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[Sexta-feira, Novembro 26, 2004]
As insignificantes opiniões literárias do Amado
"Lolita", romance de Vladimir Nabukov (ou algo perto disto) - trata-se de um ótimo romance, narrado em primeira pessoa, que narra a história de como um intelectual veio a se apaixonar por uma ninfeta. Nenhuma elocubração é escondida do leitor, permitindo que vejamos o protagonista não como um cara mau, mas como uma pessoa que trabalha dentro de outra lógica. O livro bate de frente com conceitos como "mau" e "bom" e nos mostra como talvez o que exista são diferentes formas encarar o mundo. Acho que o filme "Fale com Ela" mostra muito bem isto. Alguém diria que aquele rapaz que estuprou é menina em como é um monstro, como o que vendo o corpo da protagonista em coma de Kill Bill? Enfim, o livro nos ajuda a tentar compreender melhor a mente alheia antes de taxar as pessoas com adjetivos que parte de conceitos culturais que nem sempre são compartilhados por mentes doentias. O livro é grande e sinceramente acho que poderia ter umas trinta páginas a menos, que seria perfeito. Mas continua sendo muito bom e recomendo.
por Renato Amado * 2:08 PM
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[Terça-feira, Novembro 16, 2004]
Experiências espiritualmente provundas - ainda sob a influência de um certo Charles...
Missa de 7º dia da diretora do colégio onde estudei primário e ginásio. Ótima oportunidade para resolver algumas pendências. Canivete no bolso, camisinha na carteira, lá fui eu.
Antes da missa, pessoas que há muito não se viam ficam felizes em se rever, contudo, a etiqueta não permite grandes sorrisos e abraços alegres. Encontro minha velha e interrompida inimizade. Um breve e seco aperto de mão. Vamos ao ¿Glória Aleluia¿.
Terminadas as sessões de reza, os velhos amigos decidem tomar um chopp na Cobal. Vou junto, assim como minha namoradinha de quinze anos atrás e meu velho rival. Sento-me entre os dois. Sorrateiramente coloco meu braço por trás da cadeira da velha amada, enquanto aproximo meu rosto. Quanto estou quase conseguindo o beijo de língua que fora negado anos antes ("de língua só depois dos dezoito"), meu inimigo me cutuca pedindo um cigarro de bale. Maldito! Todos sabem que detesto cigarro de bale! Isto é fumo de maricas, de cara que quer tirar ondinha! Cigarro de mauricinho, de playboy, almofadinha! Respeito mais quem me pede um Carlton.
- Não fumo - disse.
- Você não fuma?
- Não cigarro de maricas.
- Ih... cigarro de maricas... qual é a tua cara?
Pronto, era a oportunidade que eu esperava. Levantei-me da mesa, armando o canivete e chamei o indivíduo para cair dentro. Ele hesitou, mas levantou. Quando avançou, cravei-lhe a lâmina na barriga. Quando ele se curvou, com as mãos no abdome, levantei sua cabeça e cortei-lhe o pescoço, causando um derramamento de sangue a la Kill Bill. Puxei a cachorra que tentava pegar pelo braço e corri para dentro do carro. Para minha surpresa ela gostou do meu ato.
- Nossa, que excitante!
- Gostou boneca?
- Nossa, que excitante!
- E aquele beijo de língua que você me devia? Agora você já é maior de dezoito.
Ela enfiou a língua na minha boca, enquanto eu acariciava sua xota.
- Nossa, que excitante! - ela disse.
- Vamos para um motel?
- Nossa, que excitante!
Seguimos para o motel Panda, próximo dali. Este motel tem duas peculiaridades: é caríssimo; o período dele é de doze horas, não aceita menos. Entramos. Arranquei sua camisa, rasguei seu sutiã e tirei sua saia em um átimo. Atordoada, ela tentava arrancar minha roupa, mas ao ponto de excitação em que se encontrava, sequer tinha coordenação para tal. Despi-me, então, deitei-a na cama e comecei a chupar seus mamilos.
- Nossa, que excitante! - ela disse.
Beijei e mordi seu pescoço, lambi sua orelha, apertei sua bunda e meti. Foram dez minutos de estocada, em variações de papai e mamãe, tais como frango assado e "T". Mas este foi apenas o primeiro de cinco coitos.
