Polemiza aê:
Posted
7:19 PM
by Heterogêneo
Barba Ruiva
Era um vez uma família feliz que decidiu comemorar o aniversário do caçula. Reservaram uma churrasqueira do condomínio onde moravam, compraram bastante carne e alugaram um videoquê.
Dentre os convidados havia um tio com uma característica ímpar: sua barba era ruiva.
Era uma vez um grupo de boêmios felizes que decidiu comemorar o aniversário do caçula. Reservaram uma churrasqueira do condomínio onde ele morava, compraram bastante carne e gelaram a cerveja.
Lá pelas tantas, a família feliz, já num clima de fim de festa começava a guardar as coisas. Estavam incomodados com um grupo da churrasqueira ao lado que falava um tanto o quanto alto demais e gritava muito. Decidiram fita-los com cara de incomodados.
Lá pelas tantas, os boêmios felizes, já num clima de porre total, começavam a abrir as garrafas de whisky. Estavam com inveja do pessoal da churrasqueira ao lado, que tinha um videoquê. Reparam que, entretanto, eles não tinham álcool e certamente por isto, estavam olhando os boêmios com cara de pidões. Tiveram a brilhante idéia, então, de ir com algumas garrafas de bebida cantar no videoquê, afinal de contas, uns tinham o que os outros queriam.
Certos que estavam agradando, os boêmios não pensaram duas vezes e sem o menor constrangimento, pediram para cantar naquele caraoquê eletrônico, escolheram uma música e soltaram a voz. Cantaram "Eduardo e Mônica". Um boêmio um pouco mais exaltado resolveu, digamos..."inserir versos" na música. Deste modo, entre uma estrofe e outra, fazia comentários do tipo: "vão trepar!" e outras coisas menos dignas de menção.
A família chocava-se e desesperava-se com a aproximação dos bêbados. Viram-os, sem qualquer cerimônia, invadir a festa, pegar o microfone e cantar na máquina que pegaram caro pelo aluguel. O bafo de cerveja misturado com whisky impregnava o ambiente de forma inimaginável a cada verso. Ao fim de cada estrofe parecia que o ar era composto unicamente de moléculas de álcool. Mas o que mais os incomodava era um rapaz, ou melhor, um pobre coitado perdido, que falava palavras de baixo calão enquanto cantava, sem atentar para a presença de mulheres e crianças.
Os boêmios viram o tio Barba Ruiva logo atrás, pronunciando algumas palavras. Como não estavam em condições de compreender nada, concluíram que queria cantar. Abraçaram-no, cada um com um braço, e colocaram o microfone em frente à sua boca. Contudo, deram azar, pois a música acabou neste momento. Depois disto, a máquina deu nota 8,7 para a cantoria, que os boêmios, numa demonstração de humildade e simpatia, atribuíram ao tio Barba Ruiva, mesmo que este não tenha sequer aberto a boca. Puxaram, então, um animado coro: "Barba Ruiva, Barba Ruiva!", enquanto pulavam envolta do cidadão. Certamente alguém que cultiva uma barba ruiva se orgulha dela.
Alguém tinha que fazer alguma coisa para deter aqueles moleques sem respeito! Coube ao tio Barba Ruiva, que era uma pessoa calma e educada. Chegou atrás dos boêmios e começou a pedir, em voz calma, que parassem de cantar e retornassem para a sua churrasqueira. Contudo, para o seu espanto, não o deram ouvido. Com um forte puxão por trás do pescoço, colocaram-no entre eles e praticamente enfiaram um microfone dentro de sua boca, sem nem perceber que a música já estava nos últimos segundos. Mas não se satisfizeram com tamanha falta de respeito! Como se não bastasse, começaram a pular em volta dele, dando-lhe vários encontrões, e gritando "Barba Ruiva", um antigo apelido de colégio que Carlos odiava. Ele tinha uma enorme cicatriz na face e para encobri-la deixava a barba crescer, mesmo esta sendo ruiva e detestando esta cor.
