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[Quarta-feira, Junho 30, 2004]
Buraco Negro
- Reuber, boas notícias, a nova rota foi autorizada!
- Foi!?! Isto é maravilhoso! Vamos ao trabalho, quero estar decolando o primeiro vôo em dois meses.
Dois meses mais tarde, Ricardinho, Serginho e Robinho brincavam na pracinha de Só Sebastiana, antiga Só Sebastião, que antes se chamava São Sebastião, quando ouviram um enorme estrondo. Olharam para o cima e viram uma bola de fogo junto a uma nuvem. Em seguida, coisas reluzentes começaram a despencar do céu, a uma certa distância dali.
Marvin, o Livreiro, a pequena Marissol e seu irmão, em Maricá do Rio Preto, viram o mesmo, assim como Maria de Lurdes, Maria Rita e Maria Creuza, em Nova Córdoba do Rio Preto e Severino, em São Tomé. Seguiram, os citados, para o local do fenômeno, onde chegaram quase simultaneamente.
O fato deu-se exatamente no centro do Vale do Rio Preto, onde há um enorme lago, de forma que a maior parte dos objetos que caíram refletindo a luz do sol se encontravam debaixo d¿ água, mas alguns vestígios caíram em terra firme. Os presentes, curiosos, foram investigá-los.
- Será o juízo final? - questionou Maria Rita.
- Não fale besteira, garota! - retrucou Maira de Lurdes, num antipático tom de voz, mais preocupada em alfinetar sua antiga rival do que em realmente discordar da hipótese levantada. Na verdade, nem prestara atenção no que ela disse.
Todos observaram os objetos, que se revelaram metálicos, num misto de espanto com curiosidade, menos Marvin, o Livreiro, que parecia mais um detetive do que um curioso. Severino, Serginho e Robinho detiveram a atenção nos movimentos do cigano, como quem espera um parecer, que não tardou em surgir:
- Era um avião. - proclamou o livreiro.
- Um o quê? - questionou Robinho.
- Avião, menino, nunca ouviu falar em avião, não? - disse Maria de Lurdes, habitante da cidade mais rica da região, com sua costumeira grosseria. - Ah é, o pessoal da sua cidade ainda não sabe o que é televisão. - completou em tom jocoso. Virou-se, então, para Marvin e indagou:
- E aí, sabichão, sabe porque a máquina pode ter explodido daquela forma?
- Não. Os pedaços estão curvados, dobrados, amassados, como se tivessem se chocado contra um obstáculo bem sólido, mas olhando para cima, nada mais vejo que esta densa nuvem.
- Que esquisito, - comentou Severinos - a nuvem na qual o vapor do Rio Preto me colocou era igualzinha a essa.
- Igualzinha a essa... - repetiu para si mesmo o cigano, enquanto colocava a mão direita sob o queixo e franzia testa e sobrancelhas - Preciso pesquisar o assunto.
- Ô senhor sabe tudo, não vai responder, não? - questionou Maria de Lurdes.
- Não. Este negócio de dar respostas fáceis, só para ceder à pressão, é coisa de político.
Maria Creuza, jovem e amiga de Maria Rita, soltou um riso engasgado, enquanto esta apenas sorriu suave e marotamente.
Dispersaram-se todos, seguindo em grupo para suas respectivas cidades. Marvin, o Livreiro, não conseguiu pensar muito durante a caminhada de retorno, pois a curiosa Marissol não parava de questionar-lhe sobre aviões, vôo, céu, a história de Severino ter sido levitado por um vapor e em seguida depositado sobre uma nuvem. Até sobre João, o Baloeiro, falaram. Marvin não se incomodou tanto, pois já sabia o próximo passo a ser tomado e ficar pensando mais sobre o assunto, o que seria inevitável, se estivesse sozinho, somente o levaria a vagas e infrutíferas especulações. Além disto, adorava crianças, embora não tivesse filhos.
Ao chegar a Maricá do Rio Preto, o velho cigano caminhou inesitante à sua casa-livraria, onde se dirigiu imediatamente ao enorme volume que contava a história do Vale do Rio Preto. Procurou e achou no índice pela palavra "nuvem", que fazia referência à página 33. Abriu-a e a leu por trinta minutos. A interminável página falava sobre uma época em que a região era ocupada por diversos povos autóctones. Eram muitos e maior que o número de vilas era a distância entre elas, o que dificultava o comércio. Um comerciante, então, resolveu facilitar a vida de todos, aproximando os povoados. Uma vez por ano um boi visitava cada um dos povos. Dançava durante um tempo até que deitava-se no chão, até que alguém lhe recitasse um verso. O comerciante, então, interceptou o boi no centro da região, enquanto este se viajava de uma vila numa extremidade a outra, no extremo oposto. O boi, ao vê-lo, dançou por alguns minutos e deitou no chão, mas o comerciante nada vez, virou as costas e foi embora. O pobre animal, ao ver triste cena e incapaz de levantar-se sem que um verso lhe fosse recitado, pôs-se a chorar, ao pé de um pedestal que ostentava um relógio de sol que ia além das nuvens. A medida que chorava, abria um buraco no chão, que arrastava tudo o que havia envolta para dentro dele, além de fazer o pedestal afundar cada vez mais. Com a passagem dos séculos, o Vale do Rio Preto ficava cada vez menor, atraído por este buraco negro. Havia duas nuvens no céu que eram densas e constantes. Elas ficavam vagando pela região, sem nunca se encontrarem. Contudo, a colisão foi inevitável, devido à força de atração do buraco cavado pelas lágrimas do boi. Ao encontrarem-se, formaram a nuvem mais densa de que se tem notícia, completamente intransponível, que circula pelos céus do Vale do Rio Preto.
- Mande uma equipe para acompanhar as investigações da Polícia Federal. - ordenou Reuber.
A Polícia Federal mandou mergulhadores para a região, a fim de encontrar corpos e a caixa preta no fundo do lago. Logo, um dos que submergira veio a tona, com uma expressão tremendamente assustada.
- Vocês podem me chamar de maluco, mas eu juro que vi um boi chorando lá no fundo, junto a um relógio de sol.
- Hã!! - exclamou o inspetor responsável, em tom incrédulo - Está maluco rapaz, como poderia um boi respirar debaixo d¿água!?! Deve ser a pressão que não te fez bem, descanse um pouco.
- Você tá voltando pro lugar do acidente?
- Estou, respondeu Marvin.
- Oba! Vou contigo. - disse uma excitada Marissol.
- Eu também! - bradou o irmão da menina.
- Talvez durma por lá, meninos, é bom vocês levarem comida.
