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Sexta-feira, Abril 30, 2004
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1:51 PM
by Heterogêneo
Batom Verde
Sentia-se atraído por aquela boca verde. Não sabia porque, mas algum processo químico fora disparado dentro dele ao ver os lábios cor de musgo. Parecia que remetia a algo da infância, mas não se lembrava o quê, só sabia que precisava beijar aquela boca. Seria alguma antiga tara, escondida nos maiores recônditos da memória?
Caminhou em direção à moça, sem tirar os olhos dos seus lábios. Chegando junto dela, agarrou-a e beijou sua boca vorazmente. Flashes passaram pela sua cabeça. Viu um lábio verde e sensual sorrindo. Mas levou um forte empurrão, seguido por um "que isso!" e a imagem esvaneceu-se.
Estava atordoado, não tinha a intenção de desrespeitar a moça. Virou-se de costas, com o corpo meio molenga, com a mão na cabeça sem compreender direito o que se passava, visivelmente tonto. Foi aparado por um amigo, que levou-o para o balcão do bar, perguntando-o o que houve e se estava bem, enquanto um outro camarada pedia uma Coca-cola ao barman. "Tá passando mal?", ouviu de relance. Não escutou resposta, mas sentiu os ombros de seu amigo que o aparava moverem-se, como quem informa não saber a resposta.
O copo de refrigerante foi encostado na sua boca, acompanhado por um "toma, bebe". Bebeu um gole sem nenhuma vontade. Se controlava para não olhar para trás, não parava de pensar nos lábios esmeralda. Não era mais uma mera questão de libido, mas um enigma a ser decifrado. Sabia que ao tocar aquela boca, imagens, que imaginava serem da aurora da sua vida, lhe ocorreriam.
Terminado o gole, virou o pescoço para a esquerda e deparou-se novamente com os lábios de desejo. Queria-os de qualquer forma, mas agora a sua portadora estava atenta, não a conseguiria agarrar novamente, teria que ser diplomático.
Caminhou em sua direção com ambas as mãos nos bolsos, em passos largos e lentos, mantendo as pernas quase que constantemente esticadas e com fisionomia séria, como a de quem tem algo relevante a dizer.
Ao vê-lo aproximando-se, a moça inclinou o corpo um pouco para o lado, juntado-se ao de uma amiga, mas não falou nada e esperou-o, pois sabia que agora ele viria para conversar.
- Olha, você me desculpe, não sei o que houve...
- Como não sabe o que houve!?! Você me agarrou violentamente, não sei porque não chamei o segurança!
- Acredite em mim, não sou disso, mas algo estranho, diferente, percorreu meu corpo quando te vi. Para ser sincero, o que me cativou foi o seu batom verde. Alguma coisa esquisita se passou quando vi seus lábios. Fui tomado por uma vontade incontrolável de beija-los e ao fazê-lo vieram-me flashes da infância, como se lá estivesse a explicação para este súbito ímpeto libidinoso.
Ela sentiu algo esquisito ao ouvir aquilo. Ao mesmo tempo em que parecia um papo de maluco, sentia-se importante, mas contraditoriamente, sentia-se apenas uma portadora de uma lábio que está verde por ocasião, pouco importando para ele a pessoa em si. Contudo, o fato era que detinha os únicos lábios verdes da festa e com isso, a veneração do desesperado rapaz. Mas, afinal, porque se importava tanto em ser importante para ele? Talvez fosse algo inerente ao ser humano, uma vontade constante de ser relevante, mesmo que para uma única pessoa. Decidiu, inconscientemente, jogar com aquilo, detinha o poder.
- Você fala bonito. Mas esta história está muito estranha, acho que você é algum lunático, ou um tarado que está inventando uma historinha bonitinha para conseguir me agarrar no papo, já que não vai conseguir de novo a força.
Ela mentia, sabia que ele estava sendo sincero.
- Se você achou a historinha bonitinha é porque, se for mentira, eu sou um ótimo galanteador, um sujeito bom de papo, assim, não precisaria ter te agarrado para conseguir o que quero.
- Que pretensão!
- Pode ser. Posso saber o seu nome?
