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[Domingo, Outubro 31, 2004]

AMADO, FALANDO DIRETO DO NIRVANA - SHOW DO "THE DOORS"NO RIO DE JANEIRO

O PROBLEMA TODO DESTA HISTÓRIA DE SHOW DO DOORS É QUE, AGORA QUE ATINGI O AUGE DA EXISTÊNCIA HUMANA, NÃO SEI O QUE FAZER. DEVO ASSALTAR UM BANCO E PASSAR OS PRÓXIMOS ANOS RONDANDO O MUNDO, ASSISTINDO A SHOWS DO "THE DOORS 21st CENTURY" OU DEVO CONFORMAR-ME QUE DIFICILMENTE VIVEREI OUTRO MOMENTO DE TAMANHA INTENSIDADE? NÃO, ME FALEM DE FILHOS. Por que eu quereria um pentelho me enchando um saco, sugando meu dinheiro, mais tarde querendo meu carro... e mais cedo mijando em mim, depois de ter gastado o dia cuidando dele. Bebês são seres maus e ingratos, o que confirma a teoria hobbesiana do homem natural como um cara mal, filho da puta, lobo do outro. Ah...tô viajando demais. Tudo isto pra dizer que o show não foi foda. Não é possível descrevê-lo porque não existe palavra na língua portuguesa para isto. Logo na segunda ou terceira música (love me two times) pensei: salvo alguma catástrofe que venha a ocorrer, este já é o maior show da minha vida. Com "Breack on Through"percebi que era meu maior momento e com"light my Fire" percebi que o era de longe.

Bom, não sei porque estou escrevendo isto, acho que é uma vontade de dizer de forma sutil: "vocês que não foram vocês são uns otários. Passa fome? Não!!! Então devia ter gasto esta grana. Bom, paguei caro, mas pelo menos agora sei como se senti um jogador de futebol, ao ganhar uma copa do mundo, senti-me igual.

Existem duas coisas das quais ninguém me convence:
1 - que o vocalista não baixou o espírito do Morisson, porque ele tavao Jim;
2 que eu não estava lá dentro do palco, parte integrante do show, da música, como a bateria.

Aos que não foram, aviso que até Breack on Through acompanhado pela bateria da "Mocidade Independente de Padre Miguel"ouvi.

Renato Amado, direto do Nirvana,

câmbio, desligo.

por Renato Amado * 3:06 AM

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[Quinta-feira, Outubro 28, 2004]

Cachimbo da paz

Cansado, ferido, nu e carregando um grande saco de couro cheio, o índio chegou a Só Sebastiana.

- Ih, um índio! Todo ferrado! Índio, o que você faz aqui? - perguntou Robinho.
- Índio foge. - respondeu o Índio - A nossa terra, terra dos índios, é dos índios mesmo, no papel. Já faz alguns anos que as autoridades disseram que aquela terra é só nossa e de mais ninguém. Então, passamos a cobrar dos garimpeiros para eles poderem usar. Acontece que eles nunca aceitaram isto muito bem, então, atacaram a gente nesta madrugada. Poucos sobreviveram. Não sei o que aconteceu com minha família. Fugi para cá.
- Nossa, Índio, o que você pretende fazer agora?
- Dar um jeito de ganhar um dinheirinho por aqui.
- Já sabe como?
- Índio sabe. Enquanto saía da floresta, Índio pegou bastante fumo, que tá tudo dentro deste saco aqui. Vou vender.
- Ih, Índio, acontece que todo mundo daqui compra fumo lá com o Seu João Carlos. Acho difícil que eles parem de comprar com ele para comprar com o senhor.
- Mas fumo de Índio ser diferente. Fumo de Índio proporcionar viagem do espírito.
- Como é que é, Índio?
- Fumo de Índio proporcionar viagem do espírito.
- Nossa, e como é que é esta viagem?
- O espírito fica leve e pode partir para a viagem que quiser, isto depende do espírito de cada um. Quer ser meu primeiro freguês?
- Estou com pouco dinheiro, Índio. Acho que não carece.
- Índio dá provinha de graça.
- De graça até injeção na testa...

- E aí, gostou?
- Vich, Índio, está tudo normal.
- Não por muito tempo.
- Não estou levando fé neste seu fumo não, Índio.
- Espera que fumo de Índio fazer efeito, mas demora uns minutinhos.

- Pô, Índio, então quer dizer que os caras foram lá e começaram a cortar, passar a faca em todo mundo!?!
- É, mais ou menos isto.
- Pô, Índio, que viagem! E você fez o quê?
- Corri.
- Qual é, Índio, deixa de ser peidão.
- Deixa de ser o que, jovem?
- Peidão. Não sabe o que é peidão, não? É como falam os cabras lá da cidade grande. Tem que aprender a falar que nem eles, para tirar onda. Viu, falei que nem eles de novo.
- Tirar o que, rapaz?
- Onda, Índio. Tirar onda. Ficar malandrinho, sacô.
- Sacô.
- Aí, Índio, este seu fumo é arretado, viu?
- Arretado não, é maneiro. Tem que falar que nem os cabras da cidade grande para tirar onda.
- Pô, Índio, como é que você aprendeu a falar maneiro?
- Tem uma TV lá na tribo.
- Uma TV, Índio?!? Que viaaaagem... então, a gente pensa que os índios ficam tudo lá, deitadão na rede, tranqüilão, mas eles tão como? Vendo TV neoroticamente. Mas pega na mata?
- Não, por isso instalamos uma parabólica. - Noooossa, Índio! Tribo com parabólica, que loucura...
- Índio adora ver programa de briga de casal.
- É mesmo, Índio? Estes programas são arretados demais.
- Maneiros.
- Isto, são maneiros demais. Índio, me segue que eu vou te ajudar a vender este trem daí, porque é bom demais.

