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[Segunda-feira, Maio 31, 2004]
1,2,3,4,5,5,5,5,5...
Giovani Crespin era um sujeito singular e anacrônico. Vivia em uma pequena cidade medieval italiana, chamada San Gemigniano. Lá, passava os dias trancado dentro de uma sala de tamanho confortável que cabia por milagre dentro de sua minúscula casa. Vestido com calça de pano cáqui, camisa quadriculada de botões e suspensório, Giovani era considerado um ser esquisito, embora muitos ficassem fascinados em trocar um dedo de prosa com ele. Mesmo vivendo já no fim do século vinte, Giovani era inventor. Achava que as grandes indústrias não eram capazes de superar esta figura, pois, embora possuíssem um amplo aparato técnico, não tinham coração e sem este as pesquisas emperram. Com freqüência atinge-se um ponto em que se conclui não ser possível prosseguir, e é justamente neste momento que o inventor se destaca. Desafia a natureza, coloca a mão na massa e mesmo que todos os cálculos indiquem um fragoroso fracasso, ele realiza a sua invenção, superando todas as expectativas, inclusive as suas próprias. Contudo, embora tivesse uma aparência de início de século vinte em uma idade em que devia estar preocupado em andar na moda para conseguir uma namorada, o curioso italiano não deixava de se servir dos mais modernos equipamentos, como lap top e internet.
Nos últimos anos vinha se dedicando com afinco à descoberta de uma vacina contra a AIDS. Depois de muita pesquisa descobriu uma erva raríssima e já praticamente extinta, que podia servir como matéria prima. O problema era descobrir um local em que pudesse achá-la. Utilizou-se de enciclopédias, livros de biologia, internet e nada encontrou. Foi necessária uma viagem a Roma para que achasse alguma menção à referida planta.
Segundo constava em um livro velho, mofado e empoeirado, encontrado na biblioteca Nacional, apenas em um local do mundo era possível encontrar o que Crespin desejava: no Vale do Rio Preto, uma região de um enorme país latino.
Durante um ano Giovani juntou dinheiro, que conseguiu vendendo algumas invenções simples, e comprou uma passagem aérea para o país em que deveria estar a desejada erva. Ao chegar, ainda foi necessário pegar um trem e uma charrete para chegar à remota região.
Sua viagem chegou ao fim numa fria madrugada de inverno, em uma cidade chamada Maricá do Rio Preto. Sem ter onde dormir, posto que não havia pousadas e os moradores estavam dormindo, teve que passar sua primeira noite em um bordel, algo que havia em abundância na cidade. Lá, reparou a ausência de luz elétrica na cidade.
Pagou uma noite com uma moça e ao chegar ao quarto pediu a ela que simplesmente virasse de lado e dormisse, pois ele precisava descansar e o que ele estava realmente pagando era o quarto e a cama.
No dia seguinte bateu de porta em porta até encontrar um velho senhor de aparência misteriosa, em trajes formados por longos panos coloridos, que falava italiano e ofereceu-lhe espaço em um colchão no sótão da sua livraria.
Seu próximo passo foi conversar com o prefeito, utilizando-se de uma língua que estudara na infância, bem próxima à falada naquele país, sobre a ausência de luz, já que esta era necessária para que Giovani ligasse seu lap top para prosseguir satisfatoriamente na pesquisa. O alcaide informou-lhe que nenhuma cidade da região tinha luz nem telefone e que os moradores também nunca sentiram falta deles. Crespin questionou-lhe por que não mandava uma carta ao governador, pedindo que alguma providência fosse tomada, já que a luz elétrica era uma grande invenção, capaz de melhorar a qualidade de vida dos habitantes. O prefeito ficou reticente, mas acabou acatando a idéia . Enviou a carta, pedindo não apenas a instalação de linhas elétricas, como também telefônicas. Não foi necessário mais que um par de semanas para que a burocracia estivesse superada e a instalação começasse. Contudo, esta demorou bem mais que o esperado, já que nenhum equipamento moderno que seria utilizado durante as obras funcionou.
Depois de muito sufoco, os trabalhos foram concluídos, mas sem nenhuma razão aparente nada funcionava. Giovani não conseguia prosseguir no seu trabalho, posto que vários instrumentos necessitavam de energia para funcionar. Viajou à capital do estado, para comprar um gerador, mas este sequer deu sinal de vida em Maricá do Rio Preto, mesmo tendo sido testado na capital. Aquilo foi deixando-o intrigado, pois não conseguia conceber o sistemático insucesso no uso de equipamentos de tecnologia minimamente avançada.
Foi buscar a solução nos livros, mas nada encontrou, até que o seu hospedeiro comentou que aquela região era parada no tempo e entregou-lhe um enorme volume.
Os escritos consistiam na narração de uma espécie de outro olhar sobre a história da região. De acordo com o livro, a área passou por vários tipos de esquisitices através dos tempos, das quais, uma chamou-lhe atenção. Havia, no centro do vale, um relógio de sol sobre uma pedra. Neste local, os raios solares faziam-se presentes do alvorecer ao anoitecer, todos os dias, sem que nunca nenhuma nuvem impedisse tal acontecimento. Em dias de chuva, um pequeno espaço permanecia descoberto, permitindo que o sol banhasse o marcador do tempo. Ocorre que certa vez, um grupo de agricultores explodiu rojões no céu, a fim de provocar chuvas que acabassem com uma seca que já durava muitos meses. O plano não apenas deu certo, como deu certo demais. Uma chuva torrencial, como nunca se vira no Vale do Rio Preto, abateu-se sobre a região. A força das nuvens era tão forte que nem o perene espaço por onde os raios de sol passavam resistiu, de modo que o relógio não mais foi capaz de marcar as horas e o tempo parou na região. Assim, as nuvens não mais saíram de onde estavam e as chuvas continuaram na desconhecida e desabitada região central do vale. Isto explicava porque a área era impenetrável à tecnologia e porque doenças já erradicas, ali se manifestavam. Giovane precisava fazer com que o tempo voltasse a fluir, para que sua pesquisa fosse adiante e a região progredisse. Uma vez que a mortalidade do ser humano é algo inerente à sua natureza e não ligado ao tempo, aquele estado de coisas em nada beneficiava os nativos.
Pensou muito, durante dias e dias. Precisava achar uma forma de reverter a situação utilizando-se apenas da tecnologia disponível ao tempo em que este parou. Fez uma pesquisa sobre os compostos químicos dos rojões que estouraram no céu no início do século e os refez utilizando os compostos mais antagônicos possíveis àqueles, mas não obteve resultado. Foram inúmeras tentativas, em cada uma era trocado um elemento, aumentada a concentração de outro e inúmeras equações eram feitas, sem que nenhum resultado fosse obtido. Decidiu conversar, então, com o seu curioso anfitrião.