- Camila.
- Prazer Camila, chamo-me Carlos.
Inclinou-se na direção do rosto dela.
- Ih, que isso?
- Calma, apenas quero dar-te um par de beijos, um em cada bochecha.
- Vê lá, hein.
E os beijos foram dados.
- Mas então, porque esta coisa com batom verde, nunca tinha visto um não?
- Acho que sim, na minha infância, e é exatamente isto que pretendo descobrir beijando-te.
- Por causa dos tais flashes...
- Exato.
- E porque eu deveria colaborar na sua causa, se seu interesse não sou eu, mas o meu batom. Posso dá-lo e você o lambe a vontade.
- Não, não me interessa o batom verde, mas os lábios por ele coloridos.
- Então, por que você não pega o meu batom emprestado, repara se tem alguma menina te dando mole e quando você já estiver ficando com ela, pede pra ela passar o batom?
- Seria uma situação fabricada, perderia o encanto e com isto os flashes não viriam.
- Ah é, e como você sabe?
- Sei porque estes flashes me vieram por estar vivendo um momento mágico e que me remetia a um ponto exato da minha infância, se eu retirar a magia, minha mente não divagará por locais obscuro e se limitará aos lábios beijados.
- Esse seu papo está muito poético mas pouco verossímil.
- Não viste como fiquei cambaleante, nitidamente desnorteado e sem compreender direito o ocorrido após beijar-te?
- Vi, mas como posso ter certeza de que não se passava de um teatro? ¿ no seu íntimo, ela já tinha certeza.
- Já ouviste falar em empatia?
- Já, claro.
- Não achas que é o que ocorre no momento?
- Não sei não, pode ser, mas não desconverse. Como posso saber ser fingia, afinal?
- Não podes.
- Ah, que ótimo!
- Não podes saber, mas podes sentir e eu sei que já sentes.
- Você não é nada bobo.
- E você não é nada feia.
- Poxa, mas que elogio esquisito!
- Quis só aproveitar a sua deixa. Está bom, foi estúpido. És linda, para falar a verdade.
- Pensa que não sei que você só está interessado no verde que cobre meus lábios e não em mim.
- A princípio era isto, de fato, mas ao conversar contigo vi a pessoa por trás da boca.
- Você tá me parecendo um conquistador de meia tigela, isso sim.
- Sei que sentes que não sou.
- Não é...sei que você fala bonito só para impressionar.
- Sou um romântico. Românticos gostam de falar assim. Podes parecer esquisito, mas sou um namorado fiel e apaixonado, quando estou compromissado. Sei que isto não combina com a atitude de alguém que agarra uma bela moça, mas tens que perceber que não te agarrei como um troglodita, mas como um romântico inebriado por um ponto reluzente que tocou-lhe a alma.
- Você é poeta?
- De bar, só se for.
- Fala como um.
- Ao ver tão linda flor,
não há como não falar como um trovador.
Ao ver a cor esmeralda,
não há como manter-se em calma.
A poesia surge natural,
como pinheiros no natal.
- Compôs agora?
- Sim.
- Além de poeta é repentista.
- E também saxofonista.
- Músico também!?!
- Não, apenas saxofonista.
- Qual a diferença entre soprar um saxofone e beijar uma boca?
- Quando tocas um saxofone, faze-o para o mundo, para fora. Quando beijas uma boca, faze-o para dentro.
- E o que ocorre aí dentro.
- O coração dispara, a mente viaja, o mundo se fecha nos lábios e na língua que é acariciada..
Foi cortado por um beijo mais forte que o que ele dera nela. Tinha, sem dúvida, conquistado aquela moça. Ficou novamente confuso, desviara-se de seu foco. A menina tornara-se mais relevante que o lábio esmeralda e com isto, os flashes não voltaram.
Afastou um pouco a boca, para que pudesse olhar a da jovem e recobrar a atenção para os lábios verdes. Ao ver tais lábios, sentiu profunda excitação, mas a causa era Camila. Não adiantava mais, a pessoa superara a cor.
