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[Segunda-feira, Agosto 23, 2004]
Sorte de peixe
Um flash, doisfour, três full hand, dois street flash e um royal street flash, sem falar nas inúmeras seqüências. Tudo isto em apenas duas horas de jogo. E já não é a primeira vez que ele faz isto. "Sorte de peixe", ele diz. Sorte nada, certamente aquele maldito mergulhador rouba, não sei como, mas rouba. Semana passada o desgraçado me levou 300 dinheiros e nesta semana já perdi 100. Tudo indo para o bolso de um ladrão profissional. Já o observei incansavelmente, mas não consigo ver nada, o desgraçado tem um talento incrível para a roubalheira. Preciso dar um basta nisto.
- Quanto custa?
- Três mil.
- Três mil!?!
- Não sujo minhas mãos por pouco, parceiro.
Considerando que ele perdia cerca de 300 dinheiros por semana, em pouco mais de dois meses haveria um retorno do capital investido.
Sérgio seguiu Otávio da porta do cabaré até as redondezas da casa deste, onde as ruas são mais desertas. Apertou o gatilho, mas a arma engasgou. Pressionou-o novamente, mirando as costas da sua presa, mas a bala se dirigiu em direção à sua cabeça e no momento em que se encontrava a poucos metros do seu crânio, Otávio abaixou a cabeça, tapando a boca com a mão direita, enquanto espirrava. A bala explodiu na fachada de uma casa, em frente a Otávio, que olhou para trás e viu Sérgio com a arma na mão. Dobrou, então, uma esquina, com o matador correndo atrás, mas quando este fazia a curva, tropeçou, permitindo que o seu alvo sumisse de vista de uma vez por todas.
Constrangido, Sérgio narrou o ocorrido ao seu contratante, que ficou muito irritado, mas conteve-se, afinal, não era nada aconselhável brigar com um matador.
Triste e desolado, Marcos foi para a beira do rio, onde ficou tentando esvaziar a mente, o quê não conseguiu, pois com freqüência se via perguntando o que faria para continuar vivendo. Há anos ganhava a vida do pôquer, mas desde a chegada daquele forasteiro, só perdia dinheiro.
Suas lamentações mentais foram cortadas por uma imagem lúdica. Um boto irrompeu para fora d'água, imponente e veloz como um míssil, furando magistralmente o reflexo da lua cheia sobre as águas . O focinho e o resto do rosto do animal passaram a refletir o satélite. O mamífero subiu um metro que pareceu um salto de proporções incríveis e em seguida chapou seu enorme corpo sobre a água, causando uma pequena maremoto ao seu redor. Em seguida, repetiu o feito duas vezes, deixando Marcos embasbacado. Durante um dos saltos do animal, o jogador reparou que faltava-lhe um pedaço da nadadeira. Havia um corte diagonal preciso, quase cirúrgico.Lembrou-se, então, das palavras do seu rival mergulhador. "Sorte de peixe". Sim, era isto, só podia ser. Mas como conseguir aquilo para si? Precisaria pegar seu oponente no momento em que ele estivesse mais distraído e relaxado.
Eram três as moças do cabaré da Madame Bardeau com as quais Otávio costumava deitar-se. Marcos procurou a mais inescrupulosa delas e fez-lhe uma proposta.
- Te pago trinta. Tudo que você precisa fazer é pegar um pedaço de cauda de boto na roupa dele.
- Da nadadeira, você quer dizer.
- É, isso. Da nadadeira.
- Mas para quê você quer isto?
- Não interessa, coisa de jogador. Vai lá e pega.
- Ah, não estou acreditando. Você acha que a sorte dele é por causa deste negócio?
- Já falei, não interessa. Assim que ele chegar, você gruda nele, para ter certeza que ele vai dormir contigo. Depois, o resto é por sua conta, se vira. Amanhã você me entrega o que estou te pedindo.