Foram horas de prosa e conjecturas, animadas por taças de uma forte bebida alcoólica que Marvin, o Livreiro, trouxera de uma viagem à Terra do Sol Nascente. Marvin era um cigano que há apenas três anos se estabelecera em Maricá do Rio Preto. Disse que nos últimos anos antes de se sedentarizar já pensava em deitar raízes em algum lugar, contudo, esperava sentir-se extremamente bem em algum lugar, para que de lá jamais saísse. Foi apenas na sua décima terceira visita a Maricá do Rio Preto que decidiu ficar. A cidade estava em total polvorosa, repleta de quengas vindas do distrito federal e tomada por uma grave epidemia. As mulheres da cidade haviam se mudado para um povoado vizinho e o clima estava bastante tenso na região, tendo havido, inclusive, uma guerra. Aquele ambiente hostil para qualquer pessoa normal fascinava Marvin, o Livreiro, como passou a ser conhecido no povoado. Ele via no Vale do Rio Preto e particularmente na cidade em que se estabelecera, um verdadeiro resumo da espécie humana. Lá, as pessoas eram, concomitantemente, cruéis, ingênuas e puras, pois nada mais faziam que agir guiadas pelos seus instintos, sem nenhum traço de maldade ou frieza calculada. Aquele que cativa os moradores da região é bem tratado. Se alguém não gosta de outrem, não saberá esconder este fato. Marvin costumava dizer que naquela cidade as pessoas eram translúcidas, de forma que era possível ver o que existia dentro delas. Os olhos, considerados, em todo o mundo, as portas da alma, ali eram fidedignos espelhos, mas espelhos mágicos, que não invertiam a imagem. O cigano contou muitas histórias ao italiano e uma cumplicidade sincera, como não poderia deixar de ser em Maricá do Rio Preto, surgiu entre os dois.
Após uma longa conversa fiada, começaram a tratar da questão sobre o tempo imóvel e as frustradas tentativas do inventor de resolver o problema. Seu anfitrião falou que em décadas de viagem, a pessoa que conheceu mais entendida de céu morava naquele mesmo país, só que bem mais ao norte. Era conhecido como João, o Baloeiro, sujeito simpático e extrovertido, habitante de uma cidade um pouco maior que as do Vale do Rio Preto, na região das Planícies de Tempido. Marvin não se lembrava o nome da cidade, mas afirmou convictamente que não seria difícil saber qual era.
Crespin não perdeu tempo e no dia seguinte partiu para a referida região. Deixou seu equipamento sob a guarda do livreiro e partiu apenas com uma mochila.
Foram três dias de charrete até a capital do estado e de lá, mais dois dias de trem até as terras procuradas. Ao chegar às terras planas de Tempido, os olhos de Giovane se arregalaram quando percebeu que três balões vermelhos formavam, sobre a ferrovia, um arco de entrada de uma cidade. Ao centro, flutuando a cerca de dez metros de altura, ficava um enorme balão, onde se lia, na gigantesca abóbada inflada, em preto: "Bem-vindo a Sundra do Norte". De cada lado havia um outro balão a poucos metros do chão, de forma que um fantástico e criativo arco era formado.
Ao descer do trem percebeu que havia muitos turistas e algumas placas, que indicavam direções, tais como o Museu dos Balões, o Parque dos Balões, a Oficina do Balão, a Casa do Baloeiro e o Play Balloon Center. O mediterrâneo não demorou a concluir que a pessoa que procurava era a maior personalidade da região. Dirigiu-se à Casa do Baloeiro e lá chegando viu uma pequena construção ao canto de um enorme pátio, onde havia muitos balões inconclusos, muitos outros já prontos e alguns até inflados, mas presos por cordas ao chão. Contornando-se o pátio era possível ler placas que contavam a história da vida de João, o Baloeiro e demonstravam como ele era um homem de renome internacional. No centro desta mesma região havia um jardim, onde as plantas eram podadas de forma a obter o formato de um balão. Logo na entrada havia uma placa: "Venha às 18:00 h e conheça João, o Baloeiro". Foi o tempo de Crespin achar uma pousada, sem muita dificuldade, e retornar. Assistiu a uma audiência com o grisalho e simpático velhinho. Sua abundância de cabelos brancos era impressionante. Não havia um fio de barba nem de cabelo, passando pela sobrancelha, que fosse mais escuro. Seu visual também anacrônico, bem semelhante ao do italiano, o cativou. João falou sobre sua vida, sobre balões, sobre como surgiu sua paixão por estes objetos e sobre a vivacidade da cor vermelha. Segundo disse, causando gargalhadas generalizadas, quando nasceu veio um saci e lhe disse: "vai João, vai ser baloeiro na vida". Ao ouvir os risos, João, o Baloeiro, indagou: "Não acreditam?" e continuou a exposição. Finda esta, Giovane procurou-o e dissertou sobre o problema que afligia o Vale do Rio Preto. O simpático velhinho, sempre com um sorriso no rosto, respondeu-o sem hesitar: "Partimos amanhã, às sete."
Dito e feito. No dia seguinte estavam ambos flutuando nos céus, a bordo de um gigantesco balão vermelho, com um objeto metálico pontiagudo no topo da cúpula, o qual foi objeto da curiosidade do inventor, mas o baloeiro apenas o respondeu que ele em breve compreenderia.
O espírito inventor, empreendedor e principalmente aventureiro que compartilhavam, fez com que nascesse uma amizade durante aqueles dias de viagem dentro de uma pequena sexta.
Ao chegarem próximo ao centro do Vale do Rio Preto, o balão começou a balançar muito devido à chuva e, embora João, o Baloeiro, estivesse puxando muitos cabos, soltando gigantes chamas da pira havida no centro do balão e não parasse um segundo sequer a fim de controlar aquele aeroplano, não parecia nada tenso, muito pelo contrário, nunca pareceu estar tão feliz durante toda a viagem, a aventura enchia a sua alma e aos poucos o medo também foi dando lugar à excitação no coração de Giovane Crespin.
Ao chegarem ao centro de um gigantesco lago, o velho falou: "Deve ser aqui que fica o relógio, como chove incessantemente há quase um século, está submerso por milhões de litros d¿ água. É bom termos vindo aqui, pois dentro de mais alguns anos este lago começaria a se aproximar das cidades e por fim, as engoliria."
Durante alguns instantes, pareceu mirar o centro do lago. Então, jogou fora rapidamente vários sacos de areia, colocou a chama no máximo, abriu um sorriso juvenil e gritou: "Segure firme!" Neste momento o balão começou a subir em linha reta e a balançar mais que nunca. Ao atingir as nuvens, o aeroplano começou a subir mais devagar, como se algo estivesse oferecendo resistência. "Estamos cortando as nuvens!", exclamou o baloeiro, com o mesmo sorriso que não se desfizera desde que o chaqualejo atingiu patamares quase insuportáveis para pessoas comuns. Em menos de um minuto estavam sobre as formações nebulosas. Ao olhar para cima via-se um céu azul, mas ao virar os olhos para baixo, via-se um verdadeiro chão de nuvens, com um gigantes buraco, do tamanho da abóbada do balão, por onde passavam raios solares que ignoravam a água e permitiam que se visse, imerso, um belo relógio de sol, sem limos ou musgos, como se o tempo jamais o tivesse castigado.