Ocorre que tenho um sério problema. Enjôo das xotas com incrível rapidez, de modo que a quarta caralhada, forçosamente, teve que ser pelo cu e sem preservativo, pois levara apenas três. Bom, meus caros leitores, é aqui que começa a parte surreal da história.
Estávamos fazendo um clássico e até monótono sexo anal, quando após um ronco vindo do ânus da minha parceira, ocorreu uma alteração de pressão e nada mais se movia. Nem mais para dentro, nem para fora. Eu forçava, mas não conseguia retirar ou meter sequer um milímetro. Só havia uma saída: emergência do Miguel Couto.
Nos enrolamos num lençol de casal e entramos no carro. Eu cuidando dos pedais e da marcha, enquanto ela se responsabilizava pelo volante. Num dado momento, ela teve que fazer uma brusca manobra para não bater em um carro que avançara o sinal, quase nos abalroando.
- Só me faltava levar uma batida agora. - eu disse.
- Nossa, que excitante! - ela respondeu.
Minha parceira parecia estar gostando da brincadeira, talvez porque ela não fosse professora em uma faculdade de medicina.
Chegando à emergência, ocorreu o que eu mais temia.
- Professor! O senhor por aqui!
Pensei na minha carreira, dei meia volta e decidi procurar outro hospital. Fui para o Padre Severino, na Barra da Tijuca. Nenhum aluno desta vez.
- Doutor?
- Sim?
- Estamos com um problema um tanto o quanto delicado e provavelmente inédito.
- Pois não.
- Bem, é que... houve uma um problema de pressão, criando um vácuo e... bem, acho que o senhor já compreendeu.
Ele fez uma cara de interrogação, olhando para nossos corpos, dispostos um atrás do outro e enrolados num lençol, como quem diz: "é isto mesmo que eu estou pensando?"
- É, doutor, é isto mesmo que o senhor está pensando.
Ele tirou o lençol e inseriu um catéter no orifício da minha namoradinha.
- Ai! - eu disse.
- Nossa, que excitante! - ela disse.
Respirei aliviado, cobri-me, junto com minha parceira, no lençol e fomos até o carro, onde comecei a vestir-me. Eis que ela exclamou.
- Pera aí, mas nós não terminamos!
Bom, pelo menos desta vez ela mudou a frase. Merecia algo por isto. Qual era o mau? Afinal, um raio não cai duas vezes no mesmo lugar. Roguei-a para que não peidasse e comecei a meter.
por Renato Amado * 6:10 PM
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[Quarta-feira, Novembro 10, 2004]
Sansara, a cobra e a política
Sansara já não mais suportava esta encarnação. Sempre odiara cobras. Todos, na alta cúpula celeste, sabiam de sua repulsa por este animal. Aliás, ter transparecido este tipo de fraqueza foi, sem dúvida, um grande erro.
A política celeste é ainda mais agressiva que a terrena. Cá, neste plano em que nos encontramos, quando um grupo atinge o poder, trata o rival de forma amigável, na esperança de que este dê-lhe uma ajuda, ao menos nas questões mais cruciais. Já no plano além-nuvem, inimigos políticos dormem e acordam, todos os dias, odiando-se.
Quando a Frente Almas Liberais Terrenas tomou o poder, após duas eras na oposição, vingou-se, com extremo vigor, dos antigos situacionistas. Vários membros de terceiro e segundo escalão foram reencarnados em seres desprezíveis, destes que fazem a alma regredir, tais como vermes, piolhos e protozoários. Já os pertencentes ao primeiro escalão do Governo Celeste foram reencarnados em seres de vida mais longa, para que fossem mantidos durante um maior período distantes da política sobrenatural, mas incapazes de uma boa comunicação como os papagaios. Deste forma, o ótimo trabalho de organizações como o Projeto Tamar foi de grande serviço para os novos governantes dos céus. Certo é que dentre cada mil tartaruguinhas recém-nascidas, apenas uma ou duas chegam à idade adulta, mas isto não era nenhum problema para os novos donos do poder, afinal, sem dúvida alguma, as sobreviventes eram as ocupadas por espíritos antigos e poderosos.