- Tá bom. - respondeu Marissol.
Em seguida, emergiu o segundo mergulhador, que sem falar nada, saiu da água ofegante, sentou-se sobre uma pedra e retirou todo o equipamento.
- Aconteceu alguma coisa? - perguntou o inspetor.
- Não. Quer dizer aconteceu, mas acho que não foi nada não, eu que devo estar ficando maluco, preciso descansar um pouco, talvez até tirar umas férias.
- Mas o quê você viu, afinal?
- Nada, nada, esquece.
- Não desrespeite minha autoridade, estou chefiando a equipe e exijo que você me diga o que viu lá embaixo!
- Se eu te dissesse que vi um boi, você acreditaria? Não, né? Então, não seria melhor se eu ficasse calado?
- Me dê este equipamento, vou acabar logo com esta palhaçada. Descerei lá e comprovarei que não existe nenhum boi. Quando eu retornar você e seu companheiro estarão presos por desacato à autoridade. Não estou aqui para ser zombado!
E afundou. Ao retornar, ordenou:
- Vamos embora!
Ao chegarem, Marvin, Marissol e seu irmão nada viram. Aquele procurou por uma região arborizada e montou a barraca. Marvin ficou contando as incríveis histórias da sua vida de cigano às crianças até o anoitecer, quando fizeram um lanche e em seguida dormiram no mesmo colchão.
Pela manhã, foram acordados por um forte ruído. Marissol e seu irmão levantaram-se excitados, sairam da barraca e colocaram-se junto à árvore mais periférica daquele pequeno conglomerado arborizado, de onde podiam ver, ofuscados pelo sol, um helicóptero pousando. O livreiro levantou-se com calma e em seguida ficou ao lado de Marissol, observando a barulhenta máquina pousar. Viu-a passar bem próxima à perigosa nuvem.
- Delegado, faço questão, mergulhe e verifique. - disse o inspetor.
Em pouco tempo, o delegado retornava à superfície.
- Mas que diabos é isso!?!
- Não faço idéia, doutor. Acho que é melhor drenarmos esta água.- respondeu o inspetor.
- Receio que você tenha razão, vamos. - respondeu o delegado.
Entraram novamente no helicóptero e decolaram. Apenas quando já estavam a várias dezenas de metros do chão, notaram que havia um homem preso por uma corda ao helicóptero. O inspetor pegou uma arma e apontou para ele, questionando o que fazia ali.
- Salvo suas vidas! - gritou Marvin.
- Suba antes que caia, mas não coloque suas mãos junto ao corpo!
Marvin, então, entrou no helicóptero, onde foi rendido de pronto.
- O que você quer, seu maluco?!? - perguntou o inspetor.
- Acho que vocês já notaram que esta é uma região onde ocorrem fenômenos estranhos. A água do rio corre num sentido impossível, há um boi chorando sob a água...
- Sim, e daí?
- Daí que eu tenho a explicação para a queda do avião e também para a nossa queda iminente se vocês não derem ouvidos ao que falarei.
- Encoste aí, que vou revistá-lo.
- Tudo bem, me reviste, mas sem antes desviar daquela nuvem bem no nosso caminho. Escute o que estou dizendo, é a nossa vida que está em jogo.
O inspetor fingiu hesitar, quando, na verdade, estava mais que decidido a obedecer o cigano. Virou-se para o delegado que, com um suave movimento de cabeça, aquiesceu com a sugestão do cigano.
- Mas passem próximos a ela, por favor. - pediu Marvin. - Então, peguem uma garrafa na minha mochila e arremessem contra ela.
O inspetor fitou-o incrédulo, mas novamente decidido a obedecê-lo. Virou-se, então, para o seu superior:
- Delegado?
- Faça o que ele manda.
Passaram próximos à formação nebulosa, contra a qual o inspetor arremessou a garrafa, que se quebrou, como se tivesse sido arremessada contra concreto.
- Seu bruxo maldito, o que é isso!?! - questionou, nervoso, o inspetor.
Marvin, então, narrou-lhe tudo que lera na página 33 do livro.
- Não há como reverter o que já ocorreu, mas podemos interromper o processo. Vocês precisam drenar a água daquele lago. - afirmou Marvin
- É exatamente o que já havíamos decidido fazer. - respondeu o inspetor, em tom antipático.
- Agora preciso que vocês me coloquem de volta em terra. - disse Marvin.
- Nem pensar, agora você vem conosco. - respondeu o inspetor. - Quem mandou bancar o tarzan aéreo?
- Há duas crianças lá embaixo, sozinhas.
O inspetor respirou fundo. Novamente pediu autorização para o delegado, no que foi atendido, por um minúsculo movimento de cabeça.
Marvin voltou para Marissol e seu irmão. Lá ficaram por cinco dias, até que surgisse um caminhão carregado de enormes bombas ligadas a canos. Atrás dele vinha uma viatura da Polícia Federal. As bombas foram retiradas do caminhão e postas para trabalhar, ligadas a geradores. O lago começou a ser esvaziado e um novo foi sendo formado ao lado. Terminado o processo, todos ficaram atônitos e assustados, assistindo aquele boi chorar copiosamente, salvo por Marvin, que ria da cara dos demais e da poesia da situação, e por Marissol, que pôs-se a correr ansiosamente em direção ao ruminante. Abordou-o, questionando por quê chorava. Não obteve resposta. Fitou-o, então, com seus lindos olhos negros, e disse:
- Ah boizinho chorão, por que você não se levanta do chão e vem brincar comigo e meu irmão?
O animal, então, interrompeu o choro, levantou-se, pôs sua cabeça junto à de Marissol, onde ficou até receber um breve cafuné, que foi interrompido por um brusco movimento bailado. Foi embora dançando. Desde então, todo o mês de junho, o boi faz visitas às cidades da região. Os versinhos foram se sofisticando até virarem músicas, de forma que a época do ano em que ele surge virou uma data festiva no calendário da região. Algumas músicas chegaram a fazer sucesso internacional e a festa junina do boi se espalhou por todo o país.
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Fatos do Purgatório
Estou inaugurando hoje uma coluna neste blog. Chama-se Fatos do Purgatório. Conta histórias do Rio de Janeiro, muito bem definido na música Rio 40 Graus, como Purgatório da Beleza e do Caos, que fico sabendo, mas que não saem na imprensa. Vamos à primeira história:
Fulano subia uma ladeira, de um bairro nobre, que termina em uma favela. Foi parado em uma blitz.
- Vai comprar bagulho? - indagou o PM.
- Não, vou não. - respondeu Fulano.
- Pode falar, na boa. - insistiu o policial.