Desceram por onde subiram, enquanto a noite caía, e ao olharem para o horizonte, onde viram luzes acendendo. Era Maricá do Rio Preto que se iluminava. Os olhos de ambos se encheram d` água e Giovane Crespin bradou, em tom baixo e emocionado: "benvenuto all presente". Contudo, mal podia imaginar que a erva que gerou toda aquela aventura, nos locais onde o tempo passava, já estava extinta há mais de meio século.

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por Renato Amado * 2:16 PM
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[Segunda-feira, Maio 24, 2004]
Xigostora
O ser humano tende a seguir seus pares. Em São Sebastião, bastou o primeiro suprir a falta de mulheres com uma cabrita, que toda a população adotou a mesma prática. Ocorre que em Maricá do Rio Preto, o primeiro a tomar uma atitude quanto a este terrível lacuna sexual decidiu flertar com seu vizinho. Em poucos meses a cidade era novamente composta por famílias. Em cada casa era claro quem fazia o papel do homem e da mulher. Enquanto um cuidava dos afazeres domésticos, o outro cuidava da roça e dos reparos.
Embora este comportamento fosse disseminado entre a população e as autoridades locais, havia uma pessoa inconformada: o padre. Não aceitava e não podia permitir que tamanha heresia se alastrasse pela cidade, mas se fosse de encontro aos moradores acabaria sendo expulso do povoado, que ficaria, então, completamente entregue ao demônio. Diante de tão grave situação, não hesitou em recorrer à maior autoridade da região: o governador. Subiu numa charrete e enfrentou três dias de viagem para chegar à capital do estado.
O chefe do executivo local só conseguiu pensar em uma solução: quengas. Convenceu o pároco de que o pecado era necessário, para que não se estabelecesse uma tradição homossexual na cidade, que poderia se alastrar por toda a região. Todavia, naquele despovoado estado, não havia profissionais suficientes para dar conta de todos aqueles homens, apenas na capital do país conseguiriam o número desejado. Entraram, então, em contato com o presidente que, muito solícito, providenciou em poucas semana um contigente de mais de duas mil mulheres, oriundas não só da capital, como das cidades satélites.
As meretrizes trouxeram vida e alegria para a cidade. O burburinho era tal que os ciganos ficaram, naquele ano, um mês a mais que o normal. Depois, uma parte foi para São Sebastião, enquanto alguns decidiram permanecer mais algumas semanas em Maricá do Rio Preto.
Em poucos meses, a população das duas cidades estava completamente infectada pelo terrível vírus da Xigostora. Trata-se de uma doença capaz de matar em alguns anos. O doente começa sentindo pequenos encômodos ao urinar, mas logo estes se transformam em dores lancinantes, de forma que aliviar-se de uma das necessidades mais básicas, torna-se algo insuportavelmente doloroso. Ao fim de um certo tempo, a bexiga acaba por estourar e a nova urina que aos poucos vai surgindo alaga os órgãos até um ponto em que param de funcionar.
Mas os ciganos conheciam uma salvação. Havia um pajé de uma tribo que vivia discretamente em uma floresta entre Maricá do Rio e Preto e São Sebastião, que dizia ser capaz de curar qualquer doença. Confiantes, as duas cidades decidiram entrar em contato com o índio. De cada município partiu um homem e um cigano. Chegaram todos ao mesmo tempo à referida tribo. O habitante de Maricá do Rio Preto achou os apetrechos indígenas que lá viu extremamente semelhantes aos que os ciganos venderam na sua cidade no ano anterior, dizendo serem oriundos de remotas tribos da Selva Amazônica, mas preferiu calar-se sobre o assunto.
Embora fossem fechados e avessos a contatos com o mundo exterior, os índios receberam muito bem os caras pálida, pois estavam acompanhados por ciganos amigos. O pajé, um homem velho, cansado, portando um cajado de madeira rústica, que na verdade não passava de um galho morto, de pele com tonalidade parda-escura, rosto chupado de tal forma que era possível acompanhar toda a ossatura do seu crânio, mas dotado de invejável sabedoria e com olhos negros e atentos de águia, informou aos viajantes que aquela doença era, de fato, curável, mas o ritual era complicado, pois demandava vários dias e um sem número de ervas e plantas, de forma que só poderia curar uma pessoa. Esta, então, passaria a cura adiante, da mesma forma que se passa a doença. Contudo, o nativo de Maricá do Rio Preto falou que os homens da sua terra não voltariam a se deitar com suas ex-esposas, que os trocaram pelos traidores de São Sebastião, afim de espalhar a cura, de forma que deveria ser ele o curado, já que os moradores da cidade rival eram indignos de receber qualquer tipo de ajuda. O morador de São Sebastião, por sua vez, alegou que os responsáveis pela infecção da região eram os seus adversários da cidade vizinha, já que foram eles que trouxeram as meretrizes para lá e passaram a doença aos ciganos, que em seguida, visitaram sua cidade. Assim, eles deveriam apodrecer, como forma de expiação do pecado de espalhar tão séria enfermidade.
O bate-boca se estendeu por alguns minutos, enquanto os ciganos e o pajé observavam estáticos. Até que este se colocou entre os dois exaltados e bateu com o seu cajado contra o chão, provocando um pequena explosão. Irritado, mandou que fossem todos embora e só retornassem quando tivessem chegado a um consenso.
Uma negociação foi estabelecida, então, entre as duas cidades, mas não foi possível chegar a um acordo, de modo que não tardou em estourar uma guerra, na qual os armamentos mais evoluídos eram peixeiras afiadas.
A notícia da guerra se espalhou rapidamente por toda a nação. O presidente, perplexo e sem entender muito bem o por quê de tamanha selvajeria numa pátria marcada por um pacifismo quase monótono, enviou uma tropa do exército para que a situação fosse normalizada. As duas cidades deveriam ficar cercadas por tempo indeterminado, não podendo sair nem entrar ninguém, salvo comerciantes, para breves negociações.
Longe da família e fazendo um trabalho estressante, os soldados responsáveis em cumprir as ordens presidenciais em Maricá do Rio Preto relaxavam todas as sextas-feiras na zona da cidade. Não tardaram em se contaminar e posteriormente passar a moléstia às suas esposas e às meretrizes que restavam na capital, já que um esquema de revezamento determinava que nenhum oficial deveria ficar afastado de casa por mais de seis meses, para que não perdesse a motivação e se entregasse à libertinagem.
Não demorou muito para que todo o alto escalão do governo estivesse doente. Ministro, senadores, deputados e o próprio presidente, todos colheram a maldição do ventre das prostitutas. Além, é claro, do gigantesco contigente plebeu que habitava o distrito federal, cidade mais visitada do país, o que transformava a questão em problema nacional.