Natasha executou a ordem conforme lhe foi ordenado. Ficou junto ao balcão, atenta à chegada de Otávio, sem dar atenção a mais nenhum cliente. Quando ele chegou, praticamente correu em sua direção e abraçou-lhe o pescoço com as duas mãos, correndo com seu corpo junto ao dele, até que ficasse completamente atrás, quando deu-lhe uma mordiscada na orelha e disse estar com saudade.
Sentaram-se juntos em uma mesa. Otávio pediu uma caipirinha para cada. Conversaram um pouco, acariciaram-se e seguiram em direção a um quarto, no andar de cima. Natasha tirou a calça da sua vítima e quando foi colocá-la em um canto, apalpou os bolsos, tendo sentido algo diferente de uma carteira em um deles. Enquanto colocava a calça no chão, já abaixo da linha da cama, onde o Otávio não podia nem estava interessado em ver, colocou a mão no bolso e pegou o tal objeto. Era o que procurava. Jogou-o para debaixo da cama e entregou-se a Otávio.
Terminada a hora a que tinha direito, Otávio foi para casa dormir, enquanto Natasha retornava ao salão do Cabaré, em busca de novos clientes, com o fruto do furto guardado em seus volumosos cabelos. Com os fios de baixo, deu um nó em torno do objeto, enquanto as madeixas externas o encobriam. Por sorte, nenhum cliente colocou as mãos em seus cabelos naquela noite, como faziam invariavelmente. Aliás, por sorte também, todos os homens que chegavam se interessavam por ela, o que fez com que ela ganhasse uma quantidade de dinheiro fora do normal até o fim do expediente. Até um belíssimo rapaz que ela sempre via pela cidade, mas que nunca aparecera no cabaré, para a sua infelicidade, pois seria capaz de amá-lo até de graça, surgiu naquela noite e se interessou imediatamente por ela.
Natasha ficou impressionada com os efeitos do pedaço de nadadeira do boto. No dia seguinte, aprontou cedo a sua mala e foi embora sem falar nada com ninguém, levando o objeto roubado.
Apenas um dia depois, após duas horas de pôquer , quando Otávio teve como melhor jogada um full hand, é que este se deu conta da falta do objeto. Desesperou-se, pois apenas a primeira lasca tirada da nadadeira do boto era capaz de dar sorte e aquele, há séculos, era o único boto que por ali vivia.
Marcos ficou incomodado por não ter aquele fetiche para si, mas ficou parcialmente satisfeito, pois ao menos agora teria condições de ganhar algum dinheiro no pôquer. Aos poucos, sua antipatia por Otávio foi passando e eles se tornaram bons amigos.
Numa das inúmeras vezes que seguiram da mesa de jogos direto para o cabaré, repararam que todas as profissionais daquele local trajavam lingerie. Isto era um fato novo, pois normalmente elas vestiam trajes diversificados. Algumas usavam roupas mais comportadas, outras vestiam pequenos shortinhos de licra, enquanto algumas usavam sinta-liga e sutiãs extremamente decotados, às vezes transparentes, que chegavam a ser vulgares. Entretanto, desta vez, todas vestiam uma comportada e elegante lingerie. Eram calcinhas e sutiãs brancos, feito de bom material e de uma elegante sensualidade. Aquelas prostitutas baratas transformaram-se em verdadeiras damas de requinte. Contudo, havia mais uma coisa que chamava a atenção na lingerie: em todas elas havia, na calcinha, um discreto desenho de um animal curvado, ao que parecia, um golfinho.
- Por que elas estão vestidas assim? - indagou Otávio ao barman, com Marcos ao seu lado.
- Se lembra daquela quenga que trabalhava aqui e foi embora de repente, a Natasha?
- Lembro, claro.
- Então, ela foi morar na maior cidade do país, onde abriu uma fábrica de lingerie. Começou a ganhar dinheiro, abriu umas lojas também e agora está até exportando. Parece que um sutiã dela em Paris está custando mais de cem euros. Ela fez um descontão para a Madame Bardeua, que decidiu, então, que todas as meninas deviam usar esta lingerie. Estão lindas, não estão?
