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Aumente um ponto

[Domingo, Setembro 12, 2004]

Ritmos

Cid, um jovem empreendedor de Maricá do Rio Preto, realizou que poderia lucrar com a falta de hospital no Vale do Rio Preto. Foi à capital do estado, onde "envenenou" o seu Uno Mille 1992 e comprou uma sirene. Também comprou, através de financiamento, mais três carros da mesma marca e de anos próximos ao de veículo anterior, que também foram devidamente "envenenados" e "sirenados". Completando a feira, adquiriu quatro walk talks. Pronto, o sistema de Socorro Imediato estava quase em ordem para funcionar.Só precisava, agora, de funcionários. Quatro, para ser mais exato. Um para cuidar da central telefônica, em Maricá do Rio Preto, onde o próprio Cid seria responsável por transportar os enfermos, e outros três para guiar os carros que estariam nas demais cidades da área.

Pessoas disponíveis a baixo salário era o que não faltava em São Tomé, cidade mais pobre da região. Não foi difícil encontrar quem aceitasse fazer parte da empresa por apenas dez dinheiros por corrida, mesmo que o socorrido pagasse dez vezes isto pelo atendimento, um preço quase estratosférico para a realidade financeira da região ("no desespero, meu filho, dinheiro é o que as pessoas menos poupam", já dizia o pai de Cid). Em Maricá do Rio Preto, bastou encontrar um "aspone" para cuidar da central telefônica. Ele atenderia às chamadas e via walk talk comunicaria as emergências, informando aos quatro condutores, em que município ocorriam. Um salário mínimo foi suficiente para encontrar um empregado. Em Só Sebastiana teve que oferecer o dobro do valor por corrida que ofereceu em São Tomé. Em compensação, aumentou o preço do serviço proporcionalmente. Em Nova Córdoba do Rio Preto, entretanto, Cid encontrou problemas.

Na cidade mais rica da região não havia quem aceitasse o serviço por menos de cinqüenta dinheiros a corrida. Tal quantidade de moeda era um descalabro, posto que seria inviável Cid cobrar do cliente dez vezes o valor pago ao prestador de serviço, como fazia nas demais cidades. Ocorreu-lhe, então, fazer uma proposta à prefeita, Maria de Lurdes. Ela cederia um dos funcionários ociosos do município para fazer o serviço, sem qualquer ônus para o jovem empreendedor maricá rio pretense. Em troca, o carro utilizado teria uma tarja da prefeitura e o serviço seria ¿gratuito¿. O lucro viria através de um suave aumento de IPTU, incapaz de causar qualquer dano eleitoral, principalmente se feito à sombra do novo serviço. Esta arrecadação extra iria direto aos bolsos de Cid.

Feito os últimos acertos, o empreendimento começou a funcionar em todo o Vale do Rio Preto, operando sob a denominação Socorro Imediato, salvo em Nova Córdaba do Rio Preto, onde era mais conhecido como ¿Prefeitura de Nova Córdoba do Rio Preto¿. Muitas vidas foram salvas e muitos depósitos bancários realizados, graças à mente empreendedora do jovem empresário, que não tardou em sorrir após retirar seu extrato do banco. Aliás, não apenas sorrir, como dar-se umas pequenas férias na cidade mais bela do país.

Uma estátua de braços abertos sobre uma montanha, uma bela baía, dois morros ligados por um teleférico, um estádio de futebol tão grande que parecia um planeta em miniatura, sem dúvida encheram os olhos de Cid, mas foi nas ruas próximas ao Centro que ele se encantou.

Um bandolim chorava com enorme emoção, motivado por mãos habilidosas. As notas eram como lamentos. Ficou curioso em saber o nome daquele ritmo:

- Chorinho. Choro, pros mais íntimos. - respondeu-lhe um jovem mulato, com uma pequena pança e aparência tranqüila, que nada lembrava a imagem do malandro, tão associada àquela cidade.

Chorinho, não poderia haver nome mais apropriado. Ao partir, carregou consigo um bandolim, um violão e um pandeiro. Seu próximo empreendimento já estava planejado.

De volta a Maricá do Rio Preto, contratou, por vinte dinheiros a corrida, um cidadão para cobrir seu serviço, diminuindo a margem de lucro. Mas não se incomodou, pois sempre foi um sujeito econômico, de modo que conseguira guardar bastante dinheiro durante este primeiro ano como empresário. Precisava, agora, não de empregados, mas de parceiros.