A autoridade maior da república, então, desesperou-se com a calamidade. Convocou todos os seus assessores para que fosse descoberta uma rápida solução. Eis que um deles surgiu com uma resposta inesperada: "há um pajé capaz de solucionar nosso problema." O presidente não sabia se ria ou chorava, mas diante da falta alternativas, decidiu conversar com o velho índio.
Ao chegar à tribo, a autoridade maior da nação ouviu do pajé o mesmo que os moradores de São Sebastião e Maricá do Rio Preto que o visitaram antes. Mas como algumas pessoas já estavam infectadas há muitos meses e a enfermidade tinha atingido proporções alarmantes, o mais interessante era que se começasse a cura pela pessoa mais libertina do país, afim de acelerar o processo. O pajé, então, deu uma baforada no seu charuto de folha de bananeira, contendo uma maçaroca amarela dentro, e expeliu uma fumaça laranja, que formou a imagem de uma bem vestida dama. "Meu Deus!", exclamou o presidente, "é a embaixadora da França!". O pajé, então, pediu que ele retornasse com aquela senhora. O comandante da nação falou que jamais conseguiria convencer a elegante representante do país de De Gaulle a visitar uma tribo indígena no interior da nação, principalmente para ser cobaia de uma sessão de pajelança. O pajé ignorou as suas palavras, virou-se de costas e entrou em sua oca.
No dia seguinte, assim que retornou à capital, o presidente ligou, já a noite, para a embaixada da França, mas a pessoa que procurava já havia ido para casa. Muito constrangido, ligou para a residência da pomposa senhora.
- Alô. - disse uma voz masculina empostada, porém nitidamente serviçal.
- Eu gostaria de falar com a Sra. Caroline de la Campaigne, por favor. - respondeu o excelentíssimo senhor presidente da república.
- Quem gostaria?
- É o presidente da república.
- Pois não, excelência, um instante.
Este momento, para o presidente, foi o mais desesperador de toda a saga, pois enquanto esperava a embaixadora, o telefone ficou no modulo de espera, tocando "Por Elise". Ele detestava esta música devido a um trauma infantil e chegou ao ponto de direcionar o telefone ao gancho, quando ouviu a voz da matrona, que lhe pareceu um canto de sereia.
- Boa noite prresidente, em que posso ajuda-lo.
- Estamos com um problema seríssimo, que assola toda a república e preciso falar com a senhora urgente.
- Porr que não vem à minha rresidência?
- A que horas?
- Pode virr agorra.
- Pois não, estou a caminho.
Em menos de quinze minutos ele estava lá. Foi recebido pela própria embaixadora, que abriu a porta trajando um vestido preto longuíssimo, com um enorme decote, que lhe deixava uma metade dos seios descobertos e a outra querendo descobrir-se. Usava um cachecol negro com pontos brilhantes e um tamanco baixo nos mesmos tons. Um colar de pedras, talvez preciosas, numa tonalidade quase branca de bege. Nas orelhas, brincos com enormes argolas. Exalava um cheiro altamente afrodisíaco.
- É um prrazerr recebe-lo em minha morradia. Entrre, porr favorr.
O presidente entrou. Foi-lhe oferecido um copo de vinho pelo mordomo, o que aceitou de pronto. A embaixadora também pediu um. O chefe da nação sentou-se em um sofá e a Sr. Caroline acomodou-se a sua direita, a uma pequena distância. Virou o corpo para o lado, afim de ficar numa posição agradável para conversar. Ninguém disse nada até que as taças fossem servidas. O presidente estava visivelmente nervoso. O suor escorria-lhe da costeleta, apesar do frio quase glacial que o refrigerador central proporcionava. Coube à Sra. de la Campagne quebrar o gelo:
- Pois não prresidente. Parrece que algo grrave ocorreu, não? Preferre converrsarr e beberr um pouco antes de começarrmos a debaterr as questões de Estado?
- Sem dúvida.
Conversaram e beberam animadamente por uma hora e meia, até que a diplomata francesa levantou-se, já trôpega, para ir ao toalete. Ao retornar, começou a insinuar-se desavergonhadamente ao seu companheiro de sofá. Taça de vinho sempre na mão direita, mão esquerda apoiada no encosto do sofá, movendo-se para frente até alcançar a cabeça do seu objeto de intenso desejo, no qual começa a fazer cafuné. Corpo inclinando-se cada vez mais na sua direção até cair com a cabeça em seus ombros e começar a beijar-lhe o pescoço, lamber suas orelhas, beijar sua boca, tirar sua camisa, o seu cinto, sua calça, sua cueca. Despir-se completamente e sentar-se ansiosamente sobre o seu colo, onde inicia um constante e extasiado movimente de vai e vem, ao ritmo da Marseliesa.
Terminado o "assunto", ela fica parada sobre ele por um minuto, deixando, em seguida, seu corpo cair para trás, com um sorriso constante. Então, rindo, pergunta:
- E aí, o que vossa excelência tinha de sérrio parra falarr?
- Preciso que a senhora visite um pajé, no interior do país.
- Um pajé!?! Isso não tem alguma coisa a verr com índios?
- Exato, preciso que a senhora vá a uma tribo.
- Parre de me chamar de senhorra, você acabou de fazerr sexo comigo. E o quê você querr que eu faça nessa trribo?
O presidente dissertou sobre a epidemia que assolava o país.
- Entendo... - respondeu a embaixadora - mas se as merretrrizes que contaminarram a pequena cidade vierram da capital, porrque os habitantes daqui não forram contaminados antes?
- Boa pergunta, - retrucou o presidente - sabe que eu não havia pensado nisso?
- Nem nenhum dos seus acessores?
- Não, sabe como é, o Executivo é um poder que carece de inteligência. O povo elege o mais carismático, que por sua vez compõe o ministério de acordo com o jogo político, de forma a contemplar todos os seus aliados. Assim, não há ninguém no governo realmente capacitado.
- Entendo...mas onde estão as mentes pensantes deste país?
- Algumas no Judiciário, que carece de honestidade, e outras na França ou nos Estados Unidos.
- Hmm... mas porrque está me contando esta histórria toda.
- Bem...é que... existe um pajé capaz de dar um basta neste surto, mas só uma pessoa muito especial é capazes de receber a cura e passa-la adiante. Não me pergunte por quê, mas ele disse que esta pessoa é você.
- Sim...mas o que você querr dizerr com passa-la adiante?
- É que a cura é passada da mesma forma que a doença.
- Mas como posso ser currada se não estou doente.
- Não há problema. A cura é infecciosa, entende, mesmo que você não tenha nunca ficado doente poderá "contaminar" outra pessoa. - respondeu o presidente, duvidando muito que fosse verdade o que acabara de ouvir.
- Posso contar contigo? - indagou o chefe do executivo.