Ao terminarem o longo beijo retomaram a conversa. Em um certo momento Carlos contou uma piada. Camila soltou um riso gostoso, exatamente como o que ele viu em sua mente ao beija-la pela primeira vez. A explicação para o impulso ao ver os lábios verdes não estava no passado, mas no futuro, que agora tornara-se presente.
Terça-feira, Abril 27, 2004
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5:28 PM
by Heterogêneo
Coincidências
Passavam a seu lado um sem número de pessoas, em um ritmo alucinante. Gente de todo o tipo, com realidades e histórias distintas.
Passou um executivo de terno escuro e gravata vermelha. Seu cabelo era preto e liso, porém revolto. Uma generosa dose de gel, entretanto, mantinha-o no lugar.
Atrás dele um moribundo. Tinha o rosto cansado de uma vida difícil, cortado por profundos sulcos que mais pareciam cicatrizes. Seus poucos dentes eram deslocados para frente, alterando, assim, a curvatura dos lábios e dando-lhe uma aparência de símio. Carregava um saco, que imaginou conter latas para reciclagem. Nem imaginava que este senhor era o mesmo que dez minutos mais tarde lhe pediria sua lata vazia de refrigerante.
Logo em seguida vinha uma bela mulher, vestindo uma bonita saia preta até o joelho, meia calça, salto alto escuro, uma camisa vermelha levemente decotada e um par de brincos com uma pedra verde no centro. Não teve tempo de reparar no seu rosto. Mal sabia ele que ela estava a caminho de um encontro erótico com o executivo engravatado, que passara há poucos segundos.
Chagada a noite, foi para a happy hour. Reparou em uma bela moça que trajava uma saia preta até o joelho, meia calça., salto alto escuro, uma camisa vermelha levemente decotada e um par de brincos com uma pedra verde no centro. Reparou-a mais longamente e notou que sues longos cabelos negros eram suavemente ondulados no final, suas costas eram largas e seu pulso fino. Usava também uma discreta pulseira azul e um anel dourado no dedo médio direito. Seu rosto era jovial, porém maduro, seguro. Fechou-se nela por um longo minuto, quando viu-a beijando um homem de terno escuro e gravata vermelha, com cabelo revolto, que provavelmente se libertara do gel durante o expediente. Mudou, então, o foco da sua tenção para um homem velho e cansado que, carregando um saco, vasculhava lixeiras na rua, certamente em busca de latas para reciclagem.
Em cinco segundos sua atenção já estava em outro objeto e aquele homem novamente sumiu de sua memória.
Passada uma semana, retornou ao mesmo happy hour. Logo que entrou, chamou-lhe atenção uma moça trajando um vestido verde, quase sem decote e cinco dedos acima dos joelhos. Estava com uma sandalha-tamanco bege e um par de brincos argola. Continuou fitando-a e notou que seus longos cabelos negros eram levemente ondulados no final, tinha costas largas e pulso fino. Seu rosto era jovem e decidido, seguro. Usava uma pulseira verde no pulso esquerdo e um anel dourado no dedo médio direito.
Fitou-a por quase um minuto a espera de uma reação. Já estava quase desistindo quando em uma breve virada de rosto a moça passeou os lindos olhos castanhos pelo recinto, parando-os por um segundo ao encontrarem-se com os dele. Foi o suficiente para sentir-se correspondido. Abordou-a e após quarenta minutos de conversação saíram juntos para um bar mais vazio.
O bar tinha mesas na rua. Pediram dois refrigerantes que se tornaram meros objetos decorativos à sua animada conversa, que só foi interrompida por um senhor moribundo que passou pedindo as latinhas já vazias. Tagarelaram um bocado, descobriram que ambos eram freqüentadores do lugar onde se conheceram. Terminado o assunto, ele ficou impressionado como ela, além de bela, era inteligente e tinha lábios macios, muitas qualidades em uma só pessoa. Não entendia como nunca reparara naquela mulher.
Terça-feira, Abril 20, 2004
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1:25 PM
by Heterogêneo
Negro Gato
Roberto acordou assustado e ofegante. Teve um pesadelo terrível. Não conseguiu voltar a dormir. Ficou rolando na cama até de manhã.