O primeiro voluntário foi João da Silva, que se destacou em todos os instrumentos. João era o tipo de sujeito que fazia bem o que quer que fosse. Cid decidiu colocá-lo à flauta, uma vez que, com muito treino, outras pessoas poderiam fazer solos rapidíssimos ao bandolim (cá entre nós, a grande verdade é que Cid queria ficar ao bandolim), mas ninguém jamais conseguiria obter aquele fôlego interminável de João.

O segundo voluntário foi Joelmir. Homem conservador e tradicional, optou pelo velho conhecido pandeiro.

O terceiro voluntário foi Manoel, amigo do segundo e quase tão tradicional quanto este. Fez questão de se responsabilizar por um instrumento de tradição tão arraigada, que nos parece tão velho quanto a humanidade: o violão.

Pronto, a banda estava completa, não fosse...bem, não fosse uma intrusa se apresentando com um instrumento de percussão. Era Kessie, no alto dos seus sessenta e tantos anos.

- Jamais! Uma puta velha será péssimo para a imagem da banda. - disse Cid.
- Ex-puta. - corrigiu a mulher do cigano.
- Isso daqui é coisa de homi! Vê lá se tem lugar pra mulé aqui? Tem não senhora! - acrescentou Joelmir.
- Acho que o som do atabaque vai dar um toque especial à música - contrapôs João da Silva - será uma forma de nos diferenciarmos.

Este argumento com um fundo comercial tocou Cid. Mas uma ex-prostituta de sessenta anos ou mais, casada com um cigano recluso e esquisito era demais.

- Sinto muito, mas acho que você não faz o perfil da banda. - decretou o líder do grupo.

Kessie respondeu com dois minutos de inacreditáveis batucadas, que espantaram a todos, inclusive a João, que tinha uma certa intimidade com ela e não sabia que a esposa do livreiro possuía este tipo de habilidade. Ao ver a expressão de espanto do amigo, explicou-se:

- Durante seis meses o Marvin me ensinou pela manhã. Meu progresso foi tamanho, que prossegui sozinha.
- Não conhecia este lado musical do Marvin. - retrucou João da Silva.
- Meu querido, - disse Kessie, em tom jocoso - morreremos sem saber tudo que este homem conhece. - João consentiu com a cabeça.

Após a soberba apresentação de Kessie, Cid viu-se obrigado a aceitar sua presença, tendo como custo um Joelmir eternamente contrariado e queixoso.

Durante um ano ensaiaram na casa de Cid, sem executarem nenhuma apresentação pública. O líder da banda achava que o sucesso seria maior se eles se lançassem com grande estardalhaço, executando uma apresentação de gala.

Uma semana antes do ano novo, foram penduradas faixas por toda Nova Córdoba do Rio Preto, convidando locais e turistas para a apresentação da banda na Praça Affonsín Cierón, logo após a queima de fogos, que seria realizada na Encruzilhada das Águas, ponto onde as águas vindas da parte norte do Rio Preto se encontravam com as águas da parte sul do mesmo rio, seguindo cada uma numa direção, pelo mesmo leito.

Durante a noite do dia 31 de dezembro, os serviços da Socorro Imediato foram suspensos, para que os Fiat Mille levassem, de graça, os cidadãos das demais cidades da região para passar a virada do ano em Nova Córdoba do Rio Preto e assistirem ao show dos "Choradores do Rio Preto".

O evento foi um sucesso estrondoso. Cid e João da Silva, aos pés do busto em homenagem ao falecido fundador da cidade, disputavam atenções com seus solos. A guerra em cordas e sopro foi tão excitante que gritos, assobios eufórico e exclamações de espanto entoadas em coro emanavam do enorme público. Muitos tentavam dançar aquele maravilhoso ritmo até então desconhecido. Foi quando um casal de turistas, oriundos da metrópole onde Cid conhecera o ritmo, pôs-se a dançar e roubou a cena. Um mar de aplausos preencheu o ambiente. O homem do bandolim, então, viu-se obrigado a retomar a atenção para a banda e mais especificamente para si. Em ritmo recorde solou "Brasileirinha", deixando aquele corpo único de pessoas boquiaberto.