- Então terrei que dorrmir com algum infectado porrque um pajé falou que assim estarrei passando a curra e salvando a nação?
- É mais ou menos isso.
- Eu topo, mas só forr você o infectado. - disse a matrona, com um sorriso sagaz.
- Providenciarei minha infecção, fique tranqüila. Amanhã de manhã partiremos.
Chegando à tribo, a Sra. de la Campaigne fez a mesma pergunta ao pajé sobre a estranheza das prostitutas da capital terem infectado os Moradores de Maricá do Rio Preto, sem que tivessem previamente espalhado o vírus pelo distrito federal. O pajé respondeu, com má vontade e em poucas palavras, que aquilo era relacionado a uma maldição que pairava sobre o Vale do Rio Preto. A Sra. Caroline não ficou muito satisfeita nem convencida pela explicação, mas se submeteu ao ritual de cura sem maiores questionamentos. Ficou durante dois dias e meios comendo só banana, reclamando o mínimo possível, dentro de um círculo de apenas três metros de diâmetro, formado por um cadáver de macaco, que não exalava cheiro, uma folha de bananeira, um cocar, uma flecha cravada ao solo e o próprio pajé, que fumava diversos charutos, cada um com um cheiro mais estranho que o outro. Terminado o longo ritual, o pajé disse, sem sequer uma pausa que indicasse o fim dos trabalhos:
- Agora vá, ande, dissemine a cura da forma mais rápida possível.
- E o senhorr está achando que eu sou o quê para sairr porr aí disseminando uma curra sexual?
- Vagabunda. - respondeu, placidamente, o pajé.
- Mais que ousadia! Eu fico aqui quase trrês dias, dorrmindo em cima de uma esteirra tosca, me alimentando de banana, parra o senhorr me chamarr de vagabunda?!? Quem o senhor pensa que é?
- Paiacan, o curandeiro; filho de Nostocas, o caçador; neto de Wichauia, o guerreiro; bisneto de Uochalá, o domador de leões.
Bem, não era exatamente uma apresentação formal que embaixadora esperava como resposta quando lhe perguntou quem ele pensava ser. Por isso, ficou meio atordoada com a resposta, olhou para os lados sem saber o que falar e disse: "Vou emborra." Pegou suas coisas e seguiu em direção a um descampado, onde um helicóptero a esperava. O pajé foi dormir tranqüilo, na certeza de que naquele momento, salvara o país, que inteiro se banhava, em noites de gozo, do mesmo fluido.

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por Renato Amado * 4:45 PM
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[Sexta-feira, Maio 14, 2004]
Os Anais Não Mentem
Todos os anos os ciganos chegavam com novidades. Já tinham trazido tapetes persas, que a população cismava em usar como capacho ou cobertor, perfumes franceses que foram usados para neutralizar odor de estrume de boi e agora chegaram com uma das maiores maravilhas do mundo moderno: exemplares da revista Playboy. Não chegaram só com isto, por óbvio, já que as mulheres não poderiam ficar sabendo de tal indecência, oficialmente a novidade ficara por conta de apetrechos indígenas adquiridos na selva amazônica. Mas os homens queriam saber da revista. Ficaram impressionados com a perfeição dos corpos constantes daquelas páginas. "Coelhinhas" de todos os tipos, rostos ingênuos, semblantes conquistadores, negras, brancas, asiáticas...mas todas guardavam algo em comum: um corpo escultural.
Os mais íntimos dos visitantes levavam exemplares para casa por um trocado. Como conseqüência lógica, as mulheres começaram a estranhar como seus homens estavam menos atrevidos e sofrendo de constantes caganeiras. Os homens, por sua vez, não conseguiam mais tolerar aqueles corpos gastos e maltratados após satisfazerem-se com as beldades impressas nas páginas. Decidiram, então, que as mulheres da cidade deveriam entrar em forma.
Foi suspensa a carne vermelha e em poucas semanas a produção de galinhas tinha triplicado, enquanto sobravam bois. Os mais jovens se encarregavam do peixe, já que o rio mais próximo ficava a três horas de caminhada e tinha a água turva e pobre. Era necessário disposição para andar muito e ficar dias pescando para que se conseguisse juntar ao menos meio quilo de pescado.
Outra providência foi a troca de papéis. As mulheres começaram a fazer o trabalho braçal, a cortar cana, fazer reparos na casa, carregar feno, cuidar da roça...enquanto os homens assumiram as funções domésticas.
Em alguns meses os homens conseguiram o que queriam: as mulheres estavam mais magras, esbeltas e fortes. Tão fortes que a maioria superara seus maridos neste atributo.
Tomadas por um sentimento de poder, oriundo da saúde e força física, as damas da cidade decidiram que agora elas mandariam. Destituíram o prefeito, os vereadores, o delegado e nomearam mulheres em seus lugares. Fizeram uma concessão ao padre.
Desesperados, os homens não sabiam o que fazer. Queriam retomar o poder, mas tornaram-se preguiçosos demais para trabalharem seus físicos e ficarem mais parrudos que as mulheres. Lembraram-se, então, dos colegas de uma cidade próxima, chamada São Sebastião. Há cerca de uma década, esta cidade não tinha representantes do sexo feminino, pois estas fugiram com um galã argentino*. Certamente não hesitariam em ajudar os homens a retomar seus postos de comando em troca de suas filhas.
Uma semana depois, uma caravana impressionante chegou. Centenas de homens, com seus "mastros" em riste, despontaram no horizonte. Embora tivessem uma missão a cumprir antes de conseguir o que queriam, suas "cabeças" pulavam de etapa e só pensavam no prêmio.
Contudo, as meninas não vacilaram em negar seus corpos, a menos que os forasteiros se aliassem à causa feminina. Estes, entretanto, estavam certos que seus pais não permitiriam tal traição. Não seria possível que todos aqueles homens dormissem com as solteiras da cidade sem que seus progenitores percebessem. Caso isto ocorresse, uma guerra acabaria se instalando entre os locais e os turistas. As raparigas, então, disseram que poderiam ir elas e suas mães com eles para São Sebastião, em troca da administração, por suas mães, da cidade. Cada homem teria, então, uma família inteira para ele, em troca da submissão política ao sexo oposto.
Incapazes de negar, por necessidade física, formou-se uma caravana muito mais impressionante que a anterior, rumando, gemendo e uivando em sentido oposto. A quilômetros era possível sentir o cheiro daquela estonteante exalação de feromônio. São Sebastião, que desde o episódio com o estrangeiro, ocorrido há dez anos, era conhecida como Só Sebastião, passou a ser chamada de Só Sebastiana e cinqüenta anos mais tarde, de tanto a imprecisão das línguas repetir este nome, a cidade passou a se chamar São Sebastiana. Mas certa vez, um governador inquieto com a imprecisão de gênero, rebatizou-a de Santa Sebastiana.