Cobras não são tão longevas como tartarugas, mas têm uma capacidade de comunicação muito limitada, o que dificulta que uma alma já tão evoluída como Sansara faça algum proveito de tal encarnação.
Chacrinha era, sem dúvida, uma alma evoluída, pois a evolução dá-se através, principalmente, da comunicação, de forma que almas mais experientes, para continuarem no seu processo evolutivo, necessitam de uma intensa comunicação. As almas mais jovens costumam encarnar em animais simples ou vegetais, pois, primeiro, dá-se a comunicação com o mundo. Quando este é enfim compreendido, passa-se, então, à etapa mais complexa: entender os seres que nele habitam. Esta compreensão dá-se pela observação e pela comunicação, de modo que "quem não se comunica, se trumbica", ou seja, não evolui.
Encarnar como cobra é o sonho de toda alma jovem. O sexto sentido do qual este animal é dotado proporciona uma compreensão de mundo que nenhum outro ser é capaz de ter, contudo, Sansara há muito já ultrapassara este estágio. Para que o leitor possa entender como nossa protagonista sentia-se, só vislumbro uma analogia terrena capaz de ilustrar bem o caso: imagine um mestrando obrigado a ter que freqüentar, durante um ano, uma turma de alfabetização. Certamente aquela encarnação seria inútil para Sansara.
Entretanto, durante suas rastejâncias de réptil, Sansara deparou-se com algo familiar. Viu um humano que reconheceu. Neste momento, apesar de jibóia (ao menos, no processo de encarnação, Sansara conseguiu desviar-se para o corpo de uma cobra imponente), teve dois sentimentos extremamente humanos: desprezo e ódio. Estava a ponto de atacar o maldito, quando este entrou em um jipe.
Aquele sentimento inerente apenas a humanos e almas desencarnadas inquietou a cobra, dando um nó na sua psique, até então quase inexistente. Sansara passou dias e noites rastejando, inquieta, de um lado para outro, sem dormir. Tentava, involuntariamente, compreender o que ocorrera ao ver aquele homem. Eis que, de súbito, uma imagem veio à sua cabeça: a alma que ocupava aquele corpo, sobre um palanque celeste, dizendo que, após milênios de retrocesso, nas mãos dos miseráveis idealistas do atraso, o mundo voltaria a progredir, tal qual na Grécia Antiga.
Não era qualquer alma, principalmente na forma de uma cobra, que conseguia lembrar-se de um fato celeste. Estava escancarada a incompatibilidade havida entre a alma Sansara e a primitiva jibóia. Ela necessitava de um corpo humano e sabia disso.
Plenamente ciente da sua condição de alma reencarnada, Sansara sabia que suicidar-se não adiantaria, uma vez que, com seus inimigos no poder, não reencarnaria em melhor condição, salvo uma grande evolução nesta encarnação, o que faria com que ela retornasse ao cenário celeste com muito mais poder e influência. Deveria descobrir um meio de trocar de corpo com a alma rival que encontrou durante suas rastejâncias. Como alma antiga e uma das mais poderosas e sábias existentes, sabia que nada era impossível, mas difícil ou dificílimo. Bom, atingir a consciência da sua condição de alma e lembrar-se de fatos do além já era algo praticamente inalcansável. Fazê-lo na forma de um réptil, então, era inédito, mas Sansara foi capaz. Sentia-se, agora, no seu auge, mais nada lhe parecia impossível. Mas como prosseguir?
Sansara rastejou, rastejou e rastejou, durante muitos dias, pensando, até que, mais uma vez, deparou-se com uma alma conhecida e novamente um sentimento humano atacou-lhe: ternura. Era Cristóvão, uma poderosa e antiga alma, de espírito aventureiro, que gostava de longas encarnações. Envolvia-se com a política celeste, mas abaixo do que seu poder permitiria. Era conhecedor de profundos mistérios, desbravador do mundo e a alma de maior IEPE (Índice de Evolução Por Encarnação). Estava num corpo muito velho, já curvado, utilizando bengala e a esta altura da sua encarnação, poderosa como era, provavelmente já tomara consciência do mundo celeste. Sansara aproximou-se lentamente, para evitar um susto. Não chegou por trás, mas pela frente, com a cabeça erguida, na esperança de que Cristóvão a reconhecesse. Este franziu o senho e observou-a, com a bengala erguida, por precaução. Ambos estáticos, a enorme jibóia e o velho, durante vários minutos, nenhum se movia; três metros os separavam.