- Tá, vou sim, vou sim.
- Então, faz o seguinte, leva aqui conosco que é da boa, a gente faz um precinho camarada...
por Renato Amado * 1:44 AM
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[Sexta-feira, Junho 18, 2004]
Premiação
Este humilde blogueiro que sonha em tornar-se escritor profissional deu um importante passo nesta direção. Acaba de sair o resultado do XIII Concurso Internacional de Outono, categoria contos, no qual Renato Amado obteve a 9a colocação. Isto o habilita a ter seu conto inserido na coletânea que será publicada no final deste ano. Abaixo, o conto premiado, que já foi aqui publicado há algum tempo. Forte abraço.
O Flaneur
Sentado na praça o flaneur tudo observava. O casal que brigava, o casal que se amava, a velha que dava comida para os pombos, o trombadinha que levava a carteira de um coroa distraído... sentia-se como algo a parte, um observador que não fazia parte do ambiente, alguém de outra dimensão apenas notando e anotando, imune aos infortúnios e olhares estranhos. Mas enganava-se.
Do alto de um prédio uma moça mirava aquela pessoa quase imóvel. Observava o observador com curioso interesse. O que fazia ele? Durante horas e horas sentado no mesmo banco, na mesma posição, com o mesmo caderninho e mesma caneta, escrevendo incessantemente. Sentiu um estranho fascínio. Num impulso resolveu descer. Não sabia o que faria nem se faria alguma coisa em seguida, apenas desceria. Seus impulsos a guiariam passo a passo.
Chegou à portaria e saiu do prédio. Começou a andar pela praça sem rumo. Passou em frente ao homem e notou que ele a reparava . Sentiu algo diferente, não sabia se achava bom ou ruim. Parou no camelô e perguntou por um brinco qualquer, só para passar o tempo, enquanto olhava o flaneur e esperava algum impulso. Ficou observando barracas e mercadorias durante alguns minutos.
Respirou fundo e seguiu em passos calmos na direção do banco em que se encontrava seu ponto de desequilíbrio. Sentou-se ao seu lado, cruzou suas belas pernas e ficou vendo o mundo, mas apenas vendo, não o observava, pois sua atenção estava nos mínimos movimentos e barulhos que aquele homem fazia. Reparou que ele virou a cabeça para o lado, como quem olhasse para ela. Fez isto uma, talvez duas vezes e agora tinha a impressão que fazia pela terceira e mais indiscreta vez. Estaria ele olhando para as suas pernas? Seria aquele ser enigmático um mero tarado que observava as transeuntes? Se fosse, o que fazia com aquela caneta e aquele caderno. Estaria escrevendo contos eróticos?
Começou a trabalhar com esta hipótese. Não percebia, mas sentia-se excitada com aquilo. Pela primeira vez um homem lhe despertou profundo interesse sem que fosse necessário pronunciar qualquer palavra. Discretamente tentava ver o que escrevia. Viu algumas palavras soltas, não parecia haver muito nexo entre elas. O texto devia ser profundo. Viu a palavra "pernas" e logo imaginou tratarem-se das suas. Ficou mais excitada. Começou a aproximar-se dele a proporção de 1 milímetro por minuto. Suas coxas tocaram as dele no momento em que a noite caiu. Agora começava a jogar seu corpo e seu rosto para o lado, em movimentos microscópicos. Foram longos minutos assim. Quando terminou de virar a sua face por completo viu a do seu cúmplice já virada. As bocas se tocaram de forma quase inevitável.
O beijo foi lascivo, esqueceram-se dos que pela praça passavam. Para ele era como se ela tivesse magicamente atravessado a barreira que o separava do resto do mundo. Ela sentia a mesma coisa. Foram horas em somente um prolongado e despudorado beijo. A medida que ia ficando tarde a praça se esvaziava e o calor entre os corpos aumentava. Peças de roupa começaram a ser atiradas em sentidos aleatórios. Transaram, transaram maravilhosamente. Ao terminarem ela ficou estirada no banco durante um longo período, em completo êxtase. Nem se deu conta da partida do seu amante, que levou com ele o seu mistério. Jamais saberia seu nome nem o que escrevia naquele caderno.
por Renato Amado * 2:16 PM
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[Quinta-feira, Junho 17, 2004]
Celebridade
Entrei no clima da novela que nunca vi. Em busca de um mínimo de visibilidade que permita uma empreitada editorial que não seja completamente frustrada, abandono meu nick e grito meu nome aos sete ventos. Chamem-me de Renato Amado doravante e repitam este nome para quem quiserem, a vontade a até abundantemente. Desculpem a autopropaganda, mas infelizmente ela é fundamental. Portanto, ao verem comentário de Renato Amado nos seus blogs, não se esqueçam que se trata do velho Heterogêneo. Agora, passem ao post abaixo que é mais interessante. Até mais.
por Renato Amado * 12:52 PM
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[Terça-feira, Junho 15, 2004]
Modorra
Estava decidido que aquele seria um dia tranqüilo. Levantou-se cedo e aproveitou o fresco ar da primavera para uma caminhada longa e agradável pelo bosque. Retornou apenas ao meio dia, almoçou e disponibilizou as duas primeiras horas da tarde a uma sesta. Terminada esta, abriu a livraria. Preparou um chá de boldo, escolheu um romance de fácil leitura e pôs-se a lê-lo, enquanto sorvia, em pequenos goles, o chá.
Como de costume, o movimento era nulo, até que, ao entardecer, surgiu um homem, com uniforme amarelo, contendo o nome da empresa postal daquele país e entregou-lhe um telegrama, que dizia:
"João, Baloeiro, sem memória. Ajuda."
Fechou o livro que detivera sua atenção durante toda a tarde, preparou uma pequena muda de roupa, colocou-a na mochila, junto com alguns equipamentos de praxe, o romance que lia e Monteiro Lobato, prendeu a ela um saco de dormir e foi para o ponto de ônibus, pois às 18:00 horas passaria a segunda e última condução do dia, com destino à capital do estado.
Enfrentou horas de buraco e desagradáveis sacolejos até seu primeiro destino. Lá chegando, dirigiu-se à ferroviária, onde teve que passar a noite, enrolado em seu saco de dormir, pois o próximo trem para Sundra do Norte só partia no dia seguinte.
Suportou o suave frio da madrugada sem muitos problemas, tomou café da manhã em uma padaria próxima e retornou à ferrovia, onde ficou esperando o trem enquanto lia Lobato.
O trem partiu no fim da manhã, cheio de comerciantes, mais conhecidos como muambeiros, que faziam este trajeto e retornavam toda a semana, a fim de comprarem mercadorias desvalorizadas numa região para vendê-las onde fossem mais valiosas.