Passada outra metade de século, historiadores afirmam que a origem do nome é uma santa local, que foi glorificada em vida por ter, através de preces, livrado os homens da cidade de uma terrível maldição, que só "permitia" que eles tivessem relações com cabritas. Esta desgraça teria origem na água de um rio turvo que passa perto da cidade. Segundo os anais, numa cidade a oeste, banhada pelo mesmo rio, um rapaz teria atirado uma cabrita na água, durante uma crise de raiva por não conseguir um peixe sequer. A cabrita teria batido em uma pedra, sangrado muito e tido uma morte lenta e dolorosa. O animal, então, querendo vingar-se, fez com que todos que bebessem da água banhada pelo seu sangue desejassem apenas as da sua espécie.
Passados mil anos, a cidade passou a ser conhecida por Tibatiana. Os estudiosos afirmam que há provas cabais que um grupo de mulheres oriundas do Tibet e um argentino que servira nas Malvinas...

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* ver conto publicado em 4 de maio de 2004.
por Renato Amado * 6:37 PM
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[Quarta-feira, Maio 12, 2004]
Mistério de Penas
O sinal abriu e fechou várias vezes, mas ele permanecia parado, olhando os pombos. Foram cerca de dez minutos imóvel. Os transeuntes nem reparavam nele, afinal passavam em um segundo. Apenas o pipoqueiro ficou intrigado com aquele homem parado por vários minutos, observando pombos como se admirasse uma pedra preciosa.
Ficava prestando atenção nas aves comendo, como elas só engoliam o que lhes cabia na boca. Se alguma coisa não coubesse não se davam o trabalho de cortar em pequenos pedaços, simplesmente desistiam e procuravam por alguma coisa menor. Talvez a nossa sociedade não fosse tão traiçoeira se os seres humanos também se contentassem com o que lhes cabe, pensou.
Mas seu transe foi cortado por um alarme interno. Levou um susto de repente, olhou o relógio e viu que faltavam menos de cinco minutos para o fim do horário de almoço.
Retornou à agência e retomou sua rotina de contar notas e receber pagamentos. Fazia isto de forma automática, como se lá não estivesse, pois sua cabeça estava nos pombos. Não tinha vergonha de seu diferente interesse e seus colegas de trabalho já estavam acostumados com aquilo. Sempre que percebiam que Antônio estava avoado perguntavam: "está pensando em pombos?". Isto acabou virando um mote da agência, sempre que alguém fixava o olhar no infinito, vinha esta pergunta.
Saiu da agência e retornou para casa. Morava em uma casa simples em Duque de Caxias, quase uma choupana. Como costumava fazer no verão, pegou uma cadeira de praia e subiu na laje, para aproveitar o Sol do fim do dia. Com alguma freqüência ia munido de grãos de milhos para dar aos pombos que viviam debaixo de uma pequena construção retangular de concreto havida no teto, mas desta vez não o fez, decidiu não pensar na ave e apenas aproveitar o entardecer. Ficou praticamente imóvel por meia hora, até que um dos pombos que lá morava pousou ao seu lado com um papel na boca. Pegou o papel e leu: "VIVA OS POMBOS!" Mas que coisa mais esquisita, estariam caçoando dele? Não, provavelmente não, só uma pessoa que gosta de pombos saberia treinar um tão bem. Agarrou o bichano e desceu a escada para a sala com ele na mão direita. Colocou-o dentro de um armário, mesmo à revelia, resistindo às debateções histéricas do animal. Pegou um papel, uma caneta e escreveu: "quem é você?" Abriu a porta do armário, segurou o bicho com a mão esquerda e com a direita colocou o bilhete em frente ao seu bico. O pombo, um pouco mais tranqüilo, pegou-o com um golpe rápido. Subiram os dois para a laje e lá o animal foi solto. Antônio tentou acompanhar seu vôo, mas logo ele se misturou a prédios que ficavam a alguns quarteirões e sumiu de vista.
Naquela noite não conseguiu dormir. Estava intrigado e ao mesmo tempo feliz. Nunca fora um homem ao qual se devotasse atenção. Estava sempre quieto em um canto, calado, praticamente invisível. Só era notado quando alguém ria do seu olhar perdido e perguntava: "pensando em pombos?". Esta era a realidade da sua vida social, um esquisito isolado que só pensava em pombos. Quando o telefone da sua casa tocava já atendia falando "oi mãe", já que esta era a única pessoa que o procurava. Pela primeira vez achava que alguém, além da sua progenitora, estava lhe dando atenção gratuitamente, talvez por admirar nele justamente o que o fez se afastar de todos: a paixão por pombos.
No dia seguinte foi trabalhar mais aéreo que nunca. Perdeu as contas de quantas vezes o perguntaram se estava pensando em pombos. Certamente um recorde foi estabelecido.
Ao retornar ao seu lar foi de novo para a laje, mas ao contrário do dia anterior não o fez com o coração relaxado, mas saltitante de empolgação, adrenalina, expectativa e medo. Tinha medo que o pombo não estivesse novamente com um bilhete e aquilo tudo não passasse de um breve sonho, algo que no futuro ele até questionaria se fora real ou algum tipo de alucinação. Mas para sua felicidade, ao procurar o animal no seu esconderijo, verificou que havia um papel no seu bico. A resposta à sua indagação não era nada esclarecedora: "sou alguém que ama pombos". Não havia dúvidas que aquela pessoa queria ser enigmática, talvez pretendesse estabelecer um jogo. Tentou pensar em algo bem abstrato como resposta, mas a única coisa que conseguiu escrever foi: "como podemos nos encontrar?" Repetiu o mesmo ritual com o pobre animal e novamente não conseguiu acompanhar seu vôo por muito tempo.
O dia seguinte era sábado e resolveu estudar um pouco sobre pombos correios. Verificou que estes animais domesticados só aprendem a retornar para o lugar onde vivem. Estaria alguém invadindo sua casa enquanto trabalhava, entregando bilhetes para o pombo e lendo os que Antônio escrevia?
Correu para uma loja de armarinho próxima e comprou cadeados, pedaços de madeira e tudo o mais possível para que sua casa ficasse lacrada.
Domingo não saiu, mas mesmo assim o pombo apareceu com um bilhete, que dizia: "apenas acorde". Ficou mais atordoado que nunca, o jogo estava ficando cada vez mais difícil. Leu os três bilhetes um atrás do outro, para ver se matava o enigma, mas sequer uma ponta de luz apareceu em sua cabeça. Respondeu: "pare com este jogo e seja clara ou paro eu", sem perceber escrevera no feminino. No fundo tinha esperança que fosse uma mulher, na verdade, esperava que fosse a mulher da sua vida.
Passou o resto do dia, a noite e o dia seguinte inteiros junto à porta. Mas não viu ninguém e no fim da tarde de segunda-feira, dia em que não foi trabalhar, resolveu subir à laje e o pombo estava lá, com um bilhete: "podemos parar, mas primeiro terás que me dominar. E por favor, sou espada."