Terça-feira, Março 16, 2004
Polemiza aê:
Posted
7:02 PM
by Heterogêneo
Mãos ao Infinito
Os amigos davam-se as mãos para tirar o menino do fundo do poço. A todo momento mais um se juntava, formando uma enorme corrente humana, que cada vez alcançava mais fundo.
Entretanto, o menino nem se esforçava em agarrar a mão amiga. Sabia que ela nunca chegaria até ele, pois a profundidade do poço era infinita.
Segunda-feira, Março 15, 2004
Polemiza aê:
Posted
1:16 PM
by Heterogêneo
Nada
Certo dia acordou e viu um arco-íris preto e branco. A borboleta que passou a sua frente mais parecia uma mariposa.
Não conseguia ver beleza em mais nada. Melhor, talvez visse, mas a considerava insignificante. Nada mais tinha valor, era cercado por um grande nada.
O poderoso império americano era um nada, a Torre Eiffel era um nada, assim como as sete maravilhas do mundo. Seus amigos nada mais eram que pedaços de nada pensando serem alguma coisa.
Olhava para os felizes e os considerava alienados; eles simplesmente ignoravam a sua terrível condição de seres humanos fadados a sucumbir ao poder do tempo. Os ativistas lutavam por nada, posto que a humanidade era um nada.
De que adiantava realizar viagens incríveis, se divertir, ter uma carreira brilhante, bons amigos, uma linda esposa, se após a morte não se lembraria de nada?
Nada do que a humanidade fez tinha valor. Tudo, por mais que tardasse, um dia desapareceria como se jamais tivesse existido. Não sobrariam resquícios.
A solidez da rocha do Pão de Açúcar, com um simples olhar para o futuro, transformava-se em algo frágil e efêmero como papel.
Impotente diante desta situação, não via mais sentido na vida. Com um simples paço no espaço mergulhou de volta ao local de onde viera e para o qual, cedo ou tarde, retornaria: o nada. FIM.
Quinta-feira, Março 11, 2004
Polemiza aê:
Posted
4:47 PM
by Heterogêneo
O Heterogêneo viu...
Os Narradores de Javé
O filme conta a história de uma cidadezinha sertaneja que será encoberta por água, devido à construção de uma hidroelétrica. Desesperados, os moradores tentam achar um meio de salvá-la. Descobrem que se a cidade tiver um valor histórico, ela não poderá ser alagada. Procuram, então, um dos poucos sujeitos alfabetizados da cidade. Ele começa a reunir diversas histórias contados por vários moradores sobre a origem da cidade. O filme é levemente engraçado e emociona por um breve momento.
Dogville
Este filme é ímpar, até pela forma que se apresenta. Ele se passa em um cenário que lembra um palco de teatro. Isto reforça a idéia de que o filme não tem compromisso com a realidade. Não espere que as reações das pessoas sejam realistas, o filme pretende extremá-las, para deixar escancarada a natureza humana. É um pouco longo, mas o final salva. Vá para um bar depois, dá um bom papo.
Sobre Meninos e Lobos
Mais um thriller bem bolado.
Polemiza aê:
Posted
4:33 PM
by Heterogêneo
Concurso
Gente, este bolg está participando de um concurso.Não sei porque me cadastrei nele, talvez por falta do que fazer, já que o dia hoje no trabalho está excessivamente tranqüilo. Não tenho nenhuma pretenção de ficar entre os primeiros, até porque a votação começou no início do mês e porque tem blog de turmas inteiras de colégio concorrendo e cada aluno deve votar 25 vezes por dia. Mas enfim, como quem está na chuva é pra se molhar, estou aqui vendendo o meu peixe. Então, clica lá na paradinha escandalosa do cantinho pra votar. Pelo menos é uma forma de eu divulgar minhas crônicas.