A viagem foi longa, como esperado. Ao chegar à estação de trem de Sundra do Norte, desceu e procurou por uma placa indicativa da "Casa do Baloeiro", o que não foi difícil encontrar. Dirigiu-se à localidade, onde leu um informativo que dizia que aquele lugar estava fechado a visitas. Ignorou-o e com sua magra mão de unhas grandes, bateu a porta. Foi recebido por um jovem de ar sonhador, que vestia calça jeans, suspensórios e camiseta branca. Seu cabelo era muito ralo e cortado de forma que dava a impressão de que o barbeiro utilizara uma cuíca.
- O senhor deve ser Marvin, o Cigano. - disse o jovem, com sua voz fina.
- Exato, procuro por João, o Baloeiro. - respondeu o livreiro.
- Pois não, entre por favor. Siga-me, vou levá-lo ao enfermo.
Foi levado à sala, onde Marvin se entretia vendo, na televisão, pessoas levarem estúpidos tombos, tudo sob a narração de um sujeito de pança proeminente, que não terminava uma frase sem falar "ô loco, meu!".
- Meu Deus! - exclamou o cigano - não sabia que a situação tinha chegado a um patamar tão sério. João! - gritou Marvin, sem obter qualquer resposta - Ei, você ai vendo T.V., estou falando contigo!
- Pois não. - respondeu o baloeiro, com uma expressão inexpressiva.
- Não se lembra de mim não, amigo?
- Não, mas é um prazer. Chamo-me...
- João, O Baloeiro. - disse o jovem que abrira a porta ao visitante, com bastante ênfase na segunda palavra.
- Isto, João. Ao que dizem, baloeiro.
- Não se lembra de nada da sua vida?
- Lembro-me sim. Logo antes de você chegar eu estava vendo pessoas caírem na televisão e chamo-me...
- João, o Baloeiro. - disse o rapaz, de forma idêntica à anterior.
- Isto, João. Ao que dizem, baloeiro.
- João, conheço-te há muitos e muitos anos. Tinha uma história que você sempre repetia. Dizia que quando nasceu veio um saci e lhe disse: "vai João, vai ser baloeiro na vida." Lembra-se disto?
- De forma alguma! Mas se dizia, acredite, era mentira, veja só se sacis existem!?! E esta história de ser baloeiro também me parece esquisita. Se fosse para dedicar-me ao vôo, porque não me interessaria por aviões, muito mais rápidos e eficientes?
- Porque um saci te disse para ser baloeiro.
- Hã. - sorriu João, com irônica.
Em seguida, o velho grisalho sentou-se novamente na poltrona e pôs seu braço direito sobre o braço da poltrona, tateando em busca do controle remoto. Não o encontrou, então levantou-se, procurou debaixo da almofada, sob a poltrona, nos seus arredores e nada achou.
- Quem pegou o controle remoto? - indagou irritado.
- Um saci. - respondeu Marvin.
- Não me venha com esta história de saci. Você que escondeu meu controle, não foi, cigano viramundo de meia tigela?
- Êpa, como sabe que sou cigano? - questionou o livreiro, com um largo sorriso no rosto.
- Como? Não sei, você deve ter dito. Além disto, apenas ciganos vestem estes panos coloridos ridículos, pendurados pelo corpo como farrapos.
- Então você se lembra de como se veste um cigano?
- É, talvez.
- Parece que algumas memórias você reteve. Não lembra-se que gostava de balões nem de ter andado num, correto?
- Não.
- Mas recorda-se de como é um balão e o objeto até te parece bem familiar, certo?
- É, acho que sim.
- E se eu te colocasse frente a uma das primeiras coisas que viu e que deve ter sido o fato mais marcante da sua vida, a ponto de determinar todo o caminho seguido dali em diante, acha que as coisas voltariam a clarear?
- Talvez, não sei. Por que me pergunta isso?
- Nada não, continue assistindo sua T.V.
Marvin virou-se de costas e dirigiu-se ao jovem de voz fina que lhe abriu a porta.
- Ele virou um velho resmunguento, hein. Como agüentas isto?
- O que um aprendiz não é capaz de fazer pelo seu mestre?
Marvin calou-se por um breve momento e perguntou:
- Se incomoda se eu passar a noite no teto?
- De forma alguma, mas temos um quarto disponível.
- Obrigado, faço questão de dormir no teto.
- Está bem, vou pegar um colchão, então.
- Não há necessidade, obrigado. Tenho um saco de dormir.
- Se preferes assim... aceita uma sopa?
- Seria bem-vinda.
Foram até a cozinha, onde o aprendiz começou a preparar a sopa. Durante o processo, surgiu uma bela mulher, de meia idade e pele morena, com uma linda menina que não devia ter mais de dez anos e aparência indígena.
- Querida, há quanto tempo! - exclamou o livreiro para a mais velha, enquanto lhe dava um forte abraço.
Voltou-se para a criança e disse:
- E você, menininha, nem deve lembrar-se de mim. - disse, enquanto apertava-lhe a bochecha.
Os quatro conversaram demoradamente. Lembravam-se da paixão de João pelos balões e comentavam a miscigenação que era aquela família. O patriarca João, alvíssimo, casou-se com uma mulher negra, gerando Lucena, sua bela filha de pele morena. Esta, por sua vez, engravidou de um índio, durante uma visita que fez à Amazônia a fim de complementar seus estudos de biologia. A prosa fluía naturalmente, dando ao início da noite um clima agradável e romântico, mas tão logo terminou de escurecer, Marvin despediu-se dos seus companheiros de papo de dirigiu-se ao telhado, após tomar um chá de coca, utilizando uma folha que trazia no bolso.
Ficou ladeando toda extensão do telhado, olhado as adjacências da casa, sem parar para descansar por um minuto sequer, durante mais de três horas, até que sua excelente visão conseguiu ver, ao longe, que a poeira do chão levantava e efetuava movimentos circulares. Prostrou-se deitado na direção do redemoinho de ventou e observou-o se aproximando. Quando estava a poucos metros da casa, o vento tomou a forma de um rapaz com a pele extremamente escura, uma só perna, vestindo um gorro e um short vermelhos, com um cachimbo na boca. Viu-o entrar por uma das janelas da sala. Sacou, então, da mochila, um aríete preso a uma corda, prendeu-o na caixa d¿água e desceu a casa pela sua parede externa, utilizando seu equipamento. Chegando em terra firme, dirigiu-se a uma quina da casa e ficou parado, escondendo-se atrás da fachada, esperando a saída da sua vítima.