No dia seguinte, ao retornar do trabalho, dirigiu-se ao submundo, onde contratou um indivíduo para tomar conta da sua casa e matar qualquer um que entrasse. Pediu que vasculhasse todos os recantos, a laje, o armário, debaixo da cama...
Retornou e ninguém tinha pisado lá, segundo o "segurança", mas o pombo tinha um novo recado: "não é com a força física que me dominarás." Aquilo foi altamente atordoante, o indivíduo sabia todos os seus passos. No desespero, deu ao contratado a ordem de seqüestrar para interrogatório qualquer um que ele visse manipulando um pombo nas redondezas ou escrevendo bilhetes próximo a estes animais. A noite o contratado chegou com um casal de namorados que escrevia bilhetes de amor, um para o outro, na praça.
Antônio escreveu outra mensagem e entregou ao pombo: "ou abre o jogo amanhã ou quando eu te pegar te mato!" A resposta, no dia seguinte, veio mais direta, porém estranha: "mande o matador atirar em qualquer um que mexer com pombo ou escrever bilhete nesta casa no início da manhã. Assim me pegarás" No início da manhã? Por que no início da manhã? Seria alguma armadilha, ele deveria cumprir a ordem? Pensou muito e concluiu que não tinha nada a perder. Ninguém estava autorizado a entrar na casa em horário algum, portanto, na pior das hipóteses mataria um intruso. Além disto, ele próprio estava em casa no início da manhã e poderia controlar a situação. Se uma criança desavisada quisesse entrar com um pombo, tudo que precisava fazer era negar-lhe permissão de passar pela porta. Resolveu, então, dar a ordem: "atire em qualquer um que mexer com pombo ou escrever bilhete nesta casa no início da manhã."
A ordem foi cumprida. O velório de Antônio será hoje, às 18:00 horas, no Cemitério de Caxias.
por Renato Amado * 6:35 PM
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[Terça-feira, Maio 11, 2004]
Hein, hã, hmm?
Dia das mães, almoço em Santa Tereza com parentes de sangue e por afinidade. Entre eles, parentes por afinidade dos parentes por afinidade. No meio de tanta afinidade, fiquei com medo de desafinar quando um lusitano sentou-se ao meu lado na mesa de jantar. Não que eu tenha algo contra nossos colonizadores, mas, como bom brasileiro, passo maus bocados para entender o que eles falam.
O número de risadas que soltei, daquelas utilizadas quando você não compreende nada do que o cidadão diz, foi impressionante. Provavelmente o português devia estar me achando o cara mais alegre que ele já conheceu. Mas fiquei sem escapatória quando percebi pela entonação que tinha vindo uma pergunta. Meu Deus, uma pergunta! Como sair desta enrascada? Não poderia responder com uma risada. Tive que recorrer ao "hein?". Eis que ele repetiu a pergunta, então me socorri com o "hã?", depois utilizei-me do "hmm?" e meu repertório acabou. Comecei a suar frio, já estava sem graça de pedir para um sujeito que fala a mesma língua que eu repetir tantas vezes a mesma pergunta. Mas entre a primeira e a quarta vez que ele falou tinha conseguido algum progresso, talvez com mais uma repetição eu entendesse o que ele queria, só que não sabia como pedir isto sem ser muito direto, ou seja, sem falar "repete".
Na primeira vez não identifiquei absolutamente nada. Ele poderia estar falando tupi-guarani.
Na segunda tentativa, ouvi "#$%@#$&tens?" Ótimo, a pergunta terminava com "tens". Há de se convir que do nada para um "tens" há uma diferença percentualmente infinita.
Terceira realização da pergunta e escuto: "quidatens?". "Quidatens", o que seria isto, o nome de algum animal endêmico da Península Ibérica? Achei a hipótese meio absurda, então pedi que a indagação fosse novamente proferida, mesmo que isto custasse a paciência do meu interlocutor.
Eis que veio a quarta versão, esta já com timbre de voz irritado e feita de forma bem lenta, evidenciando que o ilustre europeu não pretendia realizar a pergunta uma quinta vez: "quê ida tens"? Que coisa intrigante, como uma "ida" pode ter alguma coisa? E se tem, como saberia que ida que tem a tal coisa. E que coisa? Nossa, isto estava muito confuso, não era possível que ele estivesse perguntando o que entendi. Ciente que não poderia pedir uma nova repetição, levantei-me de súbito, pedindo licença para ir ao banheiro.
Chegando ao toalete, fiquei repetindo mentalmente "quê ida tens?", "quê ida tens?", para ver se aquelas palavras se transformavam em alguma coisa com lógica na minha cabeça. Fiquei pensando o que é mais característico no sotaque lusitano e conclui que é a mania de engolir vogais. Bom, a palavra que não fazia sentido era "ida". Tentei todas as vogais depois do "a", pois este era o único lugar em que me parecia cabível mais uma letra. Obtive: "idaá", "idaé" e "idaê", "idaí", "idaó" e "idaô", além de um belo e assignificativo "idaú". Achei melhor desistir da brincadeira antes que eu convocasse Echu. Lembrei-me, então, das consoantes mudas, como em "insecto", "projecto" e "facto". Sempre um "c", onde caberia um "c" neste contexto? Não, não caberia, a menos que a palavra "icda" existisse e eu estivesse mal informado. Não havia mais esperança, jamais saberia o que o português queria de mim.
Será que ele estaria esperando uma resposta quando eu retornasse à mesa ou já teria esquecido o assunto? Foi quando tive a brilhante idéia de só sair do banheiro quando ouvisse a voz dele, pois se ele falasse se engajaria num papo e esqueceria de mim, além disto provavelmente ele mesmo temia que eu o pedisse para falar a mesma coisa pela quinta vez. O problema é que o ibérico era meio quieto e falava baixo. Grudei, então, meus ouvidos, na porta do WC, na esperança de ouvir aquela voz roca e carente de vogais. Eis que o escutei fazendo uma pergunta uma, duas, três vezes para algum outro infeliz. Senti uma felicidade egoística e sádica tremenda ao perceber que havia outro pobre coitado passando pelos maus bocados que eu passei. Resolvi sair do banheiro, tranqüilo, sorriso no rosto, na certeza que o português tinha se esquecido de mim. Ao sentar-me escutei ele repetindo uma pergunta pela quarta vez para outro cidadão, que por coincidência também se levantou para ir ao banheiro com urgência em seguida. Senti-me pouco original e criativo depois disto, mas pelo menos um pouco mais normal. Conformei-me em jamais saber o que seria aquele "quê ida tens?". Algum palpite?
por Renato Amado * 12:33 PM
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[Segunda-feira, Maio 10, 2004]
Mistura de linguagens
Apertou o terço com força entre os dedos. Cada bola que jogava para o lado era uma gota que se somava a uma poça que estava fadada a virar um lago de esperança. Não sabia em que depositava tal sentimento, mas o fazia. Talvez servisse de estoque, talvez para a vida do dia a dia.