Polemiza aê:
Posted
4:25 PM
by Heterogêneo
E o Toscolino 2003 vai para...
Geroge W. Bush, por "Uma Guerra sem Razão"!!!
Sim, Bush acabou vencendo de virada. Por um momento parecia que Rosinha e Garotinho levariam o Toscolino, mas o presidente americano acabou fazendo valer seu favoritismo. Parabéns, presidente, o senhor merece!! Receba o nosso belo Toscolino!
Polemiza aê:
Posted
2:15 PM
by Heterogêneo
Soberba
Rafael é Promotor de Justiça desde os 23 anos. Hoje em dia tem 27. Durante estes quatro anos em que vem exercendo a nobre profissão, esqueceu-se do significado do nome de seu ofício. PROMOTOR DE JUSTIÇA. Nossa, que bonito nome. Qualquer bom cidadão gostaria de ser um promotor de justiça . Que belo, que nobre ter a oportunidade de promover a justiça.
Entretanto, nos quatro anos de labuta, Rafael acabou se esquecendo do significado do cargo que ocupa. Promotor de Justiça tornou-se, para ele, apenas uma denominação sem valor. Rafael passou a ser, a bem da verdade, um acusador implacável. Não deixava passar um. Não o interessava se realmente havia indício de autoria e prova da materialidade do crime, Rafael queria mesmo era exercer o seu papel de acusador, colocar mais um atrás das grades. É o que dá Ibope hoje em dia. Ser um Promotor de Justiça eficiente é colocar o maior número possível de pessoas atrás das grades e pelo maior tempo que conseguir. Era exatamente isto o que Rafael fazia no seu pedestal, trajando toga e outras parafernalhas que o diferenciava dos reles mortais.
Ocorre que um dia Rafael viu-se réu. Alguma louca, por capricho ou alguma outra razão desconhecida, resolveu acusá-lo por um crime hediondo. Entretanto, Rafael estava em outra cidade quando o suposto crime foi cometido. Mas o Procurador de Justiça, que nada mais é que um Promotor de patente mais elevada , não queria saber, buscava mais uma condenação.
Rafael não entendia aquilo, sua inocência era clara, escandalosa. Ela se colocava a frente de qualquer um de forma inexorável. Todavia, o Procurador parecia fechar os olhos à verdade. Como poderia ser tão cruel, tão inumano, desejar tanto a desgraça do próximo? Ali, vestido com roupas que pareciam trazidas da era vitoriana, segurando uma caneta que poderia alimentar dezenas de família, o Procurador satisfazia sua libido, seu sadismo. Tinha um verdadeiro fetiche por condenação. Rafael não entedia aquilo.
Certa vez, durante uma audiência, Rafael percebeu que previa tudo que seu acusador falaria antes que ele o fizesse. Aquilo o deixou confuso. Seria algum fenômeno paranormal? Rafael sempre foi um cético, não poderia acreditar em fenômenos fora do plano físico, precisava buscar uma justificativa no plano da normalidade. Foi quando, subitamente, um arrepio subiu-lhe as espinhas. Rafael percebeu que era capaz de prever todas as falas do seu companheiro de trabalho, simplesmente porque agia da mesma forma.
Terça-feira, Março 09, 2004
Polemiza aê:
Posted
6:55 PM
by Heterogêneo
Luxúria
- Pois não...
- Sim, sou casado.
- Há...cinco anos.
- Namorei outros cinco.
- É, exatamente, uma década.
- Sou, claro!
- Olha, vontade eu já tive, mas me controlei. Faz parte do dever conjugal, né?
- Não, nunca. Nada além de olhadelas.
- Depois do expediente? Nada, por quê?
- Ah, pode ser, você trabalha aqui perto?
- Ótimo, pertinho lá da empresa. Então eu te pego e a gente faz alguma coisa.
- Não, não tem problema não, eu digo pra ela que estarei em reunião.
- Sete e meia, então? Fechou, te pego lá. Seu nome é?