- Sansara? - indagou o velho.
A jibóia consentiu com a cabeça.
O velho abriu um largo sorriso e disse:
- Oh, minha querida! Que saudade, como quero abraçar-te e te cumprimentar, mas não faço idéia de como se abraça uma cobra.
A jibóia andou em sua direção e começou a enroscar-se em seu corpo, como faz para matar suas presas, por sufocamento. Após enroscá-lo dos pés ao peito, soltou-o.
- Bem pensado - disse Cristóvão - venha, porque não entra um pouco, para conversarmos mais a vontade?
Saíram do quintal da casa do velho e abriram uma porta que dava para um livraria repleta de livros antigos, com tapete verde, um abajur feito de osso de tigre e pele de lhama, algumas pequenas mesas e cadeiras de madeira, numa das quais uma senhora já velha, porém ao menos uma geração abaixo do velho, estava sentada lendo e tomando um chá. Ao ver aquela enorme cobra adentrando a livraria junto com seu marido, a velha, assustada, deu um pulo da cadeira, levantando esta com as mãos para proteger-se.
- Calma, minha velha, esta é uma antiquíssima amiga.
A velha fez uma expressão de profunda interrogação, mas como não duvidava de mais nada vindo do seu marido, sentou-se na cadeira e retomou sua leitura.
- Vamos, amiga, vamos lá para o quarto, para não assustarmos os poucos fregueses que de vez em quando aparecem. - disse o livreiro.
Subiram, então, uma escada tosca, composta por velhas tábuas de madeiras, que dava para um sótão, com um colchão de casal, um abajur e uma pequena pilha de livros ao lado deste. O velho sentou-se no colchão, encostando suas costas na parede oposta à entrada, utilizando dois travesseiros para permitir maior conforto. Sansara foi para a extremidade oposta ao colchão, onde utilizou todo o cumprimento do quarto para espichar seu enorme corpo.
- Então, minha cara, em que posso lhe ajudar? - indagou o livreiro.
O diálogo entre um velho humano e uma jibóia, embora surrealista, transcorreu muito bem. Bastava Cristóvão olhar para os olhos de Sansara que compreendia o que esta queria dizer. Ela explicou-lhe o que ocorrera e o que desejava fazer, indagando-o, por fim, se ele sabia como realizar esta complexa operação.
- Sei. - respondeu o velho.
Alma conhecedora dos grandes mistérios do mundo, uma das mais evoluídas de que se tem notícia, Cristóvão explicou a Sansara como proceder.
Durante a madrugada, a cobra se dirigiu ao local onde vira o espírito rival, na companhia do velho. Tratava-se de uma fazenda, a poucos quilômetros da cidade. Cristóvão abriu, cuidadosa e silenciosamente, a janela, permitindo que Sansara rastejasse para dentro; ele entrou atrás. Viram-se numa grande sala, com lareira, cadeiras de madeira com tiras de couro escura onde se podia sentar, sofás, poltronas, uma enorme mesa de jantar, com cadeiras suntuosas. Tudo quanto possível de madeira e o que não era composto por este material, possuía cores que o imitavam. Havia uma porta de correr, que preferiram não abrir, uma vez que a obviedade indicava não ser ali o quarto. Subiram, então, uma escada de madeira, produzindo um certo rangido. O segundo andar contornava a escada e era composto por diversas portas, talvez dez. Sansara, aproveitando seus sentidos de cobra, foi capaz de descobrir quais os cômodos ocupados. Eram dois. Escolheram um aleatoriamente e tiveram sorte. Ao abrir a porta, viram o prefeito de Maricá do Rio Preto, encarnado por um espírito inimigo de Sansara e Cristóvão, acordar de sobressalto, abrindo uma gaveta do criado-mudo, a fim de sacar uma pistola. Sua mulher, que dormia ao lado, também levantou assustada. Contudo, antes que o prefeito pegasse a arma, o livreiro, capaz de relativizar o tempo, deslocou-se andando, na sua realidade temporal