A praça estava em vias de explodir, quando banda decidiu acalmar o público com um sereno "Carinhoso", entoado pela melódica flauta de João da Silva. Mas logo em seguida o ritmo voltou a acelerar, com uma veloz composição da banda, que encerrou o show coberta por uma ensurdecedora salva de palmas, emanada daquele gigantesco corpo único, que exalava êxtase. No mês seguinte, evento de semelhante proporção estaria se repetindo na capital do estado. Acontecimento, este, que seria o último antes da gravação do primeiro álbum da banda.

Uma vez gravadas as músicas, estas inundaram as rádios do Vale do Rio Preto. O forró, ritmo da região, aos poucos foi perdendo espaço nas rádios, até ver-se reduzido a não mais que um terço da programação. Pouco para um ritmo que até então era praticamente onipresente.

Pequenas, as cidades do Vale do Rio Preto costumavam ter apenas uma noite de gafieira por semana, salvo Nova Córdoba do Rio Preto que, durante a alta temporada, não dormia de quinta a domingo. Com o forró reinando absoluto durante todo o ano, as noites eram sempre preenchidas por este ritmo, a exceção do mês de junho, quando o estilo de Luiz Gonzaga abria espaço para o boi. Contudo, com a febre do chorinho, as noites de forró foram trocadas por noites de choro, deixando os mais fiéis forrozeiros desolados.

Mais tendenciosos a seguir a moda, os jovens pareciam completamente felizes com a substituição de ritmos. A maioria dos inconformados eram pessoas mais velhas, que cresceram ao ritmo da sanfona. Contudo, havia um pequeno grupo de jovens revoltosos. Dentre eles, Marissol, irmã de João da Silva.

- Pensas que não sei que usas teus poderes para dar aqueles sopros! - a acusava a bela de olhos negros.
- Uso mesmo! Mas qual o problema? Faço isto pela música, logo, pelo povo. Nunca imaginei que isto aconteceria, que o forró seria engolido. Imaginei que as pessoas soubessem acrescentar, mas elas só sabem substituir. Não pararei com o choro, pois tenho certeza que as coisas vão se acertar.

E o Vale do Rio Preto viu-se polarizado. Em Maricá do Rio Preto, Marissol liderava o movimento pró-forró, atacando diretamente a banda, que tinha esta cidade como sede. Em Só Sebastiana, Ricardinho, Serginho e Robinho, lideravam o movimento jovem em favor do chorinho, ao passo que José Antônio, defensor dos bons costumes, viu-se agora abraçando a causa do bate-coxa, uma vez que era incapaz de imaginar sua vida sem tal ritmo. Em São Tomé, não havia líderes nem movimentos organizados; o que se via eram bate-bocas e até brigas nas ruas. Em Nova Córdoba do Rio Preto, tal fato tornou-se objeto de disputa política entre as eternas rivais Maria de Lurdes e Maria Rita. Aquela, mais velha, defendendo os antigos sanfoneiros, ao passo que esta, antenada com tudo que era jovem, propagandeava a beleza do chorinho e dizia que, caso eleita, transformaria aquela cidade no maior centro deste estilo musical no país, atraindo ainda mais turistas. A posição de Maria de Lurdes (e provavelmente da sua rival também) contra o chorinho era algo meramente político, não refletindo uma preferência pessoal, de modo que os seus negócios com Cid não foram de forma alguma arranhados, já que estes, como diz a sabedoria popular, são sempre a parte.

Até as rádios passaram a viver este clima de rivalidade. Não havia mais rádios que tocassem ambos os ritmos. Elas passaram a ser especializadas em apenas um deles.

Aos poucos, esta exacerbada divisão começou a cair nas graças do povo, pois as bandas de forró se esforçavam em melhorar cada vez mais, a fim de não perder ainda mais espaço para o chorinho, assim como as bandas da flauta e do cavaquinho passaram a se multiplicar e inventar cada vez mais coisas, ao ponto de uma delas introduzir um berimbau, mesclando a capoeira ao chorinho. O fato é que em poucos anos, o Vale do Rio Preto passou a ser um centro de excelência musical, ao menos no que diz respeito aos dois ritmos em questão. Com isto, tornou-se humanamente impossível não ceder aos encantos da sanfona e do bandolim. A rivalidade aos poucos arrefeceu até deixar de existir. As rádios passaram a executar os dois estilos musicais e não tardou em que um criativo inventasse o forrochô, ritmo musical baseado em sanfona e triângulo, mas cortado por acelerados solos de cavaquinho ou bandolim.