- Certamente. - respondeu com voz desanimada, lânguida e frustrada, Otávio, enquanto Marcos esmagava raivosamente o limão da sua caipirinha, de cabeça baixa, tentando esconder a lágrima que descia furtiva pelo seu rosto.
por Renato Amado * 10:59 PM
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[Terça-feira, Agosto 17, 2004]
Eu e Pessoa
Estávamos eu e Pessoa a sós em momento de séria intimidade. Bem, na verdade não estávamos realmente a sós, pois tínhamos a companhia da latrina e do adubo que dentro dela eu depositava.
Permaneci ainda por um período com ele, mesmo tendo concluído a missão principal que me levara àquela cabina. Contudo, não poderia demorar-me muito, pois tinha trabalho a fazer, de modo que meus momentos de intimidade com o português, infelizmente não foram tão longos. Tive que ir embora.
Ao levantar-me, segui o rito padrão de limpeza pessoal e envio do adubo à Baía de Guanabara. Contudo, quando fui colocar Pessoa dentro do largo bolso do meu casaco, o escritor me escapuliu e seguiu, com sua poesia, em linha reta até o boxe ao lado, passando por debaixo da parede divisória, que nunca vai até o chão. Fiquei muito agradecido por não haver ninguém ao lado, de forma que eu poderia agachar-me e esticar a mão, recuperando o lusitano de volta para mim. Contudo, quando comecei a abaixar-me, subitamente o boxe ao lado foi ocupado. Zip, ahhhh...splash, foi o que ouvi. Em seguida, barulho de folhas virando. Não! O maldito roubou Pessoa de mim. Ah, as coisas não poderiam ficar assim baratas. Mas como trazê-lo de volta? Bom, é conversando que as pessoas se entendem.
- Amigo. Ei amigo, você na cabina ao lado!
- Eu? Que foi?
- É... se não se incomoda, gostaria de ter Pessoa de volta para mim.
- Hã? Você quer que eu te aconselhe agora, enquanto cago, como você deve recuperar uma pessoa?
- Não, na verdade não quero conselho, quero que você me traga ela de volta.
- Eu!?! Amigo, não me leve a mal não, mas eu gostaria de cagar em paz, agora. Talvez seja o caso de você procurar uma mãe de santo que traga a pessoa amada em três dias.
- Pois é, mas eu não queria Pessoa só daqui a três dias, queria-o de volta agora.
- Queria-o? É homem?!?
- Mas é claro! Não sabia?
- E como é que eu saberia?
- Pelo nome. Fernando.
- Mas em momento algum você disse o nome.
- Ah, vai dizer que você não conhecia o primeiro nome dele?
- Mas homem de Deus, eu sequer sei quem é ele. Pera aí, você tá falando de um Fernando que é poeta?
- O próprio.
- Então você e ele...
- Sim, estávamos aqui juntos.
- Aqui!!
- Uai, qual o problema? Vai dizer que você nunca levou nada pra se entreter no banheiro...
- Sem dúvida que já, mas não este tipo de entretenimento, principalmente num local de trabalho.
- Bom, mas este é o tipo de passatempo de banheiro mais comum.
- Sinto muito, mas eu acho que você deve ser de algum outro planeta e aportou aqui por engano.
- Olha, só aqui desse andar, conheço umas cinco pessoas que gostam deste tipo de entretenimento no banheiro. Posso até citar nomes.
- Não creio que seja verdade.
- Pois lhe digo que é. Olha, a Ana gosta, o Carlos, o André, a Marcela...
- A Marcela! Quem diria...
- E ainda tem mais gente.
- Uma moça tão bem casada...
- Ah, pois sim. Aliás, o marido dela também é adepto desta prática.
- O marido também!?! E como você sabe.
- Ela comentou comigo.
- Ele faz isto na empresa em que ele trabalha?
- Ah sim, todos os dias, sem falta.
- Deus meu! Nossa, eles devem ter a mente muito aberta, mesmo, jamais imaginaria. A Marcela...
- Pois é, ela tem a mente bem aberta mesmo. Uma vez até emprestei Pessoa pra ela.