lentamente, apoiado na sua bengala, até a o local onde seu inimigo estava e deu-lhe uma forte bengalada na cabeça, jogando-o de volta para a cama. Em seguida, ainda com a vantagem do tempo correr a seu favor, deu mais três pauladas na cabeça do prefeito, levando-o a nocaute, enquanto sua mulher se espremia numa extremidade do quarto, amedrontada. Sansara dirigiu-se ao rival nocauteado, enquanto o velho imobilizava a primeira-dama municipal. Aquela, então, começou a deslizar sobre o corpo imóvel, de barriga para cima, sobre a cama, do prefeito, até chegar à sua boca, quando, então, começou a entrar pelo seu corpo, saindo pelo ânus. O homem permaneceu inerte e inconsciente enquanto a gigantesca cobra o penetrava. Quando esta saiu completamente, o prefeito acordou sobressaltado e se afastou da cobra, com sua integridade física milagrosamente intacta. Ele, então, segurou a jibóia pela cabeça, enquanto o livreiro, dilatando o tempo, levou o jipe do prefeito para a porta da casa. Cristóvão subiu as escadas, ainda fazendo uso de suas habilidades com o tempo e ao chegar ao quarto, ajudou o prefeito a segurar a jibóia. Desceram as escadas segurando o animal e colocaram-no dentro do porta mala do jipe. Dirigiram durante toda uma tarde, a princípio por estrada de terra e em seguida, pelo mato. Só, então, soltaram o animal e retornaram à cidade.
Sansara, agora conhecida, no plano terrestre, como Prefeito ou Seu Bonjardim, acabou com as políticas clientelistas e não conseguiu ser reeleita. Sem dúvida esta passagem terrena será de grande valia para ela pois, desde já, aprenderá as artimanhas da vida de oposicionista.
Obs.: foi sem lisérgicos, eu juro!
Bom, depois deste conto totalmente viajante, que tal um pouco de crítica literária. Afinal, se este é um blog literário, porque não falarmos sobre a literatura, afinal, sem ela isto daqui não existiria. É isto aí, esta inaugurada a seção As insignificanes opiniões literárias do Amado. Vamos lá.
Começo pelo fim, ou seja, pelo último livro que acabei de ler: Numa Fria, de Charles Bukowski.
Bukowski é o típico cara que quer saber de álcool e fodas, para usar um linguajar bem típico dele. As palavras xoxota, foda e uísque são as mais utilizadas no livro, além de um blasé "tudo bem". Este livro é de contos e embora o nome dos personagens seja trocado a cada um deles, embora alguns se repitam, são todos os mesmos, o próprio Bukowski. Este cidadão me gera, simultaneamente uma certa admiração e repulsa. Admiração por ser capaz de dizer "tudo bem" ou "entendo" frente a notícias catastróficas, como, "sua irmã foi estuprada". Serenidade 100%. Contudo, esta postura "foda-se" denota um certo egoísmo, tipo, a onda é curtir a vida e foda-se! Ora, as vezes me pergunto qual a diferença entre o playboy e o boêmio alternativo que passa a vida inteira curtindo com pouco dinheiro. Não sei, mas sei lá por que este segundo me atrai um tanto e confesso que dentro de mim há um Bukowski. Sem dúvida que ele é apenas uma fração de mim, mas lá está e atualemente mais forte do que nunca.
Bukowski usa um vocabulário simples e repete muitas palavras. Pode-se até dizer que há uma certa pobreza vocabular. Os contos dele são essencialmente divertidos, além de mostrarem um estilo de vida que pode ser atraente. Assim como o filme Cazuza, Bukowski influencia, para o bem ou para o mal. Digamos que o cara era um filho da puta legal.
Se alguém pensa em ler, recomendo a leitura. Pocketbook, lê-se rápido, literatura leve. O livro é repetitivo, as personagens e situações não variam tanto, mas como é pequeno, tá tranqüilo. Não leria um livro de 300 páginas escrito por ele.
Para manter o clima bukowskiniano, beijundas, beicetas e boas fodas a todos.