- Tá bom então, Carla, até já.
No dia seguinte...
- Bom dia, Mor.
- Calado?!?
- Pensando em nada.
- Tá tudo bem.
- Trabalhei bastante.
- Bom, deixa eu ir indo. Tchau.
Laura achou tudo muito estranho, ele sempre falava um beijo, por que deu tchau?
A consciência de Pedro pesava tanto que ele mal conseguia manter-se de cabeça erguida. Morria de vergonha de si mesmo. Até o espelho virara um inimigo. Ao olhar seu reflexo via um homem fraco, sem caráter, sem moral. Logo ele, que sempre foi tão correto, defensor da moral e dos bons costumes. Não, aquele não era o Pedro, era algum outro. A crise de identidade era aguda. Ele sentia-se como um herói que matara alguém. Fez uma das coisas que mais condenava, mais inaceitáveis. Como poderia conviver com aquilo pelo resto dos seus agora longuíssimos dias? Não poderia contar a verdade para sua amada mulher, aquilo lhe feriria o coração mais que a morte do seu cônjuge. Sim, a morte. A única saída para Pedro. Não haveria tempo capaz de apagar aquele vergonhoso fato da sua memória. E o pior é que neste momento ele se dava conta como queria fazer o que fez já há anos, esperava apenas uma oportunidade, por isso não ofereceu nenhuma resistência quando lhe foi feita a proposta. Pedro, definitivamente, não era um sujeito atraente. Também não teria coragem de abordar uma mulher, até porque aquilo seria uma autoconfissão do seu desejo poligâmico. Mas, quando após anos de desejo reprimido, um belo corpo feminino lhe foi oferecido, não titubeou, sequer lembrou-se de sua amada. Que ser desprezível era Pedro! Nem para lembrar-se do lindo rosto de sua Laura. Não, nada! Traiu sua mulher como quem dá bom dia, numa naturalidade de invejar os maiores "leões". Casanova se fosse casado não seria adúltero de forma tão blazé. Pedro se equiparou aos animais, liberou seus instintos como se humano não fosse. Isto era imperdoável, até sua humanidade ele perdera. Não, não há que se falar em recuperá-la, um ser humano não pode jamais agir como um animal. Admitir que o fizesse, mesmo que esporadicamente, ou até uma única vez, significaria o perdão de assassinos e estupradores. Pedro se igualou a eles e agora seria capaz de tudo caso houvesse uma recaída. Além de um ser indigno, ele era uma ameaça à humanidade. Logo ele, logo ele...o senhor politicamente correto. Todo um passado correto, lições de moral dadas a amigos e parente, sermões, uma admiração conquistado com muito suor. Tudo jogado fora por uma noite, por um breve momento de prazer. Sentia-se como se tudo o que fez em sua vida tivesse perdido o sentido, como se tivesse se tornado tudo aquilo que condenava, o oposto do que pregava, quase um demônio.
Definitivamente não fazia mais sentido continuar vivendo.
Parado em frente ao espelho, quebrou-o com um veloz golpe de mão. Já com alguns ferimentos, abaixou-se e escolheu um caco bem cortante. Testou todos eles em sua mão para ver qual cortava mais. Escolheu um, suspendeu a manga da camisa, respirou fundo e...ouviu jingle bell. Era o seu celular que tocava. "Não, agora não, isso é hora de tocar!", resmungou Pedro. Indeciso, decidiu apenas olhar quem ligava. Era sua mulher, sua amada Laura. Não resistiu e, impacientemente, atendeu ao telefone.
- Oi querida.
- Jantar fora hoje? Pode ser. Depois a gente se fala, estou ocupado agora, beijo.