- Emprestou uma pessoa!?! Santo Cristo, onde eu vim trabalhar!?!
- Bom, agora se você não se incomoda, gostaria que me devolvesse o livro.
- Que livro.?
- Este que você achou no chão e acabou de pegar para ler.
- Ah, é seu?
- Por óbvio, por isto que o quero de volta.
- Ah, então tá. Vou empurra-lo pelo chão para que ele corra até aí.
- Obrigado, até mais.
Sujeito esquisito. Nunca vi não ler no banheiro.
por Renato Amado * 4:40 PM
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[Segunda-feira, Agosto 16, 2004]
A mente como limite - parte III
Ao chegar, foi direto à residência oficial do prefeito, disposto a fazer uso de todas as habilidades metafísicas que fossem necessárias. Esmurrou a porta. Hugo espiou pela janela do segundo andar. Ao ver o cigano, bradou:
- Queimei o livro, para que ninguém mais pudesse ter tal poderes, portanto, sua jornada foi inútil, vá embora!
- Não foi pelo livro que vim, mas pela dignidade do povo de São Tomé.
- O povo está feliz e ama seu prefeito. Siga teu rumo.
- Você se perdeu, rapaz. Não pode se intitular um cigano. Ciganos não são gananciosos e vaidosos como você. Ciganos são libertos, não precisam de bajulações e fetiches para serem felizes. Você, com as capacidades que adquiriu, se não mudar sua cabeça, representa um perigo ao Vale do Rio Preto.
- Eu só trouxe alegria a esta cidade e não sou obrigado a dar satisfações a você.
- Você é obrigado a dar satisfações à sua consciência.
- Presto contas a ela todos os dias e ela me falou hoje mesmo que vai muito bem, obrigado.
- Bom, então não vejo outra alternativa, se não convidá-lo para um duelo.
Silêncio. Hugo ficou atônito com a proposta. Gaguejou:
- Du-duelo? - a voz trêmula.
- Sim, um duelo.
- E quem ganha? - perguntou Hugo, com a voz fraquejando.
- Ora, quem sobreviver.
A resposta de Marvin provocou um calafrio que atravessou toda a espinha de Hugo. Não se considerava pronto para um duelo de vida ou morte com aquele experiente cigano.
- Sinto muito, mas estou feliz com a minha vida e não tenho por quê arrumar novos problemas.
- Meu caro, convidar para um duelo é apenas uma forma cavalheiresca de falar, o fato é que quando um quer, dois brigam. Te espero amanhã, a uma da tarde, junto à Pedra da Cabrita.
Virou-se de costas e seguiu lentamente, apoiando-se em sua bengala.
Hugo não estava nada confortável com a idéia de um duelo decisivo com um experiente rival. Decidiu compareceria, mas levaria um coringa.
O inimigo de Marvin chegou ao local marcado dez minutos antes e sentou-se sobre a Pedra da Cabrita. Tal pedra ficava junto à margem do Rio Preto e tinha este nome devido ao seu formato, que lembrava uma cabrita deitada, com cada um dos membros estirado em uma direção, completamente abertos. O livreiro foi pontual.
- Boa tarde, esnobe rival. - disse o velho cigano, pegando uma moeda de cobre do bolso ¿ Vou arremessar esta moeda para o alto. Quando ela tocar o chão, o duelo se inicia.
Hugo assentiu com a cabeça.
Marvin fechou os dedos da mão direita, colocando o polegar encostado em seu indicador. A moeda sobre ambos os dedos, a maior parte no polegar, que impulsionou-a para cima com uma força impressionante que a fez subir mais de dez metros. Os ciganos mantiveram os olhos fixos um no outro, esperando pelo barulho do metal no chão. Quando isto ocorreu, Hugo levitou a Pedra da Cabrita e atirou-a com incrível velocidade contra Marvin que, dilatando o tempo, não teve muita dificuldade em se desviar. Este, então, fez com que um braço d¿água saísse do Rio Negro e puxasse Hugo para dentro dele. Feito isto, fez com que as águas não tão bravas do rio se tornassem um verdadeiro inferno liquido, que lembrava a luta havida anos antes entre o rio do norte e o rio do sul.