- Sérginhoooo! Serginhoooo! Aparece aí, homi!!!
- Calma, homi! Precisa gritar assim?
- Anda logo, que o Índio aqui tem um negócio legar para apresentar.

Uma hora mais tarde, nas pedras junto ao Rio Preto...

- Mas aí, Índio, este seu trem vai vender pra cacete! - disse Serginho.
- Com certeza... - disse Robinho, com olhos serrados e aparência de sonâmbulo.
- Aí, Índio, você é o Índio mais gente fina que já conheci! - disse Serginho, empolgado.
- E por acaso você já conheceu algum outro? - questionou o Índio.
- Ih, não. Caraaaaca! Que viagem, me pegou! Quaquaquaqua, quaquaquaqua, quaquaqua...
- Porra, Serginho, dá para parar de rir, cacete! Parece um pato, porra! - disse Robinho, com a cabeça caída contra os braços, que estavam apoiados sobre os cotovelos, que descansavam sobre as pernas. Com a palma das mãos, não parava de esfregar os olhos.

O riso no rosto de Serginho se desfez por completo e ele adotou uma expressão de sepulcral seriedade.
- Qual é, Robinho!?! Deixa eu me divertir em paz!
- Ah, cala a boca. - respondeu Robinho.
- Qual é, Robinho, porra! Não se avexe comigo! Fica na sua que eu fico na minha!
- O problema é que você não está na sua. Esta sua risada de pato empesteia todo o ambiente.
- Vai se ferrar, Robinho!

Robinho não respondeu, deitou-se sobre uma pedra e dormiu o sono dos justos.
Serginho ficou sério, contemplando um redemoinho no rio durante um período e em seguida dirigiu-se ao Índio, quando deu-se conta de sua ausência. Sacudiu, então, seu amigo, acordando-o.

- Que foi Serginho... - disse Robinho, com voz de madrugada.
- Cara, o Índio sumiu!
- Ele não sumiu, ele foi embora.
- Ah é? E como é que você sabe?
- Eu vi, porra.
- Como você viu se você estava dormindo?
- Ele veio me dar tchau.
- Ah... foi te dar tchau... Índio safado! Não vou mais ser freguês dele. Dá tchau para você e não dá para mim, onde já se viu!?!
- Ele deu para você, mongol, só que você estava viajando com rio e nem percebeu.

O Índio foi rodar a cidade, a fim de conquistar novos fregueses, oferecendo pequenas amostras grátis. Mas para a sua surpresa, quando foi fazê-lo ao delegado, levou um tapa na cara que produziu um estalo audível a quarteirões de distância. O saco com a mercadoria caiu no chão.

- Índio vagabundo, de merda! Que falta de respeito é esta!?! Está achando que isto daqui é zona!?! Quer zona vai lá para Maricá do Rio Preto, aquilo sim que é bagunça! Aqui impera a Lei e a ordem! Pode algemar.

Um homem vestindo um colete marrom, com suas iniciais e algumas estrela, que denotavam méritos conquistados através de sua carreira, colocou o Índio violentamente de costas contra a parede. Puxou seus dois braços para trás e o algemou. Em seguida, trancafiou-o numa minúscula cela, com mais sete homens.

A nova moradia do Índio era composta por quatro colchões no chão, uma latrina fétida e imunda ao fundo, um cano que não parava de pingar, com uma torneira em baixo que, caso girada, o transformava numa ducha tosca, paredes e a grade de entrada. O chão era constantemente úmido, consequentemente os colchões também. A roupa de cama limitava-se a um lençol incapaz de cobrir todo o corpo.

- São quatro colchões para sete pessoas, então toda noite, três dormem em pé. Fazemos revezamento, menos o compadre ali, que dorme em casa. - disse, um homem simples, de aparência rústica e humilde, transbordando um certo carisma e muito sotaque interiorano ,apontando com a cabeça para um sujeito bem vestido, com um elegante suspensório preto, calça e sapato da mesma cor e camisa de botões azul clara - Como você está chegando agora, vai ter que ser o último da fila.

Assustado, o Índio assentiu com a cabeça e sentou-se acuado, num ângulo da cela.

- Gato comeu sua língua, homi? - perguntou, o mesmo homem.

O Índio balançou a cabeça negativamente.

- Então por que não fala, homi de Deus? Por que veio parar aqui?
- Índio não sabe, - respondeu - fui vender fumo para delegado e ele bateu e prendeu Índio.
- Você estava vendendo a erva maldita, Índio?
- Não, Índio vendia erva para viagem do espírito.
- Vich... é esta mesma. Índio estava vendendo erva maldita... acho que você vai ficar bastante tempo aqui dentro, então é melhor eu te apresentar o pessoal.