Chegada a hora, levantou, tomou café e arrumou-se para o trabalho. Assim que saiu do prédio levou um susto com o gato preto que passou correndo a sua frente.
Andou até o metrô e ficou esperando o trem, que demorou o tempo de prache, mas Roberto tinha certeza que demorara mais que o normal.
Chegou à Corretora. Os indicadores estavam bons e a bolsa abrira em alta, mas ele sismava em ver problema em tudo. Achava que as ações estavam subindo muito, havia um exagerado otimismo. Comentou isto com Antônio, que a princípio descordou, visto que a economia do país e do mundo ía de vento em popa. Contudo, Roberto insistia e acabou por incutir um certo receio na cabeça de seu colega.
Antônio, experiente analista econômico, achava que seu companheiro estava errado, entretanto, a semente do medo fora plantada. Decidiu começar a vender tudo.
Seus companheiros de trabalho, vendo aquilo, desconfiaram que ele deveria ter alguma informação privilegiada, logo, também se engajaram no processo de venda de ações.
O pregão foi encerrado com forte baixa, desvalorização da moeda nacional, aumento do risco-país e dos juros de longo prazo. Maldito gato preto!
Quinta-feira, Abril 15, 2004
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5:16 PM
by Heterogêneo
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Lenny: Oi Renata, tudo bom?
Rê: Oi Lenny! Quanto tempo!
Lenny: Precisamos nos encontrar, para colocar a conversa em dia.
Rê: Verdade, mas agora estou ocupada. Te encontro às 21 h. Vou falar também com a Trinity, o Machão, o Rappa, a Lu e a Britney.
Lenny: Tá bom. Até logo, então. Um beijo.
Às 21h.
Lenny: Boa noite a todos. Desculpem o pequeno atraso.
Machão: Fala sério.
Trinity: Tranquilo, a Britney ainda nem chegou.
Lu: Oi Lenny
Rappa: Fala malandro.
Rê: Oi Lennynho
Lenny: E aí, Renatinha, sentiu minha falta?
Rê: Oh, tá todo crente.
Lenny: Eu sei que você sentiu.
Rê: Você é danado hein?
Lenny: E você ainda não viu nada...
Rê: É, é?
Lenny: É
Lu: Ih, tá rolando um clima.
Machão: Pô, acho até que vou me retirar pra não encomodar.
Rappa: fala sério, se eles quiserem conversam no privado.
Lenny: Acho que o Rappa tá certo. Vamos lá?
Rê: Tudo bem, converso contigo no privado, mas não vai se assanhando não!
No privado
Lenny: Se incomoda se colocar as mãos sobre suas pernas?
Rê: Não vai subir muito, hein?
Lenny: Estou com as minhas mãos sobre suas coxas. Como você está vestida?
Rê: De camisola.
Lenny: Aos poucos, minhas mãos vão subindo pelas laterais externas da sua coxa, até atingir a parte da sua calcinha que passa pela cintura. Vou seguindo-a com meus dedos, fazendo todo o contorno da sua virilha...
Rê: Continua...
Lenny: Suavemente minha mão direita levanta a sua calcinha, enquanto minha mão esquerda sobe pelo seu corpo. Atinjo seus mamilos e sua vulva simultaneamente e começo a realizar movimentos rotatórios.
Rê: E eu, já louquinha e molhadinha, coloco minha mão por baixo da sua roupa e começo a masturbá-lo incessantemente.
Lenny: Ai, pára senão eu gozo!
Rê: Paro. Arranco sua roupa. Tiro minha calcinha, sento no seu colo e começo a cavalgar
Lenny: Tiro sua camisola e começo a acariciar seus seios.
Rê: Continuo cavalgando.
Lenny: Droga, vou gozar.
Rê: Já? Segura um pouco.
Lenny: Não dááááá...
Rê: Gozou?
Lenny: Gozei. Preciso resolver esse problema recorrente. Espera aí que vou fazer uma busca rápida no Google para ver se acho alguma coisa.
Lenny demorou um tempo realizando a pesquisa e ao retornar, Machão, fala com ele no privado.