Hugo começou a se afogar. Foi quando surgiu, por trás de uma moita, uma terceira pessoa. Um homem de aparência coronelesca abriu um vão na água, fazendo um perímetro de segurança em volta de Hugo, por onde não passava água alguma. Este, então, levitou para fora do rio. Os dois juntos começaram a arremessar um número impressionante de pedras, galhos e outros detritos contra Marvin, que agora, mesmo dilatando o tempo, tinha dificuldade de se desviar, tamanha era a intensidade da rajada. Concentrou-se, então, em estabelecer um contato mental com João da Silva, que recebeu a mensagem e utilizou sua inigualável capacidade de relativização do tempo, adquirida na época em que tentou estabelecer novos recordes mundiais de atletismo, para chegar, correndo, em menos de um minuto, à arena de batalha. Ocorre que um minuto, em meio a pessoas que relativizam o tempo, é uma enormidade, de modo que quando encontrou os combatentes, Marvin já estava quase sem forças, fazendo um enorme esforço para não cair no chão. João da Silva arrancou uma árvore do chão, utilizando apenas seu poder mental e levitou-a até seus rivais, utilizando-a como taco de beisebol. Os dois foram arremessados a mais de cinqüenta metros de distância. Atordoados, levantaram-se devagar e ao fazerem isto, notaram que uma nuvem despencava em sua direção. Imaginando ser uma forma de piorar a visibilidade, Hugo lançou-lhe um impressionante sopro, que seria capaz de dissipar qualquer tipo de formação nebulosa, mas a nuvem continuou inalterada e despencando cada vez mais rápido. Hugo e seu cúmplice começaram a correr, então, para sair debaixo dela, mas não houve tempo e seus corpos ficaram mais comprimidos que aço em siderúrgica.
- Nada mal. - disse Marvin, virando-se para João da Silva - Parece que aquela conversa que tivemos logo após seu vexame nacional serviu para alguma coisa.
- Quando estava chegando aqui em São Tomé vi essa nuvem e lembrei-me daquela história dela ser super densa. Imaginei que não deveria ser mera coincidência ela estar exatamente sobre as nossas cabeças nesse momento. Resolvi, então, dar-lhe um bom uso. O que fazemos com os corpos?
- As piranhas vão aproveitá-los. - respondeu Marvin. Na natureza tudo se transforma. Caloria às piranhas! É uma pena ver um cigano se perder desta forma.
João da Silva arremessou os corpos no rio. Marvin esperou-o e então invadiram a casa do prefeito, onde procuraram e acharam o livro roubado. O livreiro preparou um chá de mate, que portava na mochila, utilizando as panelas e o fogão de Hugo. Beberam-no e retornaram a Maricá do Rio Preto.
por Renato Amado * 2:01 PM
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[Quinta-feira, Agosto 12, 2004]
Deu pau no modem
Meus caros leitores, queimou o modem lá de casa. E ao que tudo indica, por culpa da inigualável Telemar, a empresa mais processada do mundo, com mais de 1 milhão de processos. Contudo, para não matá-los de curiosidade, salvei o arquivo em disquete e trouxe para o trabalho. Portanto, lá vai a segunda parte do conto, que ainda tem uma terceira parte, que juro que postarei em breve. Já até deixarei o disquete aqui, para não correr o risco de esquecer. Aliás, também prometo que o próximo conto não demorará muito para ser postado, pois já está pronto.
Mas antes que vocês iniciem a leitura, um recado aos hipotéticos plagiadores de plantão, que imagino não existirem. Chegou lá em casa um certificado da Biblioteca Nacional. Todos os contos e crônicas deste blog foram devidamente registrados. Se alguém duvidar, depois posso olhar o número de registro e informar.