Puxou um negro forte e vigoroso pelo braço.

- Este daqui é o Sansão. Crime: passou a vara na mulher do delegado. Pena: "vai apodrecer aí dentro, desgraçado!"

Fez sinal para um rapaz com cara de cansaço. Sua barba estava por fazer e aparentava ser mais velho do que realmente era. Seu senho estava constantemente franzido. Exalava mau-humor.

- Este daqui é o Antônio. Está preso porque brigou com João num churrasco. - disse o interlocutor do Índio, apontando para um jovem com pose de homem forte e feito, mas que não passava de uma criança crescida. Tinha a pele branca e o cabelo encaracolado em mexas grandes e modernas. Sua pele era ainda de garoto e a barba mal começava a despontar. Parecia buscar tornar-se um homem globalizado. - Disputa por mulé, sabe como é...
- Disputa é o cacete! - interrompeu Antônio - a mulher já era minha e o pirralho resolveu se engraçar para cima dela enquanto eu ia ao banheiro.
- Não me engracei nada! O que eu posso fazer se você não consegue dar conta da mulé e ela precisa de outro homem que a satisfaça?

O mal-humorado jogou seu corpo sobre o do semi-globalizado, então eles começaram a rolar ferozmente pelo chão. Os demais presos, com exceção do Índio e de um de aparência aristocrática, jogaram-se no chão para separar os combatentes. Após levarem alguns socos injustos, os adeptos do deixa-disso obtiveram êxito.

- Bem, continuando... este a minha esquerda é o Juremir. Juremir, apesar desta cara de enfezado e mal, com esta testa que mais parece a Muralha da China (né Muralha?) e estes olhos esbugalhados de bandido, sempre foi um sujeito muito tranqüilo e amoroso, até que flagrou um sujeito rolando no mato com sua filhinha de treze anos. Deu tanto sopapo no cidadão que acabou matando o pobre coitado. - Juremir franziu o senho para o apresentador - Digo, o cabra safado. Depois disto, nunca mais voltou à antiga serenidade. Pena: quatorze anos.

- Aquele ali, ao lado do Juremir, é o Caio. Ele é assim magro, fraco e baixinho, mas ainda tem músculos suficientes para bater numa mulher. Pegou sua dona olhando um cabra mais moço no forrochô. Então, não teve dúvida, quando chegou em casa, deu-lhe uma lição. Acontece que a esposa dele tinha visto, dois dias antes, um programa na TV que dizia para as mulheres que apanhassem do marido irem para a delegacia, fazer queixa. Ela, então, resolveu copiar e agora chora em casa a falta do marido, que vai passar dois anos aqui dentro. Ela tentou retirar a queixa, mas não deixaram.

- Por fim, aquele ali no canto, fumando um charuto e com cara de patrão é o Thomas. Mas presta atenção, é "Tômas", se você chamar ele de "Tomás" ele fica bravo. O Thomas desviou o dinheiro que era para fazer um hospital, para construir uma piscina na casa dele, a única da cidade. Ele consegue tirar um dinheiro bão todo mês cobrando entrada para as pessoas poderem ir para a piscina. Ele deve ser sempre bem tratado aqui dentro porque nos paga para isto. Assim como o delegado também o trata bem. Passa só o dia e o início da noite aqui dentro. Na calada da madrugada, quando já não tem ninguém na rua, o delegado vem aqui e abre a porta para ele, que volta de manhã cedo. Pena: o delegado disse que se ele quiser ir embora na semana que vem não tem problema.

- E finalmente eu. Sou o Zé Galinha. Ao contrário do que você pode pensar, não ganhei este apelido por ser um grande conquistador, mas porque fui preso acusado de roubar a galinha da mulher do prefeito, sem trocadilho, por favor. A galinha da mulher do prefeito fugiu e a primeira dama cismou que alguém tinha roubado. Como eu fui visto passando em frente a casa de Sua Excelência mais ou menos na hora da fuga, então cismaram que fui eu que roubei a galinha, mas eu tenho certeza que ela fugiu, porque uma vez eu vi esta galinha tentando pular a cerca do curral e ela quase conseguiu. De tanto treinar, a bicha foi pegando prática e acabou conseguindo. É isto, Índio, estas pessoas serão sua família pelos próximos tempos. Mas eu também acho que tem outro motivo para eles me prenderem. É que eu e o prefeito nos conhecemos desde moleques pequenos e eu sempre ganhava dele em todas as brincadeiras. Depois que crescemos, continuei ganhando, só que aí, valendo dinheiro. Acho que ele nunca aceito isto muito bem.
- Você esqueceu de dizer sua pena. - disse Caio.
- Ah, é. Dois anos, mas já estou aqui faz mais de ano e meio, então daqui a pouco eu estou saindo, se o delegado deixar. É, porque diz a lenda que se o delegado não for com a cara do preso, ou se tiverem poucos presos na delegacia, ele deixa o sujeito preso além da pena, o tempo que ele achar mió. Quanto à cela, sei que você deve estar achando o lugar meio feinho, mas vai melhorar. Semana que vem, parece que vão fazer um buraco na parede do fundo e colocar uma grade para o sol poder entrar, aí a gente vai poder até pegar uma corzinha. Se bem que você não precisa, né?