Não foi necessário aguardar muito tempo, logo ouviu o folclórico, porém real ser, fechar a janela por onde entrara e agora saía, soltando uma discreta e travessa gargalhada. Em seguida escutou um barulho de vento balançar o vidro da janela. Neste momento, sacou uma peneira de cruzeta e uma garrafa da mochila. Quando a torrente de ar passava ao seu lado, arremessou a peneira sobre ela, que cessou imediatamente. Um capuz surgiu no ar e caiu sobre o chão. Pressionou a peneira contra o chão, levantou uma pequena parte dela, onde inseriu a garrafa, que foi tapada por uma rolha com uma cruz desenhada. Guardou o gorro na mochila, assim como a peneira e manteve a garrafa, aparentemente vazia, nas suas mãos. Retornou ao telhado por dentro da casa, guardou sua corda e seu aríete, estendeu seu saco de dormir e deitou-se abraçado com a garrafa.
No dia seguinte, enquanto João assistia televisão meio sonolento, após o almoço, colocou a garrafa sobre a T.V. e sentou-se no sofá. Pegou o romance que lia em Maricá do Rio Preto, antes de iniciar a viagem, e continuou a leitura. Passado não muito tempo, o baloeiro exclamou:
- Que diabos é isto que estou vendo nesta garrafa!?!
- Um saci. - respondeu Marvin.
- Impossível, ele não estava aí antes!
- Podes crer que estava, mas você só consegue vê-lo dentro da garrafa quando cai na modorra. Ele não te parece familiar?
- Parece sim, usa um bonito gorro vermelho. Ah, eu adoro vermelho...
- Sei disso. Não seria porque ainda bebê ficou impressionado ao ver o gorro de um saci?
- Talvez...
- E este mesmo saci que te causou espantou com a cor vermelha te falou para ser baloeiro na vida e você compreendeu o que ele disse, mesmo que ainda não soubesse falar.
- É verdade... e ainda criança comecei a brincar de montar pára-quedas. Aos sete anos fiz meu primeiro balão de festa junina e aos onze fiz o primeiro balão de verdade, daqueles com cestinha, que se pode voar dentro. Fui me apaixonando cada vez mais pelo assunto, comecei a ler sobre isto e quando tinha trinta e três anos fui considerado pela Organização Internacional dos Baloeiros o maior baloeiro do mundo. Decidi então fazer uma viagem...ah! Deixa isto pra lá, conversamos no caminho, pois agora te darei uma carona aérea do volta a Maricá do Rio Preto. Siga-me, velho amigo, e embarque comigo num balão vermelho.
Seguiu decidido em direção ao quintal, onde ficavam seus balões, mas no caminho abriu a rolha da garrafa, de onde pulou um assustado saci. Marvin jogou-lhe seu gorro e João, com certo esforço, segurou a televisão, entregou-a ao pretinho perneta e disse: "tome, esconda onde quiser." E seguiram em direção às nuvens.

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por Renato Amado * 11:10 PM
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[Quinta-feira, Junho 10, 2004]
Só Pode Haver Um(a) - Segunda e última parte
Iniciou-se, então, uma divulgação nacional do fenômeno pára-normal ocorrido em Nova Córdoba do Rio Preto e em pouco tempo as notícias ganharam o mundo. A cidade começou a enriquecer, foram abertas pousadas e hotéis. Os moradores cobravam vinte dinheiros pelo aluguel de uma simples bóia para um passeio pelo rio. Aproveitando aquela onda turística, decidiram transformar a história da cidade e o próprio Affonsín em atrações. Algumas mulheres, principalmente européias, pagavam caro para descobrir o que o portenho tinha de tão especial. Uma destas mulheres chegou com um grande e elegante óculos escuros,além de um enorme chapéu rosa choque e um cachecol, de forma que o rosto ficava quase totalmente coberto. Mas em meio à ardência noturna seu rosto se revelou.
- No és la embaixadora da França? - questionou Affonsín.
- Esqueça isto e me curre dos males que me atorrmentam. - respondeu a nobre Sra. Caroline de la Campagne.
Nova Córdoba do Rio Preto prosperou durante algum tempo, até que uma onda de estupros começou a assustar os turistas. Havia diversidade de sexo tanto entre os estupradores como entre as vítimas. As suspeitas caíram imediatamente sobre os filhos e filhas de Affonsín, afinal desde criança viveram numa cidade onde todas as pessoas faziam parte da mesma família. Os rapazes não podiam ter relações com ninguém, pois as meninas da mesma geração eram todas suas irmãs e as da geração superior eram todas mulheres de Affonsín. O caso das meninas era ainda mais sério, pois tinham parentesco direto com todos os homens da cidade, uma vez que estes se resumiam aos seus irmãos e ao pai em comum, Affonsín. Aliás, havia um fato curioso sobre Nova Córdoba do Rio Preto. Os irmãos vinham em gerações de nove em nove meses. Como Affonsín conheceu todas as mulheres juntas, todas elas engravidaram mais ou menos na mesma época, como conseqüência, nove meses mais tarde, nasceram centenas de bebês. Após os nascimentos, as mulheres novamente engravidaram e com isto estabeleceu-se um ciclo. Mas este fato que durante muito tempo foi apenas uma curiosidade, passou a ser alvo de preocupação depois que a bolsa d'água de uma parteira estorou enquanto tirava um bebê do útero de uma mulher. Como todas as outras parteiras também estavam ocupadas, dois bebês vieram ao mundo sem qualquer auxílio, mas por sorte, nada aconteceu nem às crianças, nem às suas mães.
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Tanto a delegada, como a promotora e a juíza entenderam que era extremamente compreensível a situação dos jovens daquela cidade. Preferiram, portanto, não se aprofundarem nas investigações, a fim de evitar prisões injustas, e se concentraram em imaginar uma solução para aquela meninada que explodia em enormes convulsões hormonais.
Decidiram, então, entrar em contato com as mulheres de São Sebastião, cidade que nesta época era mais conhecida como Só Sebastiana.Como lá mãe e filhas tinham que dividir o mesmo homem e, a exceção do prefeito, que era o próprio Affonsín, as autoridades de Nova córdoba do Rio Preto eram todas mulheres, não seria difícil convencê-las a ir para esta cidade, onde, devido ao enorme desequilíbrio entre oferta e demanda, poderiam escolher confortavelmente seus pares. Este último argumento também foi utilizado para atrair homens de Maricá do Rio Preto. Mas ao fim do processo, ainda havia algumas moças e rapazes solteiros e os que migrassem não mais poderiam escolher seus companheiros, até porque os solteiros restantes não eram mais belos que um elefante com úlcera. O argumento, então, seria a possibilidade emprego, uma vez que com o fim dos estupros, os turistas voltaram.