Ah, confesso que escrevi um conto totalmente influenciado pelo sujeito. Se alguém quiser vislumbrar um pouco do estilo, leia o post "Pela Moral e os Bons Costumes". Meu estilo de escrever é bem diferente do dele, mas o conteúdo dos contos dele é levemente semelhante ao deste.
por Renato Amado * 7:05 PM
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[Segunda-feira, Novembro 08, 2004]
Metrossexualismo de Rincão
Desta vez os ciganos chegaram a Só Sebastiana trazendo cosméticos e afins, comprados em camelôs italianos, mas sempre contendo o nome "Paris". Beatriz se apaixonou pela "loção cremosa para as mãos", Lurdes comprou cinco frascos de "creme para celulite", Gilda adquiriu todas as "loções para escovação pós-banho de cabelos secos e cacheados, suavemente claros". Cláudia, por sua vez, acabou comprando barato todos os frascos de "shampoo de camomila para clareamento de cabelos lisos, normais, compridos, sem ponta dupla, jamais pintados, para mulheres decididas." O bom preço foi porque Cláudia era a única habitante da cidade que se enquadrava em tais especificações. Embora Lídia tivesse cabelos lisos, normais, compridos, sem ponta dupla e jamais pintados, ela ficou em dúvida entre o produto em questão e "condicionador 2 em 1 de aloe vera, aromatizado por algas, para cabelos normais." Como aquele produto, em suas especificações, exigia que a mulher fosse decidida e Lídia ficou em dúvida sobre qual dos eau de toillete adquiriria, comprou este.
Serginho decidiu indagar aos ciganos se aqueles produtos o deixaria semelhante aos atores de T.V. Diante da resposta afirmativa, foi o primeiro homem do Vale do Rio Preto a engajar-se no mundo dos cosméticos. Comprou um ¿creme facial para peles oleosas¿.
Robinho assustou-se ao ouvir a justificativa do atraso do amigo para um compromisso marcado.
- Tava ficando igual aos cabras da T.V.
- Como?
- Passei este creme aqui, olha. Ele melhora a sua pele, deixando você pintoso como os cabras da televisão. Comprei com os ciganos, acho que eles ainda têm mais. Você vai ver, em três meses eu vou estar pegando todas as cocotas desta cidade, haha.
- E quem te disse que isto daí funciona?
- Os ciganos.
- E você confia nestes cabras!?!
- É que vi um produto igualzinho a este na TV, que dizia que acabava com as espinhas e equilibrava a oleosidade da pele, deixando a pessoa muito mais atraente.
- Ah, você viu um igual na TV!?! - excitou-se Robinho.
- Isso.
Robinho ficou pensativo durante alguns segundos, com a mão no queixo, e então, disse:
- Espera um pouquinho aí, que vou comprar um igual.
Robinho, então, comprou o seu "creme facial para peles oleosas" e em seguida, tentou convencer Ricardinho a fazer o mesmo.
- Vamos lá, cara, esta é a sua chance de sair desta foça!
- Não me apoquente não, homi!Cuida lá dos seus que eu cuido cá dos meus! Já falei que não ponho mais a cara na rua.
- E seu eu trouxer um pra você, você usa?
- Aí posso pensar.
- Sua pele é seca ou oleosa?
- Cumé?
- Sua pele é seca ou oleosa?
- E eu sei lá que diabos é isso!?!
- Quando você passa a mão no seu rosto, ela fica assim... como eu vou dizer... meio brilhando, engordurada?
- Brilhando fica a mão da minha mãe, quando ela passa esmalte.
- Não, o esmalte é só na unha. Tô falando assim... se seu dedo, na parte que você esfregou no rosto fica brilhando?
- Meu dedo mesmo que não. Coisa mais esquisita, dedo que brilha! Nunca vi isso.