Robinho e Serginho foram informados sobre a prisão do Índio alguns dias depois. Ficaram chocados em saber que aquele fumo tão bacana era proibido. Decidiram que deveriam ajudar o Índio, mas como? Seria difícil conseguir entrar na delegacia, furtar a chave e abrir a porta para o Índio sair da cela. Contudo, a mente inquieta de Robinho não tardou em funcionar. No dia de visita, foram ter com o Índio.

- Índio, onde conseguimos aquele fumo? - perguntou Robinho.
- Se Índio disser, ninguém mais compra a mercadoria do Índio.
- É, mas se Índio ficar preso, também ninguém compra a mercadoria do Índio. - retrucou Serginho - Olha só, nós dois temos um plano para tira-lo daí, mas para isto precisamos saber onde conseguir o fumo.

O Índio explicou-lhes detalhadamente, alertando-os para tomar cuidado com os garimpeiros, que estão dominando a região onde o fumo se encontra. Os jovens se despediram e seguiram, a cavalo, para a floresta, onde tiveram que espancar um garimpeiro até a inconsciência para que conseguissem coletar o fumo, já que o catador de ouro não queria deixar. Voltaram para Só Sebastiana com um quarto de uma mochila cheia.

- Nossa, conseguimos pegar bastante. - disse Serginho - Que tal se a gente fumar um pouquinho antes de executarmos o plano?
- Não desconcentra, Serginho. Primeiro libertamos o Índio, depois nos preocupamos com o resto.
- Poxa, mas foi estressante esta história toda de ir à floresta. Pega cavalo, briga com garimpeiro... também sou filho de Deus, ora.
- Olha, meia noite vou te encontrar no lugar marcado e se você não estiver lá vou te encher de porrada, tá entendendo?
- Positivo. - respondeu Serginho em tom descontraído.
- Vê lá, hein. Meia noite e nem um minuto a mais.

Robinho chegou ao ponto de encontro no horário marcado, onde Serginho já o esperava, contudo, não ficou muito feliz com isto, afinal seu amigo brincava, correndo de um lado para outro e arremessando pedras e pedaços de madeira, com Tody, um cachorro de rua que por ali vivia.

- Serginho, porra! Olha o barulho que você está fazendo, homi! - disse Robinho, em tom irritado, porém sussurante.
- Ih... não se avexe não, só estava brincando com o Tody.
- É, mas todo mundo vai achar estranho você estar brincando com o Tody a esta hora em plena quinta-feira! Vamos logo, antes que todos nos reparem.

Dirigiram-se à venda de Seu João Carlos, que tinha uma frágil porta de madeira, que foi aberta sem grande dificuldade por Serginho, com um ébrio encontrão, que o fez cair no chão do interior do estabelecimento. Tiraram um pouco de fumo da mochila e subtraíram dois maços de cigarro de uma prateleira.

- Ih Robinho...
- Que foi?
- Esquecemos que os maços têm plástico em volta. O Seu João Carlos com certeza vai reparar que eles foram abertos.
- Hmmm... é verdade, não tinha pensado nisto. Bom, agora já estamos aqui.

Cada um pegou um cigarro e esvaziou o fumo que tinha dentro, para colocar o fumo do Índio no lugar.

- Ih Robinho...
- Que foi?
- Ficou tosco.

Qualquer criança repararia que o conteúdo do cigarro que Serginho adulterou fora trocado. O fumo não era capaz de preencher completamente o papel que o enrolava, deixando o cigarro com a consistência de um pastel. O mesmo aconteceu com o cigarro que Robinho adulterou.

- Vamos fazer isto com o cigarro de palha. - disse Robinho - Deve ser mais fácil.
- Os guardas fumam cigarro de palha? - perguntou Serginho.
- Não. - respondeu seu comparsa.

Os dois ficaram paralisados durante alguns minutos no chão pensando o que fazer, até que concluíram que só tinha uma coisa a ser feita. Pegaram os dois maços de cigarro violados e foram para a mesma pedra na qual haviam fumado com o Índio, onde trocaram o fumo tradicional de diversos cigarros, pelo do Índio. Lá ficaram, fumando durante toda a noite. Repetiram isto várias e várias madrugadas, até o fumo acabar, quando retornaram à floresta para pegar mais. Quanto ao Índio, bem, algum dia a pena dele terminaria.


por Renato Amado * 3:22 PM

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[Sexta-feira, Outubro 22, 2004]

Pela Moral e os Bons Costumes

"EXISTEM 3 BI DE MULE NO MUNDO E VC SO COME 1"

O dia mal amanhecera e fui acordado com meu celular apitando. Assustado, levantei num pulo e após esfregar os olhos algumas vezes, consegui ler a simpática mensagem acima que eu havia recebido de um ¿amigo¿. Desliguei o aparelho, coloquei-o sobre o criado-mudo e deitei novamente, a fim de aproveitar as poucas horas de sono que me restavam, até o mugir do despertador. Ocorre que falhei na missão.