Só mais uma coisa. Já fiz uns rabiscos referentes à conclusão da saga do Vale do Rio Preto. De modo que talvez esta se aproxime do fim, não sei ainda. Bom, o fato é que pretendo transformar esta brincadeira num livro, pois o mundo está cheio de malucos, de forma que sempre haverá quem compre. Ocorre que não consigo pensar num título mais criativo do que Contos do Vale do Rio Preto, de forma que aceito sugestões. Se alguém der uma sugestão acatada, terá seu nome nos agradecimentos, salvo algum impedimento oposto pelo editor, o que imagino não ser possível. Não precisa nem dizer que não vai rolar P.L. (participação nos lucros) pra quem der a idéia, até porquê o mais provável seria ganhar um P.P. (Participação nos Prejuízos).
Bom, chega de abobrinha e vamos ao que interessa. Apenas só mais um adendo. De um tempo pra cá tenho relido os contos antes de postá-los, mas como estou com pressa e não pretendo adiar esta postagem mais um dia, tá indo sem esta relida, portanto, acochambrem os erros. Ah, a quem perguntou, não, eu nunca publiquei um livro e espero que este seja o primeiro. Será um best seller, além de cultuado no meio intelectual. Darei entrevista no Espaço Aberto, no Jô e no Provocações, do Abujanra, e passarei a usar óculos pra ficar com cara de inteligente. Depois caio da cama e acordo. Tentarei voltar com o "Fatos do Purgatório", mas agora estou com pressa. Preciso ir comer podrão.
A mente como limite - parte II
Após nocautear o velho cigano, Hugo correu para fora do cidade e seguiu em
direção a São Tomé.
Ao contrário de quando fez o caminho oposto, o cigano Hugo seguiu a pé, a
uma certa distância da estrada, o que lhe custou três dias de viajem. À
noite, montava a barraca que carregava junto à sua mochila, acendia o
lampião e se punha a ler o livro roubado. Ao chegar ao seu destino, já
possuía uma certa noção sobre os mistérios do Vale do Rio Preto e o que era
possível um ser humano realizar. À medida que avançava na leitura, percebia
que não havia limite, bastando um forte poder mental para que tudo fosse
possível. Os poderes que o livro ensinava, reparou Hugo, nada mais eram que
uma forma de levar o leitor a se convencer de que acreditando, tudo era
possível realizar. Quando o livro gastava uma página que parecia
interminável explicando como relativizar o tempo, ele apenas descrevia um
ritual aleatório, para que ficasse mais convincente. Uma espécie de efeito
placebo, pois o que importava no era o ritual descrito, mas o poder mental
da pessoa. Contudo, apenas poucos leitores perspicazes conseguiam reparar
isto. Os que conseguiam fazê-lo tornavam-se pessoas com poderes
inimagináveis.
Cigano de idade avançada, embora algumas décadas mais novo que Marvin, Hugo
tornou-se um lobo solitário após perder-se do seu grupo durante uma fuga de
uma manada de javalis, na Nigéria, há sete anos. Desde então, começou a ler
mais e viajar menos. Leu histórias de nobres, castelos luxuosos e folhas de
bananeiras sendo abanadas por eunucos e lindas mulheres. Era isto que ele
queria para ele há anos e agora conseguia ver ao seu alcance.
Chegando a São Tomé, Hugo procurou por Severino. Utilizou suas capacidades hipnóticas exponencialmente melhoradas após o início da leitura do volume sem título que roubou de Marvin, para convencê-lo a lhe fornecer moradia e alimentação por tempo indeterminado. Seu pedido foi atendido com enorme boa manipulada vontade de Severino. A mulher deste se mostrou reticente, mas logo cedeu literalmente aos encantos do forasteiro.
Hugo, utilizando o poder de sua mente, aos poucos fez com que toda a cidade o amasse. Se candidatou, então, a prefeito e obteve uma estrondosa vitória, com mais de 90% dos votos. Os vereadores eleitos eram quase todos seus aliados, absolutamente fiéis.