Machão: Cara, preciso te falar uma coisa.
Lenny: Diga.
Machão: Enquanto você estava no Google, eu e a Rê fizemos sexo. Ela disse que estava precisando de um macho, um pau de verdade.
Lenny: O quê?? Traidores!! Nunca mais quero vê-los! Não volto mais aqui e vou retirá-los da minha lista de ICQ. Adeus!
Machão: Lenny, espera!
Lenny abandonou a sala.
Quarta-feira, Abril 07, 2004
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1:25 PM
by Heterogêneo
O Flaneur
Sentado na praça o flaneur tudo observava. O casal que brigava, o casal que se amava, a velha que dava comida para os pombos, o trombadinha que levava a carteira de um coroa distraído... sentia-se como algo a parte, um observador que não fazia parte daquilo ali, alguém de outra dimensão apenas notando e anotando, imune aos infortúnios e olhares estranhos. Mas enganava-se.
Do alto de um prédio uma moça mirava aquela pessoa quase imóvel. Observava o observador com curioso interesse. O que fazia ele? Durante horas e horas sentado no mesmo banco, na mesma posição, com o mesmo caderninho e mesma caneta, escrevendo incessantemente. Sentiu um estranho fascínio. Num impulso resolveu descer. Não sabia o que faria nem se faria alguma coisa em seguida, apenas desceria. Seus impulsos a guiariam passo a passo.
Chegou à portaria e saiu do prédio. Começou a andar pela praça sem rumo. Passou em frente ao homem e notou que ele a reparava . Sentiu algo diferente, não sabia se achava bom ou ruim. Parou no camelô e perguntou por um brinco qualquer, só para passar o tempo, enquanto olhava o flaneur e esperava algum impulso. Ficou observando barracas e mercadorias durante alguns minutos.
Respirou fundo e seguiu em passos calmos na direção do banco em que se encontrava seu ponto de desequilíbrio. Sentou-se ao seu lado, cruzou suas belas pernas e ficou vendo o mundo, mas apenas vendo, não o observava, pois sua atenção estava nos mínimos movimentos e barulhos que aquele homem fazia. Reparou que ele virou a cabeça de lado, como quem olhasse para ela. Fez isto uma, talvez duas vezes e agora tinha a impressão que fazia pela terceira e mais indiscreta vez. Estaria ele olhando para a sua perna? Seria aquele ser enigmático um mero tarado que observava as transeuntes? Se fosse, o que fazia com aquela caneta e aquele caderno. Estaria escrevendo contos eróticos?
Começou a trabalhar com esta hipótese. Não percebia, mas sentia-se excitada com aquilo. Pela primeira vez um homem lhe despertou profundo interesse sem que fosse necessário pronunciar qualquer palavra. Discretamente tentava ver o que escrevia. Viu algumas palavras soltas, não parecia haver muito nexo entre elas. O texto devia ser profundo. Viu a palavra "pernas" e logo imaginou tratarem-se das suas. Ficou mais excitada. Começou a aproximar-se dele a proporção de 1 milímetro por segundo. Suas coxas tocaram as dele no momento em que o noite caiu. Agora começava a jogar seu corpo e seu rosto para o lado, em movimentos microscópicos. Foram longos minutos assim. Quando terminou de virar a sua face por completo viu a do seu cúmplice já virada. As bocas se tocaram de forma quase inevitável.
O beijo foi lascivo, esqueceram-se dos que pela praça passavam. Para ele era como se ela tivesse magicamente atravessado a barreira que o separava do resto do mundo. Ela sentia a mesma coisa. Foram horas em somente um prolongado e despudorado beijo. A medida que ia ficando tarde a praça se esvaziava e o calor entre os corpos aumentava. Peças de roupa começaram a ser atiradas em sentidos aleatórios. Transaram, transaram maravilhosamente. Ao terminarem ela ficou estirada no banco durante um longo período, em completo êxtase. Nem se deu conta da partida do seu amante, que levou com ele o seu mistério. Jamais saberia seu nome nem o que escrevia naquele caderno.