Revirei-me na cama até o irritante toque estridente que marca o início do dia. Relógio grande, azul em volta, branco por dentro, com ponteiros pretos, que toca como uma campainha de escola. Maldito despertador! Pela primeira vez no ano eu acordava antes dele. Fiz meu toalete, me vesti e fui para o trabalho. Não parava de pensar nas três bilhões de mulheres. Nunca na minha vida pensei que conseguiria imaginar tanta gente ao mesmo. Asiáticas, nórdicas, latinas, africanas, gaúchas e amazonenses revezavam-se na minha cabeça com impressionante mobilidade.

Cheguei ao trabalho. Não conseguia me concentrar por mais de quinze minutos. Espumava de raiva do meu amigo. Não, não ligaria para ele, pois ele ficaria felicíssimo em saber que conseguiu me transtornar.

Consegui atravessar o expediente sem maiores problemas. O turbilhão mental pouco foi exteriorizado. Embora perdesse a atenção com assustadora freqüência, não tinha muita dificuldade em recuperá-la.

Como estava atolado, fiquei até mais tarde e quando vi-me sozinho não resisti a ligar para o desgraçado.

- #$*&@*$%!! - disse
- Hahahaha! Fica nervosa não, Creuza!
- @#$*&#$%#@#$!!
- Cara, não resisti a te mandar esta mensagem. Estava saindo de um motel e pensei: "cara, essa já é a segunda que como esta semana. Em cinco dias, fiz mais do que o Narrador fez em cinco anos!" Hahaha!
- @#$*&#$@%#@$!!
- Calma, bicho...
- Mas em número de fodas te supero do longe!
- Cara, se esqueceu que durante dois anos e meio namorei uma ninfomaníaca?
- @#*#$)%@#$%#$%# a moral e os bons costumes!!

Bati o telefone na cara do energúmeno!

Saí do trabalho convicto do valor da minha monogamia, estandarte da moral e dos bons costumes. Mas ao passar pelos bares e ouvir o burburinho noturno do Centro da Cidade... não ouvi jeito, naquele mesmo dia abandonei cinco anos de monogamia e pernoitei num motel. Comi o cuzinho do meu amigo.



por Renato Amado * 6:23 PM

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[Sexta-feira, Outubro 15, 2004]

Queria ser um cão

Queria ser um cão. Não por ficar feliz com coisas simples, como a chegada do dono, ou pelo êxito na caçada de menos de dez segundos à bola de tênis, mas pela felicidade obtida em fazer algo que simplesmente não tem objetivo algum: correr. Se der um espaço para o cachorro, ele coloca suas orelinhas para trás e corre. Corre pleno, imerso em total alegria. Naquela alegria tão completa e eterna como a que sentimos numa bela noitada, naquela alegria em que sequer chega-se a pensar "como estou feliz". Não, o sábio de quatro patas simplesmente corre, vindo de onde não interessa e indo parar Deus sabe onde. Ele segue, com a plenitude do Universo toda posta naquela corrida. Não há objetivos a atingir, ele não precisa se preocupar onde foi parar a bola, nem onde está o osso. Segue alheio a tudo, como um déspota que governa sem nenhuma preocupação além de satisfazer seus caprichos, só que naquele momento o cão não é o soberano de um reino, mas do universo, que para ele, por um breve instante, que se configura como se eterno fosse, não passa da sua corrida.

Vozes podem se erguer contra minha tese, argumentando que seres humanos também correm pelo prazer da corrida, mas discordo. Procure alguém que esteja correndo e pergunte porquê o faz. Sempre haverá resposta e se esta existe, é porque não é pelo simples prazer de correr. A única resposta que derrubaria minha tese seria "por correr", mas jamais ouvi isto. Na melhor das hipóteses o sujeito responde: "para liberar endorfina". Pronto, lá foi o racional buscar uma resposta transcooper, transformando seu jogging num mero meio. "Atletas têm prazer em correr", poderiam dizer, meus terríveis opositores. Entretanto, eles vivem (com toda razão, diga-se de passagem) chorando falta de patrocínio, donde conclui-se que correm para competir e ganhar dinheiro, quiçá ficar famosos e com dezenas de mulheres agarradas a cada braço.

Meus caros, sinto muito, mas jamais seremos capazes de fazer o que fazem nossos melhores amigos. Pelo incrível que pareça, nosso avanço evolutivo trouxe revezes e limitações, como a incapacidade de fazer algo sem um porquê. Pensem, o porquê é algo quase onipresente em nossas vidas, quando somos crianças, então, ele é o ponto central da existência. Assim como domina a vida dos que abraçam as ciências exatas, a psicologia, a filosofia... agora, o que eu queria mesmo descobrir é o porquê de eu estar escrevendo isto daqui.

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Se alguém quiser ler o conto seguinte em duas etapas, no meio do conto eu dou a dica de onde parar. Como tenho postado pouco não vou dividir em duas partes.

Seca

Devido às alterações climáticas causadas pelo aquecimento global, o Vale do Rio Preto viu-se vítima de um fenômeno até então inédito na região: a seca.

Seca que seca, endurece, fissura, rasga solo, estômago e coração. Seca que arde, queima, machuca mata, gado e gente. Seca cruel, desumana, inumana. Seca poderosa, avassaladora, onipotente. Onipotente?

- Sem dúvida que há solução, mas e os votos?
- Danem-se os votos!!! Estamos falando de vidas!!! Como pode ser tão vil!?!