O maldito argentino levou, há quase duas décadas, todas as mulheres de São Sebastião.Os moradores desta cidade, então, após anos se satisfazendo com cabritas, conseguiram atrair mulheres de Maricá do Rio Preto, que agora eram levadas, em grande quantidade, pela cidade fundada pelo portenho. Aquele tanguista de meia tijela estava extrapolando qualquer limite.
São Sebastião organizou um grupo, formado por cinco homens astutos, que partiram a cavalo para Nova Córdoba do Rio Preto. Cada cavalo arrastava um papelão, para que não se deixasse rastro . Ao chegarem próximo à cidade, amarraram os cavalos e seguiram a pé, a fim de fazer menos barulho. Como a casa de Affonsín era atração turística, não foi difícil achá-la, em meio a madrugada. Entraram por uma janela destrancada e procuraram pelo prefeito. Surpreenderam-no na cama, dormindo nu com duas mulheres, também desnudas. Um dos invasores sacou um revólver e acordou as vítimas, mandando-as ficarem caladas. Ao ver o rosto de uma das damas mais demoradamente, percebeu que esta fora sua esposa. Carregaram os três até o lado de fora da cidade. Colocaram cada um em um cavalo e partiram de volta à cidade de onde vieram. Ao chegarem, amarraram cada um dos três em um tronco de árvore. No dia seguinte, pela manhã, foram soltos dos troncos e ganharam enormes bolas de metal presas aos pés, para que não fugissem. As mulheres passaram a ser escravas de seus ex-maridos e Affonsín começou a responder a um sistema de rodízio, no qual a cada dia era escravo de uma família.
O desaparecimento do fundador, prefeito, patriarca e galã da cidade causou comoção em Nova Córdoba do Rio Preto. As autoridades apressaram-se em procurá-lo, mas apenas após três anos, nove meses e cinco dias conseguiram localizá-lo. Ele foi levado de volta completamente desgastado, acabado e sem forças, sem condições de dar conta sequer da metade de suas mulheres. Com isto, a falta de homens voltou a ser um problema.
Desta vez, Affonsín, de tão esgotado física e mentalmente, não se candidatou a prefeito e pela primeira vez a cidade teve mais de um candidato, o que gerou uma conseqüência nefasta: campanha eleitoral. Duas mulheres se candidataram, cada uma representando uma geração. Pela geração mais velha, constituída pelas mulheres de Affonsín, se candidatou Maria de Lurdes, a primeira a ceder aos encantos daquele belo argentino, que há vinte anos chegara a São Sebastião fugido, a fim de não ser convocado para lutar nas Malvinas. Pela geração mais nova, formada pelas filhas do portenho, candidatou-se Maria Rita.
A campanha girou em torno da solução para a discrepância do número de mulheres e homens entre os mais velhos. Enquanto havia centenas de mulheres, o único homem de mais idade era Affonsín, que não era mais capaz de garantir a satisfação de todas. A proposta de Maria de Lurdes era que as filhas compartilhassem seus homens com suas mães. Já Maria Rita entendia que devia haver uma campanha para atrair migrantes de mais idade, de forma que as filhas não seriam obrigadas a dividir seus maridos com ninguém.
Aquela alegava que já haviam trazido muitos migrantes e caso persistissem na utilização deste recurso sempre que houvesse um desequilíbrio, acabariam gerando desemprego. Esta dizia que a cidade era muito próspera, que o turismo não parava de crescer e que a poligamia era crime, previsto no Código Penal.
Maria de Lurdes afirmava que não haveria crime, pois não seria celebrado casamento entre as mães e os maridos das filhas, mas haveria apenas uma união de fato, com o mero fito de satisfação sexual. Maria Rita dizia que isto era adultério, também crime previsto no Código Penal. Mas a Maria coroa retrucava dizendo que se a prática fosse aceita pela população não haveria crime, pois segundo os juristas mais modernos, não existe crime de adultério quando a "vítima" consente.
A Maria jovem dizia que se era pecado cobiçar a mulher do próximo, então cobiçar o homem da próxima também o era. A outra Maria dizia que só há que se falar em cobiça quando não há consentimento, portanto, se as filhas não fossem intransigentes e compartilhassem seus homens sem maiores reclamações, haveria repartição, uma ajuda à próxima, logo, um ato nobre e que pecado era não fazê-lo.
Foram meses de disputa, a cidade encheu-se de cartazes. As correligionárias de Maria de Lurdes colocaram um telão no centro da cidade. Foi a primeira vez que aquele povo viu uma imagem projetada. Tentando não ficar em desvantagem, as partidárias de Maria Rita queimaram suas economias para comprar televisões para os indecisos, onde era transmitido o horário eleitoral, algo que só ela tinha, pois conseguiu um empréstimo com um banco, para comprar uma câmera.
As eleições giravam basicamente em torno dos homens, pois as mulheres mais velhas fechavam, invariavelmente, com Maria de Lurdes e Maria Rita tinha o voto das mais novas garantido. Quem decidiria, então, seriam os maridos. Mas nenhuma das candidatas se deu conta de que todo aquele esforço era inútil, pois na hora de depositar a cédula, o que os homens levariam em conta eram os atributos de suas sogras.
Por uma pequena diferença, ganhou Maria de Lurdes.
As mais novas, inconformadas, traçam uma estratégia para mudar aquele quadro. Durante quatro anos tratam suas mães como rainhas, dando-lhes muitos doces, feijoada, lombinho de porco e outras maravilhas. Deixam-nas apenas em repouso, numa vida feliz limitada a sexo e comilança, de forma que ao chegarem as eleições seguintes, ter-se-iam se transformado em enormes jamantas, completamente indesejadas pelos homens da cidade, que podiam desfrutar dos corpos jovens e esbeltos das suas mulheres.
Assim, chegado novo período eleitoral, todo o ritual se repete, mas os homens votam, em massa, em Maria Rita, que no dia da posse viaja pelos povoados próximos em busca de novos moradores acima dos cinqüenta anos. Não é difícil achar quem queira morar em tão próspera cidade, de forma que, pela primeira vez em sua história, Nova Córdoba do Rio Preto é formada por famílias, nos moldes tradicionais.

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por Renato Amado * 3:20 PM
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[Terça-feira, Junho 08, 2004]
Aos novos e interessados leitores
Com a minha presença no Blogs of Note, tenho certeza que surgirão muitas pessoas por aqui com o mero fito de divulgar seus blogs. Mas não reclamo pela indicação de forma alguma, muito pelo contrário, pois se surgir uma minoria interessada, que realmente queira ler meus contos e que tenha bons blogs, já vai ter valido muito a pena. E é justamente a estes leitores que dedico este post.