No forrochô o casal dança mais separado que no forró, mas cola os corpos com força, intensidade e sensualidade, nos breves intervalos dos solos do instrumento de cordas. A dança é acelerada e consiste em diversas passagens do corpo de um por debaixo das mãos de ambos, que se unem sobre a cabeça do passante. Há, também, esporádicas retiradas do corpo da mulher do contato com o solo.

Marissol se reconciliou com seu irmão e entrou para uma banda de forrochô. Maria Rita e Maria de Lurdes viram-se obrigadas a retomar o debate sobre temas mais comezinhos, como se a passagem de ônibus deve ser mais barata ou se deve-se garantir mais de uma passagem pelo preço de uma. Em São Tomé as divergências cessaram e em Só Sebastiana não houve mais discussão entre velhos e novos. A região, agora, conjugava, harmoniosamente, quatro ritmos: forró, chorinho, forrochô e boi.




por Renato Amado * 12:11 PM

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Aumente um ponto

[Quarta-feira, Setembro 01, 2004]

O mistério do Misterioso

No último mês não houve um sábado no qual este homem não tivesse comparecido ao forró. Invariavelmente grudava em Marissol, que parecia gostar.

- Minha fila, não se engrace com este homem... - alertava sua mãe, Maria das Dores - ninguém sabe nada dele, ele se veste esquisito... faz um tipo misterioso que não me agrada.
- Não se avexe, não, mainha. Pode deixar que sei o que faço. - respondia Marissol.

Marissol já tinha um quarto de século, mas ainda guardava-se para o homem da sua vida. Era tímida e linda, mas quando a sanfona tocava, não se intimidava nem bater sua coxa contra a de um homem. Dançava com todos, indistintamente, mas sempre inocentemente. Roça seu corpo suavemente pela dança, mas quando o par era o tal do sujeito misterioso, notava-se algo diferente. Sua expressão mudava e notava-se que havia algo além de forró entre aqueles dois corpos. Contudo, ninguém jamais a viu deixando o arrasta-pé acompanhada pelo tal cidadão, o que levava todos a crer que bela jovem mantinha-se imaculada.

O misterioso paquera de Marissol era um belo caboclo, que vestia sempre um terno de linho branco, com chapéu panamá. O sapato, em contraste, era preto. Tinha uma voz sensual, um belíssimo rosto e um algo mais indefinível que fazia com que todas as mulheres se sentissem atraídas por ele. Entretanto, era a menina dos olhos e cabelos negros e pele alvíssima que lhe interessava. Trocavam beijos, é verdade, mas sempre de forma comportada.

- Por que não me conta nada sobre você? - indagava a virgem.
- Ora, minha bela, - respondia o homem, segurando delicadamente a mão da moça ¿ se eu te contasse sobre mim, deixaria de ser o Misterioso e perderia minha identidade. Eu sou o próprio mistério. Sabendo disto, sabes tudo sobre mim.

Esta maliciosa saída, acompanhada pela sensualíssima voz, um jeito galateador e ainda o indescritível algo mais que aquele homem possuía era o suficiente para derreter Marissol, que a cada dia estava mais próxima de se entregar àquele sujeito.

Ao final do segundo mês de galanteios, os beijos já não eram mais comportados e ao final do terceiro, Marissol sumiu precocemente do forró e só retornou pelo amanhecer. Sua mãe a aguardava insone, na sala.
- Posso saber onde esteve!?!
- Estava dando uma volta. - respondeu Marissol enquanto caminhava diretamente para o seu quarto.
- Pois saiba que você está proibida de dar voltas com aquele homem! Proibida!!

Maria das Dores passou a manhã de domingo com enxaqueca, sem conseguir pregar o olho, muito menos imaginar que em nove meses seria vovó.

No sábado seguinte, Misterioso sequer olho para Marissol. Foi direto a Júlia, moça de vinte anos, considerada a mais bela da cidade. Ela tinha rosto europeu e corpo em perfeita consonância com a preferência nacional. Brincava-se, na cidade, que em época de seca forte e morte do gado, as nádegas dela poderiam oferecer carne a todos durante, pelo menos, uma semana. Ao contrário de Marissol estava longe de ser imaculada. Já tivera diversos namorados, mas no momento estava solteira, atraindo o interesse de todos, inclusive dos ex-namorados, que tinham certeza que jamais retornariam a possuir tão bela mulher. Ficaram todos irados ao vê-la sair do bate coxa acompanhada pelo Misterioso.