E lá foi o bom político encontrar-se com o presidente, frustrado após o fracasso local, rogar-lhe pela transposição das águas do Rio Preto. Voltou para casa com uma promessa, vinda de um homem simpático, carismático e dono de um afável e benevolente sorriso. Contudo, meses mais tarde nem se falara no assunto. E lá foi o bom político despachar novamente com o chefe da nação.

- Por favor, não se irrite comigo...- rogou o supremo mandatário do Poder Executivo ¿ fiz o que pude... ocorre que só em falar em água onde há seca, a base tremeu nas bases.
- E você não lhes explicou que estamos falando de vidas humanas?
- Mas isto eles já sabem muito bem! O que não sabem é como podem garantir seus votos caso o problema da seca se resolva e de nada mais adiante construir bicas e cisternas antes das eleições.
- Simplesmente não me conformo que pessoas tenham que morrer por causa de votos! Numa pátria comandada por gente desta estirpe, os inimigos da pátria merecem ser condecorados!
- Sinto muito... - conclui, encabulado, o presidente da república.
- Não, o senhor não sente. Quem sente são os estômagos dos moradores do vale do Rio Preto. Voltarei para casa com más notícias e os moradores jamais entenderão porquê têm que passar sede e fome enquanto o Rio Preto segue soberbo, ignorando a seca, como se suas águas existissem por si, sem dependerem da chuva. Retornarei a esta cidade no dia em que os inimigos da pátria tomarem o poder.

- Sinto pelo que vou falar, mas espere sentado, meu filho. Se quiser ter algum sucesso na política, jamais se esqueça da máxima: "um por todos e todos por um cargo." Faça uma boa viagem de retorno.

E lá foi o bom político, cabisbaixo, de volta à sua terra natal, onde decidiu colocar a boca no trombone, ou melhor, no megafone. Dirigiu-se à Praça Affonsín Cierón, onde contou seu diálogo com um político local. Iniciava a narração da sua experiência na capital federal, quando foi derrubado por um grupo de guardas, algemado, posto em uma viatura e levado para a D.P. Acusação: difamação. Nunca mais se teve notícia dele. No início dizia-se que estava preso, depois, acabou sendo esquecido.

A situação estava calamitosa na Fazenda Irmandade Fraterna. Devido ao desespero da fome, nos primeiros momentos, alguns viram-se furtando seus irmãos. Num segundo momento, roubando, e num terceiro, matando, a fim de que sobrasse mais comida para suas famílias. Aos poucos a organizada estrutura social desestruturou-se e passou-se a viver num clima de cada um por si. As casas se tornaram verdadeiras fortalezas, a fim de impedir a entrada de ladrões de comida, sempre protegidas por um guarda armado, que podia ser o homem, a mulher ou um dos filhos. A pouca comida obtida vinha da pesca, uma vez que todo o gado já morrera e não havia sequer um pé de feijão que não estivesse murcho. Migrar para a capital do estado era inviável, pois desde o início da seca o preço da passagem de ônibus tornara-se impagável.

Vendo sua mãe definhar e sua irmã capaz de sumir por completo atrás de um poste, João da Silva decidiu que não poderia mais assistir àquele pavoroso espetáculo de braços cruzados. Não tencionava utilizar suas capacidades em assuntos demasiado coletivos, pois, achava ele, isto abriria espaço para que ele próprio começasse a cometer abusos, mas não havia outra opção. Foi de porta em porta, convocando todos os homens da cidade, entre dezoito e sessenta anos, para uma reunião na Praça Central, quando propôs que o próprio povo se encarregasse de realizar a transposição das águas do Rio Preto.

No dia seguinte, centenas de braços trabalhavam juntos, compassada e disciplinadamente, lembrando uma fábrica fordista. A linha de montagem não parava. Noite e dia pessoas se revezavam, a fim de concluir o serviço o mais rápido possível. Eram poucos tratores, muitas enxadas e braços, ritimadamente perfurando a terra e arrastando-a diagonalmente para cima. Mas a mega operação foi suspensa ao fim da primeira noite, quando se notou que a água do rio não penetrava o primeiro sulco escavado.

Desesperado e sem forças, ao ver que seu esforço fora em vão, Severino pôs-se a chorar copiosamente. Caiu de joelhos, com as mãos sobre os olhos e em seguida, sem forças para manter-se sequer nesta posição, despencou no chão, com a barriga para cima, inconsciente. Vários correram para socorrer, deram-lhe água, mas não houve meio de evitar a morte severina.

Todos os demais severinos largaram suas enxadas e, de forma que parecia ensaiada, caíram de joelhos ao chão, esgotados. Aos poucos, foram abrindo mão da vida, transformando a região num imenso cemitério severino. Foi quando um grito interrompeu a seqüência de vidas sendo finalmente eivadas por anos de política mesquinha. Não se tratou exatamente de um grito, mas de um gemido espantado, um grunhido indefinível. Todos olharam na direção de onde viera a exclamação e viram um formato aquoso pendendo no ar. A água, cortada pelos primeiros raios solares do dia, fazia a função de prisma, projetando linhas coloridas atrás de si. Mais uma vez o Rio Preto se comunicava com aqueles que dele dependiam para viver. Mais uma vez queria algo em troca da vida que era capaz de proporcionar.