Tendo o controle sobre o legislativo local e amado por toda a população, Hugo conseguiu aprovar leis completamente absurdas. Uma delas dizia que todas as virgens da cidade deveriam se entregar a ele na data do seu aniversário de quinze anos, mas deveriam começar a bajulá-lo logo ao completarem o décimo quarto aniversário, abanando-o com folhas de bananeiras, enquanto trajavam biquínis vermelho brilhante e entregando-lhe uva na boca. Os homens, uma vez por ano, deviam oferecer suas mulheres ao prefeito e toda a população fazia-lhe reverência ao vê-lo passar.
Este estado de coisas permanecia inaudito às cidades vizinhas, pois a população de São Tomé estava extremamente satisfeita, uma vez que amavam o cigano.
Entretanto, Seu Antônio, o carteiro que sozinho respondia pelas quatro cidades do Vale do Rio Preto, ficou um tanto o quanto abismado pelo que viu e ouviu em São Tomé. Enquanto entregava uma carta, viu o prefeito passando e todos na rua fazendo-lhe algum tipo de reverência. Cláudio, que recebia uma correspondência naquele momento, curvou-se a Hugo e comentou, com um largo e sincero sorriso no rosto:
- Senhor prefeito, amanhã te presentearei com minha mulher.
Seu Antônio ficou abismado com o que ouviu.
- O quê, você vai dar sua mulher pra ele?!?
- É só por uma noite só, homi! O que que custa compartilhar as coisas com um compadre tão legal como o prefeito?
O carteiro acho tudo tão estranho que preferiu calar-se, mesmo vendo a mulher de Cláudio soltar um sorriso maroto para Hugo, na frente do marido, que pareceu não se importar.
Chegando em Maricá do Rio Preto, Seu Antônio comentou com Marvin as esquisitices que viu em São Tomé. O velho cigano respondeu-lhe que imaginava o motivo disto tudo e que aquilo não duraria mais muito tempo. Assim que se despediu do carteiro, aprontou sua mochila e foi para algo que se convencionou chamar de rodoviária, onde esperou a partida do próximo ônibus para São Tomé.
To be continued.
por Renato Amado * 6:18 PM
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[Domingo, Agosto 01, 2004]
A mente como limite - Parte I
Severino espantou-se ao ver os quatro bancos da praça ocupados. Quem seria o quarto homem? Há anos que os únicos mendigos da cidade eram o Zeca, o Barbosa e o Bartolomeu. Aproximou-se e reparou que o quarto homem trajava panos coloridos, num visual um tanto o quanto exótico, que lembrava o do
cigano Marvin. Seria ele? Decidiu acordar o moribundo, perguntando-o se
queria ajuda. Quando o homem se sentou, pode ver que não se tratava de
Marvin, mas certamente era um cigano.
- Chamo-me Hugo.
O cigano Hugo explicou que chegou ao Vale do Rio Preto após ter ouvido falar nos fenômenos que lá ocorrem. Perguntou a Severino onde poderia buscar informações sobre isto. Este lhe explicou que um velho cigano que
vive em Maricá do Rio Preto possui uma compreensão impressionante sobre
estes fenômenos.
- Mas não há um livro que trate do assunto?
Severino falou sobre o enorme volume sem título, que Marvin possuía em sua livraria.
- Grato, sigo viagem, agora . - colocou nas costas sua mochila, que se
encontrava ao lado do banco e partiu em direção a Maricá do Rio Preto.
Chegou ao seu destino pelo fim da manhã. Deu uma volta pela cidade, a fim de fazer um reconhecimento e principalmente encontrar a livraria. Feito isto,
procurou por comida e não teve dificuldade em encontrar um restaurante simples que servia comida caseira. Alimentou-se e foi para a praça central, onde
tirou um cochilo no mais confortável banco. Só saiu de lá no início da
noite, quando retornou ao mesmo restaurante, onde fez uma nova refeição.
Terminada esta, voltou à praça, onde ficou até que o movimento da cidade cessasse.