Desligou o celular, a esta altura encharcado do sangue que escorrera de sua mão, e prosseguiu no processo de concentração. Respirou fundo mais uma vez, mas o celular o desconcentrara. Sente-se incapaz, agora. Respirou, então, repetidas, porém pausadas vezes . Decidiu contar até cem. Seu coração cada vez disparava mais, a adrenalina tomava conta de seu corpo, sentia-se cada vez mais forte e capaz de tudo. Estava no seu auge, naquele momento era capaz de tudo. Adrenalina é algo que nos permite romper limitas. Matar-se agora parecia trivial. Sem hesitar, apontou o caco de vidro contra o seu pulso e começou a rasgá-lo verticalmente, como um bom suicida.
Ao encerrar o corte, sentou-se aliviado, esperando a natureza fazer sua parte, mas a ciência novamente veio antes e o seu celular tocou. Pedro xingou-se, como foi estúpido o suficiente para não desligar aquele maldito aparelho após a última ligação!?! Olhou o visor para saber quem ligava. Era Carla. Lembrou-se, imediatamente dos seus peitinhos de pêra, aquela bunda empinada e macia. Ai, que delícia era Carla. Na morte não poderia aproveitar este tipo de prazer. Nossa, como abrir mão de prazeres tão profundos, pensou. Atendeu ao celular.
- Oi Carla, tudo bom? - com a voz mais animada possível.
- Hoje, de novo? Nossa, que menina danada você, hein! Olha só, estou com um probleminha aqui no trabalho - enquanto olhava seu pulso jorrando sangue - mas acho que posso dar um jeito. Faz o seguinte, te ligo até as seis para confirmar. Se eu não ligar é porque não consegui solucionar o problema, então não vai dar para sairmos, pode ser?
- Tá ótimo, então, um beijo grande, tchau.
Levantou-se cambaleante e tonto. O sangue perdido já lhe fazia falta. Precisava correr contra o tempo e salvar sua vida. Não tinha nada no banheiro que pudesse utilizar para estancar o sangramento e não queria passar na frente de seus colegas de trabalho daquela forma. Mas estava no horário de almoço, poucas pessoas estavam presentes naquele momento, provavelmente ele conseguiria chegar ao outro banheiro, onde ficava o quite de primeiros socorros, sem que ninguém o visse. Foi o que fez.
Colocou uma atadura sobre a ferida, mas o sangue não parava de escorrer. Saiu do escritório correndo. A secretária só o viu passando feito um jato e nada entendeu. Sequer teve tempo de pronunciar alguma palavra e só viu o sangue no chão quando Pedro já estava longe.
Arrancou o terno, enrolou o no braço e fez sinal para um taxi.
- Para o hospital mais próximo, por favor.
Pedro foi bem socorrido e sua vida salva. Contudo, só poderia sair do hospital por volta das 22:00 h., ou seja, precisaria de uma boa desculpa para chegar em casa tarde naquela noite, pois se saísse do hospital às dez, até se encontrar com Carla e curtir o suficiente, já seria, pelo menos, uma da manhã. Pedro pensava, pensava o que fazer, sem dar a menor atenção às prescrições do médico, cujas palavras se diluíam no espaço como Nescau em copo de leite. Apenas se preocupava em arranjar uma justificativa para sua mulher. Não podia desperdiçar aquela noite com Carla. A vida é passageira, devemos aproveitá-la ao máximo. Uma festa surpresa! Sim, seria esta a saída, resolveram fazer uma festa surpresa para o Antônio da tesouraria, pois era seu aniversário.
Dito e feito. Pedro orgulhava-se de sua mente engenhosa e maquiavélica.
Isto se repetiu inúmeras vezes e Pedro acabou se divorciando e casando-se com Carla, mas quando Janaína, após três anos de fidelidade à sua nova esposa abordou-o na rua...