Diante da resposta do amigo, Robinho elaborou um diagnóstico sobre as qualidades da pele de Ricardinho. Então, deu-lhe de presente um "creme facial para peles secas, sensíveis e pouco porosas". Pronto, pensou, agora o Ricardinho vai deixar de lado este negócio de não sair de casa porque é feio. Só porque ele é completamente diferente dos moços da televisão? Pois agora ele vai ficar idêntico. Se bem que o caso dele é grave... acho melhor eu levar também esta "tinta de clareamento" e este "alisador de cabelo elétrico", além é claro desta cera quente, para ele depilar os pêlos do peito, porque ator jovem de TV nunca é muito peludo. Ah, sim, um pó de arroz também cai bem, assim como este lápis para dar um retoque na sobrancelha, deixando ele com um rosto um pouquinho mais imponente. Deixa eu ver o que mais... hmmm, acho que um creme para as mãos vai cair bem, afinal o Ricardinho tem a mão dura e cheia de calo. É, mas já que estou cuidando dos calos da mão, acho que posso fazer o mesmo com os dos pés. Uma lixa para o pé resolve este problema. Um gel para ajeitar o cabelo, depois de alisado, também é uma boa. Vai sair caro, mas faço isto por um grande amigo.
Chegando à casa onde Ricardinho morava com sua mãe e sua irmã mais nova, Robinho entregou as compras ao amigo e deu-lhe um forte abraço, rogando por melhoras e coragem e lhe garantindo uma nova vida após o uso dos produtos levados. Foi embora na certeza de que, em breve, o amigo de infância sairia da vida reclusa, oriunda de um trauma adquirido após ouvir da menina pela qual era apaixonado que ele não a interessava, por ser "um caboclo pixaim, diferente de qualquer homem que a gente vê nas novelas". Este golpe atingiu Ricardinho até o fundo, penetrando no terreno obscuro do cérebro humano, levando-o a um estado semelhante à loucura que o prendia em casa até então. Convencido de sua feiura frente aos padrões vigentes, Ricardinho decidiu não mais incomodar aos demais olhos e trancou-se, de uma vez por todas, na casa de seus pais, onde apenas estes eram obrigados a tolerar aquele rosto terrível e, mesmo assim, Ricardinho os poupava o máximo possível, olhando sempre para baixo, tentando manter escondida a maior parte de sua fisionomia. Os únicos que recebia em seu quarto eram Robinho e Serginho, mesmo assim, com muita má vontade. Mas aqueles produtos traziam uma esperança.
Cabelo liso e loiro, pele branca de pó de arroz, Ricardinho transformou-se num novo homem. Saiu à rua pela primeira vez, após anos, irreconhecível. Os locais perguntavam-se quem devia ser aquele forasteiro. Alguns diziam que era o fantasma de Affonsín Cierón, que viera assombrar alguns antigos rivais. Segundo diziam, depois de morto o sujeito ficava com a pele pálida e muitas vezes até o cabelo clareava. Contudo, muitos argumentavam que não haveria nenhuma razão para Affonsín ter, na forma de assombração, o cabelo curto, se cultivara longas madeixas durante toda a sua vida. Um consenso pairava, entretanto, sobre uma questão: definitivamente, aquele não era Ricardinho. Os nativos não entendiam por que aquele ser, fosse ele fantasma ou forasteiro, insistia em dizer ser um sujeito que tinha aparência oposta. Todos suspeitavam muito dele, tinham medo e preferiam manter distância, mesmo que os amigos Robinho e Serginho insistissem que o Fantasma era mesmo Ricardinho.
Sequer a mãe e o pai do rapaz podiam acreditar tratar-se de seu filho, mesmo com a identidade de vozes. Ricardinho poderia resolver o problema simplesmente tomando um banho de mangueira na frente de todos, retirando o pó de arroz do corpo, mas preferia ser desacreditado a voltar àquela antiga e tenebrosa aparência de caboclo pobre, com cabelo ruim de negro. Ao menos ainda conservava os dentes, mas a identificação da sua figura com raças excluídas, inferiores, era insuportável. Por mais que Serginho também tivesse a pele escura, ele era um mulato forte e vigoroso, destes que vemos em desfiles de escola de samba. Embora escuro, os traços de Serginho eram de europeu. Nada de beiço grande e nariz arrebitado de porco. Serginho era o típico negro que o establishment dizia bonito, a fim de convencer a plebe de que não havia racismo, mas omitindo que apenas o considerava bonito porque, apesar de negro, possuía traços europeus. Mas Ricardinho não era assim. Tinha pele de caboclo, traços de caboclo e cabelo de preto pixaim. Era o pior resultado possível da miscigenação racial havida nesta terra. Era preferível ser uma incógnita temida, mas de aparência tolerável, a retornar ao velho estado de resumo negativo da nação. Quando saía do banho, Ricardinho só se olhava no espelho após passar o pó de arroz no corpo.