Uma a uma as mulheres foram se rendendo a ele. Marissol nem imaginava que nove meses após o sábado em que não pode ir ao forró, devido a uma virose que a deixou de molho por quase uma semana, ganharia um irmãozinho.

Como era de se imaginar, os homens da cidade resolveram tomar uma atitude contra o invasor, que roubava-lhes as mulheres. Numa primeira vez, Manoel e Joelmir o seguiram, mais a título de curiosidade, para saber para onde aquele homem levava as mulheres. Viram-no entrar no mato. Entrava cada vez mais, andando sem parar. A cidade já estava bastante distante, de modo que ele poderia fazer o que quisesse com a moça já naquele momento, mas continuava mata adentro. Os perseguidores não desistiram da perseguição, até que fortes rajadas de vento começaram a soprar de diversas direções, acompanhadas por assobios sinistros que pareciam vir do além. Assustados, eles perderam o Misterioso de vista e se perderam. Só conseguiram achar o caminho de casa no dia seguinte, pela manhã, quando Joelmir, casado, teve dificuldade em se explicar para sua mulher.

Envergonhados em contar a todos seus fracassos e fato de se perderem no conhecido mato que separa Maricá do Rio Preto do Rio Preto, os dois amigos decidiram omitir o ocorrido naquela noite aos seus colegas. Pegariam o safado ainda na cidade, no próximo sábado.

Joelmir não poderia ter escolhido melhor data para dar uma lição naquele sujeito, pois quando foi interceptá-lo, um pouco antes do matagal, viu-o com sua filha, de apenas quatorze anos. O sangue subiu-lhe à mente, pulsando seu corpo violenta e impulsivamente contra o do Misterioso, como o de um animal que ataca uma presa indefesa, mas o homem de chapéu panamá sabia defender-se. Um chute no rosto de Joelmir foi o suficiente para derrubá-lo. Manoel avançou mais cauteloso e conseguiu desferir-lhe um soco no rosto, fazendo seu chapéu voar, revelando uma abertura no topo de sua cabeça. Ele ficou olhando aquilo estarrecido, enquanto o Misterioso corria em direção à mata. Joelmir levantou-se, com o lábio sangrando e o maxilar inferior deslocado e pôs-se a correr em direção ao desgraçado. Manoel acompanhou-o, mas não tardaram a novamente se perder naquela mata tão familiar, devido a rajadas aleatórias de vento de sinistros assobios. No dia seguinte, Joelmir teve duas vezes mais trabalho para se explicar à sua mulher. Sua filha, a partir deste dia, passou um ano proibida de sair a noite.

Os assobios e o vento que surgia, fazendo-os se perder, certamente eram algo que fugia à normalidade. Só havia um homem que poderia explicar-lhes do que se tratava.

- É o curupira, ou caipora. - disse Marvin, o Livreiro. - Vocês têm que dar-lhe tabaco para que ele se distraia e não atrapalhe a perseguição.

Feito isto, na sexta-feira seguinte, véspera do forró, os dois amigos foram até a mata, antes do forró, onde depositaram o tabaco. Depois, se afastaram alguns metros, se escondendo atrás de uma moita.. Viram um ser pequeno, que mais parecia um forte menino, com pele verde, rosto demoniacamente sorridente, com dentes pontiagudos, pés para trás e cabelo vermelhos como fogo, pegar o tabaco, sentar e por-se a fumá-lo, com tranqüilidade. Quando isto ocorreu, Manoel arremessou-lhe uma rede. Em seguida, correu em sua direção e amarrou o ser dentro da rede com uma forte corda, que os dentes pontiagudos não eram capazes de romper. Seguiu, então, na companhia de Joelmir, com a entidade nas costas, em direção ao Rio Negro, onde o viu afundar impotente. Contudo, ele jamais poderia imaginar que o Misterioso, às sextas-feiras, preferia rondar a cidade pelas águas, na sua forma tradicional.

Para evitar maiores problemas por ali, o boto e o curupira decidiram que a partir da noite seguinte, trariam problemas a São Tomé. Afinal, as mulheres de Maricá do Rio Preto já estavam acabando, mesmo.






por Renato Amado * 2:01 PM

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