A água que flutuava formava uma imagem bem conhecida de todos: uma bola com uma cruz que saía de sua parte inferior. O símbolo que representa o feminino.

Enquanto os voluntários contemplavam atônitos o milagre, a água desfez o desenho e caiu normalmente de volta no leito do rio, seguindo a corrente naturalmente.

(se quiser ler em duas prestações, talvez a boa seja parar aqui).

Sim, caro leitor, o previsível ocorre. Trata-se de um caso para o velho cigano Marvin, o Livreiro, que sequer precisou recorrer ao enorme volume que conta a história da região, pois a esta altura já lera e relera tudo.

- Neste rio tem um boto. - afirmou o cigano.
- Sim... - disse João da Silva, curioso.
- Só há o masculino.
- Então precisamos arrumar uma "bota"?
- Não, não se trato de arrumar uma "bota". Vocês precisam é arrumar o lado feminino do folclore de rio.
- Folclore feminino... não consigo me lembrar de nenhuma entidade feminina que freqüente os rios deste país.
- Tem certeza?
- Acho que tenho.
- Pense bem, tenho certeza que você já ouviu falar. Aliás, lembro-me até de ter comentado sobre ela contigo uma vez, há alguns anos. Estávamos exatamente nestas mesmas cadeiras desta mesma livraria.

João da Silva pensou por alguns segundos...

- Estou lembrando... é... ¿iiiii¿ alguma coisa... Iara!
- Muito bem, meu jovem! Sabia que você não me desapontaria. Imagina se um jovem que consegue derrubar uma nuvem em cima de um par de mentecaptos não iria conseguir lembrar o simples nome de uma personagem folclórica? Se bem que...
- Que...
- Que ela sem dúvida representa um perigo muito maior do que aquele cigano e aquele sujeito que enfrentamo. Afinal, ela mexe com o ponto fraco do homem.
- Que é...
- A libido.

João da Silva pegou sua mochila, com equipamentos e provisões, e correu durante cinco dias, sem parar, atravessando o país em velocidade de chita, para chegar o mais rápido possível (e de preferência até impossível) à região onde poderia encontrar Iara. No caminho teve como pano de fundo diversos tipos de cenário: araucária, florestas tropicais, pântano, serrado, vilas, metrópoles, umidade, seca, extravagâncias e miséria. Lamentou-se por não ter tempo para admirar toda aquela diversidade. Chegando à floresta equatorial de destino, afundou pela mata, em busca de alguma tribo que lhe pudesse ajudar a encontrar Iara. Após dois dias de caminhada, durante os quais João não parava de pensar quantas pessoas já deviam ter morrido de fome enquanto ele gastava este enorme tempo para progredir na sua busca, viu uma fumaça ao longe. Correu em sua direção em enorme velocidade, que resultou numa terrível trombada com um agressivo queixada. Mas o perigoso animal ficou estirado no chão um tempo, mais atordoado que da Silva, que sacou o facão que portava em sua mochila e cravou-lhe no peito três vezes. Carregou o corpo do animal consigo. Ao se aproximar da fumaça, notou tratar-se de uma pequena tribo indígena, que vivia numa clareira. Três homens em poucos trajes, sendo um deles jovem com pinturas no rosto, em volta de uma fogueira, assavam peixe. João adentrou a clareira, com o cadáver do animal no colo, dizendo paz, em tupi moderno. Contudo, foi ingênuo em imaginar que dentre tantas línguas existentes entre os índios daquela região, aquela tribo falaria justamente a por ele conhecida. Os três homens levantaram assustados, o de pintura no rosto sacou uma faca de um coldre improvisado que consistia de um nó na linha da cintura feito com o tecido sobrante da pequena canga que vestia. João ajoelhou-se, com o rosto para baixo, colocando os braços para frente, oferecendo o animal morto. Os índios hesitaram, até que o mais jovem abaixou-se, pegou o animal e o colocou ao lado da fogueira. "Iara, Uiara!", disse João da Silva. O mais velho dos homens franziu o cenho e disse alguma coisa para o rapaz de rosto pintado. Este, então, aproximou-se de João da Silva, fazendo sinal para que o seguisse. Caminharam por cinco minutos, junto com os outros dois, até chegarem à beira de um enorme rio, onde foi oferecida uma canoa com um remo a João. Este, agradeceu entregando um pouco de carne seca que tinha como provisão em sua mochila e seguiu rio abaixo.

Navegou durante toda a manhã e parte da tarde sem que nada visse, até que, pelo fim do dia, começou a ouvir um encantador canto de mulher. A voz era espectralmente bela, ao mesmo tempo assustadora por parecer não pertencer a este mundo, mas maravilhosamente aprisionadora e atraente. João seguiu em sua direção. Ela cantava algo ininteligível, mas de beleza sobre-humana. O maricá rio pretense navegou, hipnotizado, em sua direção. Quando já estava bem próximo lembrou-se da sua missão e das palavras do cigano sobre o perigo que representava aquela entidade a qualquer homem, de modo que conseguiu sair temporariamente do transe. Mas sua força de vontade não resistiu à visão de uma linda mulher entre pedras havidas na beira do rio, com pele de cabocla, olhos verdes e traços europeus, metade do corpo submerso e a outra metade desnuda, penteando seus lindos cabelos loiros com uma escova dourada e cantarolando.