Embora nunca tenha-se chegado a um consenso se Ricardinho era ou não o espectro de Affonsín, por não haver termo melhor para designa-lo, passou a ser conhecido como Fantasma. A palidez da pele, conferida pelo pó-de-arroz, reforçava o codinome. Mas Ricardinho não se incomodava. Sabia que a bela Zulmira gostava dele, mas que apenas o desprezara anos atrás devido à sua aparência repugnante. Ao conversar com ela, a empatia de outros tempos retornaria e Zulmira apaixonar-se-ia pelo Fantasma. O casamento dela certamente dera-se por pressão dos pais, pois não restam dúvidas que Ricardinho era o homem de sua vida, apenas rejeitado por uma questão física já superada. Zulmira não pensaria duas vezes em largar seu marido para ficar com seu verdadeiro amor.
Durante um ano, o Fantasma vagou pela cidade, esperando que a ansiedade diminuísse, pois tinha medo que esta destruísse todos os seus planos, quando ele fosse abordar sua amada. Contudo, notando que tal fato jamais ocorreria, Ricardinho não teve outro opção, senão abordar seu amor, mesmo com os nervos a produzirem descargas elétricas superiores a de uma tempestade de verão. Ele sabia todos os horários dela. Enquanto Zulmira retornava do trabalho para casa, interceptou-a.
- Sei que não é feliz no seu casamento.
- O que você tem a ver com minha vida, seu Fantasma esquisito!
- Escuto as brigas. Sei como ele é repressor e que não te permite um dedinho de prosa com uma amiga, sequer. Você não é obrigada a aturar isto.
- Sei que não sou. - respondeu Zulmira, já emocionada, por lembrar das inúmeras brigas que fazem do seu casamento um inferno. - Por isto mesmo vou embora! - desabafou desamparada, baixando a cabeça, enquanto uma lágrima furtiva corria-lhe pelo rosto.
Serginho tentou abraça-la, mas foi repelido.
- Você não precisa ir embora. Diga ao cabra que quer se separar e fique por aqui. Não precisará ir longe para conseguir outro homem.
- Preciso do dinheiro dele para sobreviver. Paga-se muito mal às mulheres nesta cidade, por isso vou para um lugar onde eu possa ganhar um dinheiro suficiente para ter minha independência.
- Eu te sustento. - precipitou-se o Fantasma.
- Que isso!?! O que você está dizendo, seu louco!?! Você acha que vou me casar com você!?! Mas nem morta, meu querido!
- Também não acredita que eu sou o Ricardinho?
- Olha, se você é ou não o Ricardinho eu não sei. Mas sei muito bem que sendo ou não sendo, não me interessa em nada. O senhor, agora, por favor me dê licença, pois preciso ir para casa resolver minhas coisas. Não sei nem porque resolvi te contar as coisas que disse, foi um momento de fraqueza, porque estou emocionalmente abalada. - disse Zulmira, em tom rude.
A amada de Ricardinho começou a caminhar com firmeza, mas foi interceptada por ele.
- Você não se abriu para mim por fraqueza, mas porque nos amamos. Será que você não vê isto, que nascemos um para o outro?
- Um para azucrinar o outro, só se for. Você é o azucrinador e eu azucrinada. Olha só, esta é a última vez que eu vou pedir-lhe licença, homi. Se você não sair da minha frente quando eu falar a palavra "licença", vou gritar, espernear e te dar um chute nos bagos! - dois segundos de silêncio - Licença.
Ricardinho deixou Zulmira passar, na certeza de que, apesar da repulsa inicial, ela refletiria sobre o que ele disse e, se não viesse a procura-lo em seguida, ao menos o trataria com menos má vontade nas próximas abordagens.
Poucas horas mais tarde, entretanto, no silêncio da madrugada, Zulmira pegaria o cavalo de seu marido e partiria, com uma pequena mala, rumo a Maricá do Rio Preto, onde, enfim, conseguiria a desejada independência financeira, trabalhando no Cabaré da Madame Bardeau.
por Renato Amado * 6:00 PM
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