Há algum tempo este blog vem se dedicando a contos e mais recentemente há uma linearidade entre eles. Desta forma, aos que pretendem compreender bem os as últimas histórias, recomendo a leitura dos contos na seguinte ordem: "Amor", "Os anais não Mentem", "Xigostora", "1,2,3,4,5,5,5,5..." e por fim o último publicado. Nenhum deles foi publicado antes do mês de maio, de forma que nenhum está no arquivo e basta descer a barra de rolagem para encontrá-los. Sejam bem-vindos e boa leitura.
por Renato Amado * 7:07 PM
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Só Pode Haver Um(a) - Parte I
Inexplicavelmente o sistema de irrigação parou de funcionar. Técnicos foram chamados, tudo checado, mas não se encontrou nenhum defeito no encanamento. Seguiram os canos, então, até o rio, onde verificaram que não corria sequer um pingo d¿água pelo leito. Um grupo de moradores, seguiu em direção à fonte. Lá chegando, verificaram que a água jorrava normalmente, mas logo em seguida evaporava de uma forma quase mística. O volume da evaporação era tamanho que região ficava com uma umidade incrível e uma névoa que tornava difícil de se ver. Imaginaram que o rio devia estar muito sensível ao sol, então montaram uma tenda sobre a região onde o líqüido virava vapor, mas frustaram-se. Enquanto isto, as plantações iam morrendo e o gado passando fome. Taparam o leito, para ver se a fumaça concentrada retornava ao estado líqüido, mas também não se obteve êxito.
Desesperado e completamente transtornado, Severino entrou no leito e começou a esbravejar, reclamando com o rio, xingando-o e pulando, batendo com os dois pés com força sobre o fundo. Foi quando o vapor se concentrou entorno dele e começou a levitá-lo. Subiu muito, até onde a vista já não alcançava e foi depositado sobre uma nuvem. O vapor, então, formou uma frase no céu: "quero ser rei". Em seguida, retornou à forma abstrata e levou Severino de volta ao chão, em segurança.
Ao vê-lo de volta, os que lá estavam assumiram diversas colorações, proferiram diferentes expressões e passaram mal de todos os modos. Apenas Sidney pareceu mais calmo. Perguntou, então, sobre o ocorrido e Severino narrou-lhe a rápida aventura. Ninguém ali sabia o que o rio queria dizer, decidiram, portanto, ir a Maricá do Rio Preto, procurar Marvin, o Livreiro, profundo conhecedor de fenômenos inexplicáveis.
Ao chegarem à livraria, expuseram o caso ao velho cigano, que os ouviu atentamente. Em seguida, pegou o mesmo volume que entregara a Giovane Crespin anos antes, abriu no índice e procurou pela palavra "rios", que remetia à página 22. Foi à referida página e abriu o livro sobre a mesa, para que todos pudessem ler. Esperou calmamente durante um quarto de hora, quando o último terminou a leitura, que jamais saíra da página 22, pois a medida que se lia, novas palavras iam surgindo, assim, era possível que cada página falasse sobre um tema e o livro abordasse muito mais que o cabido em 1.000 páginas. Em seguida, disse:
- Compreenderam, agora?
- Acho que sim. - respondeu Severino - Mas como poderemos bater seu rival?
- Você foi o escolhido para a missão, meu caro. Cabe a ti encontrar a solução. Este velho livreiro não passa de um auxiliador. A bem da verdade, quer minha resposta sincera? Não faço a menor idéia.
Severino concentrou-se durante dias e dias, até achar uma solução. Procurou, então o prefeito de sua cidade, acompanhado das testemunhas de sua levitação, para que o alcaide acreditasse em suas palavras.
- O senhor, como um homem influente, deve conseguir que seja instalada uma indústria de mercúrio no rio do sul. - falou Severino.
- Farei o possível. Te respondo em breve.
Em apenas uma semana, o governante local procurou Severino.
- Falei com um empresário amigo, ofereci condições favoráveis, fiz acordos com o governador para que concedesse fortes subsídios e consegui um ok. Em breve começarão as obras.
E de fato começaram. Em um ano a indústria estava pronta, inutilizando as águas do rio do sul. Mas, apesar das condições favoráveis, o empreendimento não deu certo. A empresa era vítima de constantes sabotagens, provavelmente cometidas pelas moradoras de Nova Córdoba do Rio Preto, primeira cidade a ser banhada por aquele rio, ou até pelos habitantes de São Sebastião, cidade mais a oeste, mas também dependente daquelas águas.
Com o fracasso da empreitada, o rio do norte voltou a negar suas águas. A cidade se desesperou novamente e Severino passou um mês trancado em casa tentando imaginar uma solução. Não conseguiu pensar em nada muito eficaz, então decidiu que os dois deviam duelar, para que fosse decidido de uma vez por todas, quem seria o único Rio Preto.
Cavaram, então, um pouco ao leste de Nova Córdoba do Rio Preto, um desvio, a fim de que aquelas águas se encontrassem com as do rio do norte. A obra durou algumas semanas e foi feita na maior discrição possível, mas ninguém podia imaginar as conseqüências daquele encontro de inimigos históricos.
Assim que a primeira molécula do rio do sul encontrou-se com o primeiro resquício de água do rio do norte, uma gigantesca onda se formou, deformando completamente os leitos, que agora tinham dez vezes o tamanho inicial. Ninguém acreditava nos seus próprios olhos ao ver dois rios de água tão mansa causarem tamanho reboliço no que seria apenas a junção de um afluente ao rio principal.
Não tardou em que surgissem surfistas, oriundos de grandes centros. Os corajosos rapazes chocavam os locais ao entrarem naquele inferno líqüido e causavam admiração ao conseguirem se equilibrar nas suas pranchas enquanto desciam ondas, arrancando aplausos dos que assistiam. Ver os corajosos homens aquáticos, como ficaram apelidados, tornou-se a grande diversão da população de São Tomé. Cada vez chegavam mais surfistas e no verão o "pico" chegou até a ficar "craudeado".
Certo dia, um rapaz conseguiu pegar a onda dos sonhos de todo surfista. A onda partiu do rio do norte, avançando pelo leito escavado do rio do sul, até chegar ao leito original deste rio. Lá chegando, se desfez pela metade e começou a subir o leito pelo lado norte, ao som de murmúrios de "brou, que viagem...", pelo surfista. Foi até a nascente, onde deu meia volta e começou a descer pelo lado sul do leito, seguindo até o mar.