Às vinte e uma horas seu marido chegou, ensopado de chuva. Ajudou-o a arrancar a roupa e dirigiu-o ao banheiro para um banho quente. Estava visivelmente cansado e talvez gripado. Tirou-lhe a temperatura e verificou que esta estava acima do normal. Deu-lhe, então, um banho frio. Na semana seguinte não teria condições de trabalhar.
Durante sete dias Evandro esqueceu-se dos problemas cotidianos, viveu uma vida bucólica e romântica ao lado de sua esposa. Dormia cedo, amparado pelo colo de sua mulher e acordava com o cantar do galo. Tinha um sono pesado que às vezes era cortado por um súbito frio causado pela febre. Mas sua atenciosa amada estava sempre a postos para colocar-lhe mais uma coberta sobre o corpo.
Não queria sair daquela situação jamais, era uma semana extremamente romântica, nunca gostara tanto de gripar-se, mas aos poucos o vírus foi indo embora e ele não poderia ficar muito tempo sem trabalhar, já que disto dependia o sustento da família. Tinha que recuperar o tempo perdido.
Abriu a porta do barraco decidido, AR-15 numa mão e ¿oitão¿ na outra, foi acertar as contos com uns "alemão". Foram três "pipocos" em cada, um na testa, um no peito e outro na barriga. Ao último ele ainda deu a opção de ser jogado do penhasco, mas este acabou preferindo a morte padrão.
Ultimamente o bagulho anda cheio de "alemão". Os "cumpadi" tão tudo "bolado" com a situação e Evandro tá ficando cada vez mas estressado.
Mas ao chegar em casa e deparar-se com a ternura de sua mulher, tudo muda de figura. O mundo preto e branco colore-se, enchendo-se de poesia e beleza. Até que...
Os dois mundos se misturam. Uns "alemão" invadem a casa querendo acabar com Evandro, que fica deveras "bolado" ao reparar que um "cumpadi", que considerava CB (sangue bom) está entre os rivais. Evandro tenta se proteger de qualquer forma, utilizando os móveis da casa, todavia os "maluco" estão bem armados e não há escapatória. Nosso protagonista vira presunto e jaz morto na sala, junto ao corpo de sua mulher.
por Renato Amado * 12:25 PM
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[Sexta-feira, Maio 07, 2004]
Agora é oficial
Bem meus caros, com este novo template, este blog passa a ser oficialmente de contos e crônicas. Não é mais um blog de assuntos heterogêneos e que de uns tempos para cá resolveu escrever vários contos. Não, somos contistas e cronistas. De qualidade questionável, sem dúvida, mas somos! Acima vocês podem ver a mão que escreve isto daqui iluminada pelo Sol, em foto tirada pela patroa. Aliás, esta é a grande responsável pela mudança de template, que foi integralmente feita por ela. Se alguém já estava de saco cheio dos meus contos, mate-se, porque o negócio está apenas começando e é agora que o bicho vai pegar. Vou tentar intensificar produção e qualidade.
Quanto aos links, devo uma explicação aos amigos blogueiros. Não, não se sintam desprezados, pois os dois links que aqui se encontram não foram postos por mim, mas pela patroa, ao fazer o template. Malandrinha, lincou o seu blog e o do cunhado dela. Prometo que se algum dia eu tiver disposição, linco meus caros amigos. O problema desta onda de link é que você acaba excluindo alguém e aí o cara se sente renegado, coisa e tal. Se você não linca ninguém tá beleza, ninguém pode reclamar. Mas enfim, chega de enrolar, já que agora isto é oficialmente um blog de contos, não há porque falar abobrinha. Publico, portanto, um conto que escrevi já há algum tempo, mas que não tinha postado. Aviso logo que é pior que os últimos três. De qualquer forma, gosto é que nem bunda e não está tão mal assim, além de não ser muito grande, portanto, recomendo a leitura. Aproveito a coincidência para dizer que este template também é para brindar os 10.000 acessos. Um abraço e boa leitura.
Preguiça
O tempo passou rápido como um raio. Lembrava-se do dia em que vestiu-se de branco e dançou valsa com o príncipe, talvez não como se fosse ontem, mas certamente na última semana.
Bom, mas isto foi há dez anos. Agora ela está formada e arrastando uma juventude gasta. Neste ínterim veio o vestibular, a faculdade e a colação de grau. Muita coisa aconteceu, mas ela não mudou, continuava uma adolescente. Seu programa, hoje em dia, de segunda a segunda, com pequenos intervalos em respeito aos dias de chuva, é ir à praia.
Ocorre que seu pai perdeu o emprego e sua mãe é aposentada, não tendo condições de sustentá-la. Mas uma vida adolescente é cara, requer dinheiro para entrar em boates caras e para comprar roupas de marca.
Sentiu os efeitos da crise financeira pela primeira vez quando perdeu uma oportunidade com o rapaz que visava por não ter dinheiro para sair. Decidiu, então, mover-se. Aquele diploma, embora não adquirido com muito suor, deveria valer-lhe alguma coisa.
Foram três meses de buscas sem sucesso. Vinte e cinco anos era muita idade para entrar no mercado sem ter, sequer, estagiado.
Ao chegar o verão, conseguiu um emprego de vendedora em uma loja. Com ele, a volta do dinheiro. Mas as águas de março foram cruéis, uma verdadeira enchente, que levou, junto com o Sol, seu emprego, seu dinheiro e seu resto de juventude.
O mundo parecia-lhe intragável e amargo. Queira tomá-lo feito Coca-cola, como dizia a música, mas algo a impedia. Olhou para o seu passado e achou a resposta, mas não sabia como corrigir-se. Agora com vinte e seis anos, sentia-se uma velha. Como suprir a falta de estágio e um curso superior deficiente? Via que não era mais uma adolescente e que ser adulta era ainda mais caro. Como ganhar o mundo?
Decidiu prestar concurso público. Conseguiu um cargo de nível médio. Como aquilo a fez bem! Foi a primeira vez em sua vida que conseguiu algo com suor e sentiu o valor da recompensa.
Mas aquele emprego a proporcionava uma vida medíocre. Teve uma infância, adolescência e parte da juventude com luxo, não conseguia acostumar-se a uma vida de restrições. Descobriu que podia aumentar sua renda de uma forma muito simples: favores. Os funcionários públicos são fundamentais para o funcionamento da máquina, que pode ser rápida ou lenta, dependendo da quantidade de "óleo" inserido.
Dobrou sua renda e qualidade de vida e para melhorar entrou uma menina muito figura na repartição. Seus colegas de trabalho e ela divertem-se fazendo brincadeiras jocosas com a coitada. É que a maluca não aceita propina, é mole?
por Renato Amado * 4:22 PM
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[Terça-feira, Maio 04, 2004]
Post temporariamente fora do ar por motivo de força maior
por Renato Amado * 5:15 PM
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