A visão e a música mágica que dela emanavam, fizeram João seguir com a canoa em sua direção, alheio a tudo mais, inclusive às próprias pedras, com as quais veio a chocar-se, quebrando a proa da canoa. O amigo de Marvim caminhou entre as pedras até chegar ao mais belo ser que já vira em toda sua vida. Ela estava entre pedras, numa espécie de pequena piscina natural, onde cabiam dois corpos apertados. João passou-lhe a fazer companhia naquele pequeno espaço. A moça, ainda com o pente na mão direta, passou seus braços em volta do pescoço do rapaz e beijou-lhe a boca. O beijo era terno, mas despertava uma lascívia tão descomunal que chegava a paralisar. João deixou-se beijar por algumas dezenas de segundos, quando sentiu um puxão na perna e foi levado para debaixo d' água. Preso num rabo de peixe, deixou-se afundar rumo ao desconhecido. Estava extasiado e o mistério o excitava. A falta de ar, graças ao poder de sua mente, não o causava problemas, pois já há algum tempo, havia aprendido a prescindir de respirar caso necessário. Mas resistir aos encantos de Iara necessitava de uma mente ainda mais forte do que para livrar-se da necessidade por ar.

Foi levado para um castelo de pedra, no fundo do rio. Cheio de protuberâncias e irregularidades, coberto por musgos, corais e outras plantas aquáticas, o castelo era dotado de uma beleza exótica e singular. Comparado aos grandes castelos europeus era diminuto, mas sem dúvida encantava mais que Verssailles. Ela arrastou-lhe para dentro da construção por uma janela, que como todas as demais, não passava de um buraco retangular na fachada. Deitou-o sobre a cama e o amou.

Durante uma semana João da Silva viveu uma vida de sonho, com sua namorada-entidade, enquanto sua mãe e muitos amigos secavam, dando origem a novas covas. João vivendo na água, sua mãe morrendo sem água. Logo que sua genitora faleceu, ele acordou do transe. Precisa levar Iara para o Rio Preto. Mas como?

Numa das inúmeras vezes em que nadavam, enquanto faziam brincadeiras amorosas, João foi se dirigindo em direção ao mar, com sua amante em sua perseguição. Adentraram a água salgada e o rapaz continuou nadando, fugindo infantilmente de sua namorada, como fariam duas crianças. Nadou, nadou, nadou durante muitos e muitos dias, costa abaixo, até chegar ao Delta do Rio Preto, quando, então, deixou-se alcançar e mais uma vez amou Iara.

Terminada a cópula, a mulher-peixe começou a nadar para fora do Rio Preto, em direção ao mar, a fim de retornar ao seu castelo, mas quando ia atravessando o delta, uma forte corrente projetou-a no sentido inverso. Tentou sair mais algumas vezes, mas o fenômeno invariavelmente se repetia, ao mesmo tempo em que as águas do Rio Preto começavam a banhar os canais com tanto esforço escavados.




por Renato Amado * 12:53 AM

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[Quinta-feira, Outubro 07, 2004]

Terrível Mania

Fui acometido por uma terrível mania: todos que vejo imagino trepando. Não passa um rosto por mim sem que eu o imagina trincado de prazer. Se algum dia eu vejo este rosto refletindo um esforço que a pessoa faz, então... ah, daí minha imaginação nem precisa trabalhar muito. Afinal, como um homem experiente, sei que a expressão dos que trepam é como a dos carregam pesos. Isto expõe toda a intimidade dos estivadores. Se você quer entender bem o que digo, vá a um porto e passe meia hora observando os estivadores a trabalhar. Em seguida, assista um pornô amador. Sim, tem que ser amador, pois os profissionais fazem a cara que o diretor manda, não agem naturalmente.

Contudo, toda regra tem sua exceção. Existem aqueles que ao trepar, adotam a mesma expressão de quando estão concentrados. Para saber se o sujeito é daqueles que ao trepar faz a mesma cara que ao carregar peso ou dos que trepam e se concentram com a mesma expressão, deve-se utilizar a observação e o bom senso. Por exemplo, me parece óbvio que as pessoas que quando estão concentradas ficam passando a língua sobre os lábios, como uma criança, não adotam este tipo de expressão ao trepar, o que seria deveras broxante. Outras pessoas, quando estão concentradas, trancam o rosto, colocando o maxilar inferior para a frente, contraindo o lábio para trás e deixando a arcada dentária superior exposta. Estes cidadão, provavelmente, adota a mesma cara ao trepar, afinal, esta expressão denota tensão e trepar é algo extremamente tenso. Não tenso no sentido negativo da palavra, mas no sentido morfológico, que denota grande intensidade. Ora, uma trepada é um momento bastante intenso, tal qual os de concentração ou os de esforço físico.

Isto me leva a concluir que não existe exatamente uma cara de trepada, mas uma cara de tensão. Por isto podemos perfeitamente saber qual a cara que uma pessoa faz ao trepar, analizando seu rosto nos momentos intensos. Pronto, agora você pode matar a sua curiosidade de saber se aquela sua vizinha tímida, quieta e mansa faz cara de cachorra na cama.


por Renato Amado * 6:07 PM

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