Após este impressionante fato, a corrente do agora único Rio Negro passou a seguir um caminho de causar espécie a qualquer estudioso de fenômenos naturais. O rio nascia normalmente, no extremo oeste do extremo norte do Vale do Rio Preto, seguia até o ponto onde fora o encontro dos dois rios. Lá, uma parte das águas seguia normalmente pelo antigo caminho do rio do norte e outra invadia a parte escavada, indo no sentido contrário ao esperado. Chegando ao velho leito do rio do sul, ocupava-o pela metade, para subir em direção à antiga nascente do rio que originalmente ali estivera e lá chegando, a mesma água fazia uma curva, descendo pelo outro canto do leito. Toda esta água vinha da velha fonte do rio do norte, que agora jorrava como jamais o fizera.
Dois irmãos de Nova Córdoba do Rio Preto subiam o rio enquanto conversavam, até que chegaram ao ponto do desvio construído pelos moradores da cidade vizinha e do qual até então não se tinha conhecimento. Mas isto não os espantou tanto quanto ver que a água que deveria ir do leito principal para o desvio, fazia justamente o contrário e que chegando ao leito principal, a correnteza seguia direções opostas em cada canto. Foram correndo de volta para casa contar o fato ao pai. Affonsín, então, que há mais de dez anos não fazia nada além de dormir, comer e satisfazer sexualmente um batalhão de mulheres, sempre estirado em uma rede branca, se animou com a notícia e viu naquilo uma possibilidade de ganhar dinheiro. Construiria uma pequena casa junto ao entroncamento do rio, onde haveria um restaurante, uma lanchonete e bóias para alugar a turistas. Também seriam construídos hotéis e pousadas. Estava decidido a transformar Nova Córdoba do Rio Preto em atração nacional, mas para isto, precisava divulgar o fenômeno. Entrou, então, em contato com o governador e narrou-lhe o ocorrido:
- Mas veja bem, meu querido, - disse o governador - eu nunca ouvi falar nesta cidade.
- Es que yo nunca comuniquei a nadie sobre su fundación, há dezesseis años. - respondeu o tanguista, numa rudimentar mistura de espanhol com a língua local
- Então, teremos quer fazer eleições para escolha de prefeito e vereadores, nomear um juiz, um promotor, um delegado, alguns policiais, fiscais das receitas federal, estadual e municipal, e abrir uma casa lotérica.
- Mas yo sempre governei la ciudad e todos siempre estiveram felizes com esto! No hay porque mudar, yo soy el Executivo, Judiciário e Legislativo. Se quisesses mandar un médico, nos seria muy mas útil.
- Infelizmente isto não pode haver dentro do território nacional. Somos um Estado Democrático de Direito e despotismo não é cabível aqui. Você terá que aceitar a presença do Estado, seja pela diplomacia ou pela espada. Quanto ao médico, o estado não dispõe de recursos para gastar com profissionais menos relevantes.
- Ok, ok, aceito que usted faça esto con mi ciudad, mas desde que todas las autoridades seam mujeres.
- Och, mas por quê?
- És que no tenemos mujeres para los hombres que pueden ir para lá. Todas las mujeres da ciudad son fiéis a mi.
- Então não se trata de uma cidade, mas de um harém.
- Un poco mas de respecto, por favor, trata-se de una ciudad, formada por apenas una linda e maravilhosa família.
- Está bom, então, Don Juan, as autoridades serão mulheres. Mas não posso evitar que levem suas famílias.
- Desde que não sejam famílias muy grandes, para mi, está bien. Mas en troca, usted divulga mi ciudad, para que se torne una región turística.
- Sim, mas antes preciso verificar se o que me contas é verdade.
No dia seguinte o governador partiu com Affonsín e pode verificar a veracidade dos fatos.
To be continued.

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por Renato Amado * 3:43 PM
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[Domingo, Junho 06, 2004]
De médico e louco...
Dizem que de médico e louco todo mundo tem um pouco, mas alguns são loucos ao extremo. É o caso dos administradores do site confraria das idéias, que decidiram publicar um conto deste humilde autor, numa tentativa desesperada de afundar o site. Tudo bem que eles publicaram a versão mais chinfrim, depois enviei uma mais melhorada, sem erros de português, mais descritiva, etc., mas tudo bem, afinal, ao publicar um conto meu a intenção só podia ser afundar o site, então era bom que publicasse a pior versão mesmo. Enfim, deixo aqui o agradecimento ao espaço aberto, afinal, não tenho a menor dúvida que aquele site tem muito mais visibilidade que este blog, o que é ótimo para quem tem pretenções mercenárias. Quem quiser conferir, basta pegar o link aqui deixado, logo na primeira página há um link para o conto "Amor", estreia de Renato Barreto, no site. Não se espantem com o Renato Barreto, é que eu resolvi criar este pseudônimo, sabem, sei lá, acho que pega bem para um contista ter um pseudônimo, então, decidi não me apresentar pelo meu nome de verdade, que, como vocês bem sabem, é Heterogêneo. Enfim, deixa esse papo pra lá. Agora me empolguei em escrever, há vários meses não rolava um post do tipo "falar merda aleatória" e agora este está descambando nesta direção. Não, não estou mudando o rumo do site. Pra falar a verdade já estou acabando o próximo conto, que continua a saga do Vale do Rio Preto, mas ele tá grande a vera, na verdade o maior de todos. Por piedade de aos meus leitores acho que vou até publica-lo em duas partes, afinal, vocês têm coisa mais útil a fazer com seu tempo que ficar lendo isto daqui por mais de quinze minutos. Agora, aviso logo que quem não tiver lido os contos anteriores da saga não vai entender o próximo muito bem. Ele faz referência a alguns personagens e fatos anteriores, sem prévias explicações. Bom, agora chega, tá na hora de começar a reunir a galera pra ir pro babar beber, utilizando o jogo do Brasil como desculpa. Desculpem por demorar tanto por um novo conto, mas o negócio tá realmente grande. Mas em breve o concluirei. Abraço.
por Renato Amado * 7:04 PM
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[Quinta-feira, Junho 03, 2004]
Links
Ok pessoal, demorou mais foi. Meus amigos blogueiros estão devidamente lincados, além da confraria das idéias e do clik fome que peço que vocês sempre visitem quando passarem por aqui. Espero que não tenha esquecido de ninguém. Em breve o próximo conto. Já tenho a idéia, só preciso de tempo para escrevê-lo. Com sorte sai ainda hoje.
por Renato Amado * 2:20 PM
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