Tiveram dois filhos, Pedro e Janaína. Duas lindas menininhas, Raquel e Elaine. As menininhas cresceram e com elas, seus seios. Não, Pedro jamais foi fiel a Janaína, imagina se uma mulher só seria capaz de satisfazer sua impressionante libido? Mas por incrível que parece, aquele era seu casamento mais duradouro e menos conflituoso. Pedro sentia-se bem cada vez dormia com outra mulher. Foram diversas: Ana, Cristina, Patrícia, Carolina, Mariana, Joana... e é claro que também tiveram as Kellys, Natashas e Katies, muitas das quais tornaram-se até amigas, mas nada lhe dava mais tesão que os seis em desenvolvimento de suas duas pimpolhas, uma com dez e a outra com treze anos. Raquel tinha a pele branquinha cor de leite, parecia uma bonequinha, estilo gatinha brincando com o novelo de lã. Já Elaine, a mais velha, começava a fazer um estilo mulherão. Em pleno início de adolescência já tinha seios fartos e cinturinha de pilão. Morena de praia, com olhos claros e cabelo negro, ela era capaz de enlouquecer qualquer homem, quanto mais um que a via todos os dias, inclusive de camisola, calcinha e sutiã e demais roupas íntimas. Mas ela não era boba, Pedro dificilmente a levaria na papo, era melhor começar pela caçula.
Numa manhã, enquanto Janaína trabalhava e Elaine estava na escola (as aulas de Raquel ainda não haviam começado), Pedro abordou Raquel:
- Minha filha, pela sua idade, você já deve saber que meninas têm periquita e meninos têm pinto, não é?
- Então, mas você, certamente, nunca viu um pinto crescer, apesar de saber que ele o faz, não é?
- Estive pensando...chega um momento da vida em que precisamos aprender as coisas na prática. Não podemos ficar só na teoria, teoria! É necessária um vivência. Imagine um presidente que quer acabar com a pobreza mas nunca visitou uma favela, não sabe o que é um barraco. Então, minha filha, acho que você precisa ver um pinto crescer, já está na idade. Nada melhor que viver esta experiência com seu pai, alguém que você conhece, confia e tem intimidade. Olha, vou abaixar a minha calça e minha cueca devagarinho para você não se assustar. Viu, não morde. Agora pega nele de levinho, isso... agora aperta mais um pouco e vai com a sua mão para frente e pra trás. Isso mesmo, filhinha, tá pegando direitinho! Isso, vai, continua, não pára, vai, fica fazendo até o papai mandar parar.
Pedro já está próximo ao orgasmo quando Elaine, que foi liberada mais cedo do colégio por ser o primeiro dia de aula, chega em casa e vê aquela cena. Perplexa, cala-se e fica imóvel, em estado de choque. Percebendo sua presença, seu pai vai na direção dela e rasga-lhe a camisa, junto com o sutiã e começa a chupar-lhe os seios. Levanta a sua sai de colegial, tira-lhe a calcinha e introduz seu pênis. A caçula apenas fica em um canto acuada, também imóvel, sem saber o que fazer. Sequer sabia se aquilo era normal.
Após o coito, Pedro levanta-se, veste sua calça e sai de casa, deixando uma Elaine aos prantos. Segue em direção à Lapa, onde encontra seu amigo Duran, famoso gigolô da região. Prefere não contar a ele o que fez, pois apesar de marginal e fora-da-lei, Duran ainda guardava um mínimo de humanidade e respeito ao próximo.
- Duran, Duran, estou com problemas! Minha mulher descobriu tudo, uma filha da puta que eu não saio mais resolveu ligar lá pra casa e contar tudo! Ela está possessa, tentou até me esfaquiar, será que posso ficar aqui por um tempo? - implorou Pedro.
- Pedro, pedro. - respondeu Duran - Sempre aprontando. Não devia deixar não, mas fazer o quê, sou seu amigo, vou negar favor a um amigo? Sinta-se em casa. Mas olha, temporariamente!