Nota: Viajo amanhã de manhã. Enquanto procuram ovos de páscoa, procurarei ouro nas Gerais. Boa Páscoa a todos!
Segunda-feira, Abril 05, 2004
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Posted
4:47 PM
by Heterogêneo
Ira
Era um dia como outro qualquer. Saiu de sua casa em Belford Roxo e pegou o trem lotado, como de costume, até a Central do Brasil, onde fez baldeação para o Leblon.
No total, foram duas horas de viagem. Quase uma hora no trem, mais um tempo na Central esperando o ônibus para o Leblon sair e mais quase uma hora no ônibus para que chegasse ao seu destino, tudo normal.
Ao chegar, vestiu seu uniforme, entrou no ônibus virou a chave e começou a guiá-lo, na direção de Vila Isabel.
Fez isto três vezes e agora faltava a quarta e derradeira viagem.
Bebeu um gole d` água para aplacar a enorme sede e novamente entrou no ônibus, virou a chave e começou a guiá-lo, na direção de Vila Isabel.
O trânsito estava insuportável, normal. Chegou a passar quinze minutos sem que o andasse, absolutamente normal. Contudo, veio vindo-lhe uma enxaqueca fora do normal. Sua cabeça parecia que iria explodir. Foi ficando desesperado, só pensava em falar com o fiscal para que este o liberasse, mas ainda faltavam quinhentos metrôs para chegar àquele profissional, o que significaria intermináveis minutos naquele trânsito caótico, normal.
Aproveitando a total paralisia do tráfego desceu para comprar uma água, que o aliviou por alguns minutos. Mas aos poucos as marteladas na mente retornavam e cada vez mais forte. Preferiria morrer a suportar aquela dor. Mas segurou firme, era um homem responsável e devia cumprir seu ofício. O mínimo que podia fazer era esperar chegar até o fiscal para pedir liberação.
Agüentou firme por longos trinta minutos. Ao ver o fiscal sentia-se vendo um anjo.
- Vou para casa, minha cabeça está explodindo.
- Não vai não.
- Hã?
- Tá achando que qualquer dorzinha de cabeça é justificativa pra malandro largar o serviço?
Foi tomado de ódio. Como poderia aquele bestinha de merda chama-lo de malandro? Outra pessoa teria ido embora antes, nem esperaria chegar até o fiscal para pedir autorização. Bom, se tinha que ser assim, decidiu que chegaria ao destino em tempo recorde. Acelerou fundo e foi atropelando o que tivesse pela frente. Saldo: um engavetamento envolvendo, além do ônibus, sete carros, um morto e um engarrafamento homérico, anormal.
A empresa responsável se justificou dizendo que a liberação do motorista causaria atraso e transtorno aos passageiros, normal.
Sexta-feira, Abril 02, 2004
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1:48 PM
by Heterogêneo
Aparthaid Social
Lembro-me como fiquei feliz quando instituíram a gratuidade no transporte público para os idosos. Completava a idade 65 naquele mesmo ano. Sentia-me com minha dignidade devolvida, tinha recuperado meu direito de ir e vir.
Agora, bem mais velha, vejo minha dignidade ser retirada da pior forma possível. Continuam me oferendo o transporte gratuito, mas agora sou obrigada a ficar confinada, junto com outros não pagantes, em um espaço mínimo. Amontoamo-nos estudantes, idosos e deficientes. Enquanto isto, vejo lugares vazios no mundo dos pagantes.
Tudo isto feito de uma forma bem simples, prescindindo de lei ou qualquer outra coisa. Bastou a eles uma simples mudança na arquitetura interna do ônibus. Agora todos entram pela frente e os que gozam de gratuidade devem espremer-se entre a porta e a roleta. São apenas oito lugares. Imagine como fica no horário de saída das escolas. Os estudantes, alguns tão pequenos que mal conseguem se manter de pé, nem pensam mais em sentar, e nós idosos com freqüência sedemos lugar para pessoas ainda mais velhas ou deficientes. Mas ninguém fala nada, afinal as concessionárias continuam cumprindo o seu papel de nos transportar gratuitamente. Isto me lembra os Estados Unidos na era pré-Luther King.
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