Seguiu, então, em direção à livraria. Ao chegar, contornou-a e pode
verificar que todas as janelas encontravam-se trancadas. Analisou, então, a
porta, a fim de descobrir qual era o sistema de trancamento desta. Ficou
extremamente feliz ao verificar que tratava-se de um sistema altamente
rudimentar e de fácil violação. Havia uma cancela de madeira interna. Se
Hugo conseguisse algo fino e que não cedesse com facilidade, poderia colocar
entre a porta e o batente, suspendendo a cancela pelo lado de fora. Passou a
procurar, então, por um pedaço de madeira. Não demorou para encontrar
um dentro de uma carroça estacionada em uma rua próxima. Pegou-o e utilizando o facão que portava em sua mochila, deixou-o com a espessura desejada. Colocou-se, novamente, em frente à porta da livraria. Com a madeira que conseguira, suspendeu a cancela interna. Abriu a porta bem devagar, tentando evitar rangidos, o que não foi completamente evitado. Acendeu o lampião que tinha consigo, mantendo uma luminosidade baixa, mas o suficiente para ter
um vislumbre do lugar. Viu a escada que dava para o sótão, as prateleiras da
livraria, as poucas mesas brancas e baixas que esta continha, com suas cadeiras de madeira igualmente pequenas, o carpete verde, o abajur de osso de tigre e coro de lhama...enfim, fez um básico reconhecimento da área. Pôs-se, então, a procurar o que desejava. Mas após várias horas, ainda não vira nenhum livro sem título. Olhou, então, para a escada e refletiu. Deveria subi-la? Hesitou por um minuto e enfim resolveu fazê-lo.
Já era de manhã quando Hugo começou a subir a escada. Cada passo era acompanhado por um rangido do degrau no qual ele pisava. Certamente se
houvesse alguém no sótão, teria ouvido seus passos, mas foi Hugo quem ouviu
ruídos vindos de trás da porta. Parou durante alguns segundos, para
tentar identificar o que escudara. Ficou surpreso ao notar que eram gemidos femininos de prazer. Provavelmente o livreiro e sua mulher praticavam o acasalamento. Era uma ótima oportunidade para Hugo pegá-los desprevenidos.
Desceu novamente a escada e dirigiu-se até a porta. A cancela de madeira que ficava atrás desta era bem grossa. Reparou que ela tinha uma base fixa. Quando a porta estava aberta, a cancela ficava pendurada para baixo, como um pêndulo, presa à base, que era formada por um pino de madeira, mais grosso na extremidade externa, o que impedia que a cancela escapulisse. Para
trancá-la, efetuava-se um giro da madeira em torno de si, até que ela caísse
em uma agarra também de madeira, que ficava presa à parede, ao lado da
porta. Para retirar aquela cancela dali, Hugo teria que cerrar silenciosamente a ponta do pino que a prendia. Foi o que fez. Voltou a subir
a escada pé ante pé, segurando a canela com as duas mãos e verificando se os
gemidos continuavam. Ao chegar ao último degrau, notou que a rústica porta
de madeira do sótão não possuía tranca. Deu-lhe, então, um forte chute com a
sola do pé, abrindo a porta com estardalhaço e assustando o casal que se
encontrava numa constrangedora posição, não encontrada sequer em livros
sobre o Kama Sutra.
Hugo, enquanto o casal desconstituía a complicada pose, olhou ao seu
redor. Viu, ao lado do colchão, um grosso livro. Pegou-o ainda antes das
pernas se desembaralharem e saiu correndo escada abaixo.
Não adiantava Marvin relativizar o tempo, a fim de agir mais rápido, pois
Kessie tinha enorme dificuldade em se desfazer da posição em que se
encontravam, principalmente nervosa daquele jeito. Quando o livreiro
conseguiu se libertar das cochas de sua amada, o intruso já saía pela porta
da livraria. Marvin relativizou o tempo para chegar, mesmo necessitando de uma bengala, ao mesmo ponto em menos de um segundo e então olhar em volta para ver para que lado seu adversário seguira. Mas ao chegar à porta, tudo que viu foi um enorme pedaço de madeira aproximando-se do seu rosto. Caiu inconsciente.
To be continued.
por Renato Amado * 12:15 PM
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