E Pedro foi ficando. Acabou tornando-se sócio de Duran. Depois, abriu sozinho uma termas de luxo na Glória e acabou ficando rico. Comprou um apartamento em um condomínio de luxo na Barra da Tijuca e é tratado como rei. Abriu uma instituição de caridade e hoje em dia é considerado um dos emergentes mais humanos do Rio de Janeiro. Ninguém sabe de onde vem seu dinheiro, mas isto não importa, pois no teatro da vida, ele faz o papel de mocinho, já até posou para foto ao lado de um presidente de ONG. Rico, socialmente engajado e desimpedido. Um exemplo de homem, um partidão.
Terça-feira, Março 02, 2004
Polemiza aê:
Posted
7:12 PM
by Heterogêneo
Avareza, um Pecado Inerente ao Sistema
Olhos vidrados. É impressionante como um símbolo semelhante a um "certo" de professora primária é capaz de causar tamanho fascínio. Paradas, observando a vitrine, as pessoas não desejam realmente o símbolo, muito menos o tênis (embora elas não saibam disto), mas status. Querem ser descolados, cool e demonstrar que têm posses.
Roubos, latrocínios, tráfico de drogas...tudo motivado pela visceral necessidade por símbolos valorizados. Se um rapaz não os veste dos pés à cabeça, as "cocotas" não querem saber dele, que terá de recorrer aos temidos "canhões encalhados".
Símbolo é tudo aquilo que tem um valor além de sua representação física. Deste modo, expressam um way of life. Se você just do it e "ama muito tudo isso", então você é cool. E você tem que ser cool, está entendendo!?! Tem que ser cool!! Não quer sê-lo? Haha, pobre de ti, o ostracismo cairá sobre tua cabeça lento como uma lesma, mas feroz como um touro. Quando te deres conta, estarás na berlinda, buscando um bunker para te esconder, sozinho. Mas é claro que não te desejo isto. Olha, vou tentar te ajudar; ligue para (0**11) 1406 e adquira uma fita que ensina como ser cool, mostra como deves te portar e sobretudo, que produtos deves adquirir. Tudo isto por apenas R$ 199,99. O preço parece salgado, mas penses que se não adquirires o vídeo estarás fadado a uma vida de decepções e humilhações. Ou preferes ser um eterno solitário? Não responda agora, reflita, não quero te pressionar. Apenas tenha em mente que esta fita é a diferença entre sucesso e fracasso. Tome o meu cartão e qualquer coisa me ligue. Cobro apenas R$ 10,00 por conselho extra, mas para você faço por apenas R$ 9,99. Lembre-se, tens um amigo aqui.
Segunda-feira, Março 01, 2004
Polemiza aê:
Posted
7:44 PM
by Heterogêneo
Dimensão Paralela
Subitamente o silêncio irrompe, ou melhor, há apenas uma mudança de percepção. O barulho que predomina agora é interno. Posso ouvir o som do ar entrando pela minha boca, se esfregando na minha garganta e descansando em meus pulmões. O movimento de ida e vinda produz um som quase ensurdecedor, que não escutamos normalmente porque somos cercados por um mundo ainda mais ensurdecedor. No silêncio da dimensão paralela, a máquina que escuto funcionar é o meu corpo.
Não estou em um local morto, mas cheio de vida, tal qual o nosso mundo. Em compensação, neste universo aprendeu-se a viver no silêncio. A audição não é um sentido importante. Tudo é observado, os olhos são grandes. Há sempre quem te veja e há sempre quem tu vejas. É melhor te acostumares a ser observado. Os olhos podem estar (e estão) por toda parte: embaixo de pedras, no meio de plantas...Presas e predadores por todos os lados.
Mas não se aflija, acalme-se, tu não tens que ser nenhum dos dois. Estás lá apenas de passagem, como um mero observador. Não tente interagir mais que o devido num mundo ao qual tu não pertences. Observe suas belezas, deslumbre-se com os seus encantos, prenda a respiração e tente ouvir o discreto ruído constante. Levite, levite como um mago!
Ao emergir, leve para casa nada mais que uma bela recordação.
|