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[Terça-feira, Dezembro 14, 2004]
Pô, bicho...
Tainá e Cauã leram uma reportagem sobre o Vale do Rio Preto na revista "Natureza, Cosmos e Cia.." De acordo com a publicação, a referida região possui uma energia superpositiva devido ao seu alinhamento com Escorpião, possibilitando uma entrada direta da energia cósmica. Animados com tão relevante informação, o casal dirigiu-se à região, onde passariam a viver.
Escolheram a cidade de Só Sebastiana, onde começaram a praticar o artesanato. Entretanto, logo descobriram que a população local não era nada aficionada pela vanguarda conceitual do artesanato cósmico da Era de Aquário. A única maneira de ganhar dinheiro como artesãos naquela região, pensaram, era vendendo para turista.
Passaram, então, a dividir-se entre Nova Córdoba do Rio Preto e Só Sebastiana. Aquela cidade era vista como um mal necessário nas suas vidas. Embora não gostassem de regiões turísticas, onde o burguês vai se divertir as custas do trabalho do povo explorado, necessitavam delas para se sustentar. Mas sempre que podiam iam a Só Sebastiana, cidade pobre, mal tratada e suja, ou seja, perfeita.
Em Só Sebastiana, ficaram sabendo que havia um índio preso porque quis vender a erva do bem na cidade. O casal achou isto completamente nada a ver e onda errada. Foram, numa boa, trocar uma idéia tranqüila com o delegado.
- Tranqüilo é o cacete! Esse índio é um marginal!
- Pô, aí... nada a ver... libera o cara... - disse Cauã.
- Libero o escambau! Vão embora, por favor!
- Ih.... o camarada tá estressado... relaaaaaxa bicho...
- Eu vou é relaxar o cacetete em cima de vocês se não saírem logo! Andem, andem! Circulando, circulando! - inquietou-se o delegado, gesticulando para que se movessem.
Os artesãos foram embora achando o papo do delegado total nada a ver e em total desalinho com as energias cósmicas. O dia seguinte era de visita e eles decidiram que aproveitariam para levar um pouco de felicidade e energia para o índio.
- Bicho, tá vendo esse cristal? - perguntou Tainá.
- Índio está.
- Então, ele foi energizado por um grande mago polaco. Ele tá cheio de yang que vai te dar força nessa hora difícil.
- Índio querer sair daqui.
- É, eu sei... mas falamos com o delegado e ele disse que não vai te liberar não. Maior onda errada, aí.
- Mas não tem outro jeito de Índio sair daqui?
- Pô bicho, só se você fugisse. - respondeu Cauã.
- Então Índio querer fugir.
- Calma bicho! Como é que você vai conseguir fazer isso?
- Índio segura o carcereiro quando ele abrir a porta para Índio sair da cela.
- Ih... o cara apelando pra violência, aí. Nada a ver...
- Você ter alguma idéia melhor.
- Com certeza... vamos deixar uma vela queimando na mesa do delegado pra levar luz pra ele. Sinto que dentro daquela pedra há uma esponja pronta pra ser encharcada de amor... e a luz é capaz de atravessar a rocha.
- Luz atravessar rocha!?!
- Com certeza... a luz atravessa qualquer coisa.
- Estranho.
- O quê?
- A cela devia ser mais clara.
Conversaram por mais algum tempo. Tainá, inconformada com a dureza do delegado, foi tentar amolecê-lo. Tudo que ele precisava, imaginava, era de um pouco de amor e luz.
- Senhor delegado?
- Sim.
- O senhor se incomodaria se eu deixasse uma vela queimando aqui na sua mesa? Olha, é de citronela, então, além de te trazer luz, serve pra espantar mosquitos.
- Espanta mosquito isso daí, é? - questionou o delegado, com ar desconfiado e curioso, olhando para a vela com canto de olho.
- Espanta sim.
- Então tá, pode deixar. Agora vai, vai. Circulando, circulando.
O casal abandonou a delegacia comemorando efusivamente aquela demonstração de flexibilidade por parte do chefe da polícia. Tinham certeza que a luz daquela vela iluminaria seu coração.
Uma semana depois, foram novamente ter com o delegado. Tainá, que desde o sucesso do diálogo travado na semana anterior achava que tinha pego o jeito de como aborda-lo, serviu de interlocutora, enquanto Cauã esperava encostado no muro da delegacia, fazendo artesanato com pedaços de arame, para passar o tempo.
- Senhor delegado?
- Sim.
- É... sobre o Índio. Será que o senhor não pensou um pouco sobre o caso dele durante esta semana? Ele é um bom sujeito... nem sabia que o fumo que vendia era proibido.
- Isso é verdade.
- Então, o senhor não acha que ele merecia uma segunda chance?
- Não!!
- Poxa, mas por que, se o senhor mesmo concordou que ele nem sabia o que fazia?
- Não sabia. Por isso mesmo vai ficar preso pra aprender a deixar de ser burro!
- E quando termina a pena dele?
- Ano que vem. Mas se você e o seu marido continuarem torrando a minha paciência deixo ele mais um ano aí dentro.
- Mais um ano nos aturando, já pensou...
- Coisa nenhuma! Se vocês me encherem demais, prendo também! É só fazer uma revista no seu marido, que vai sair de tudo daquela bolsinha colorida de tricô de viado dele. Então, circulando, antes que minha paciência acabe mais ainda e eu mande prender vocês dois!
Tainá retornou ao banco da praça onde morava, desanimada. O Índio teria que esperar mais um ano...
por Renato Amado * 6:35 PM
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[Segunda-feira, Dezembro 13, 2004]
Desacredite Acredite
Finalmente, após três décadas transcorridas desde o seu nascimento, Marissol convenceu-se de que havia encontrado o homem da sua vida.
Bom, na verdade ela já o conhecera no berço. Entretanto, pelo fato das duas famílias serem muito próximas, criou-se um certo tabu envolvendo-as. O tabu, durante anos, não conteve os desejos do novo casal. Bom, na verdade não o fez pois não era necessário. Sua força era tal que a própria existência do desejo era inconcebível. Contudo, quando os dois estavam a poucos dias de completar sua terceira década de existência, um diálogo abriu-lhes a porta da realidade.
- Trinta anos... - disse Marissol.
- Trinta anos. - respondeu Carlos.
- Trinta anos de solidão...
- Trinta anos de solidão.
- Há dois anos prometi pra mim que até os trinta eu casaria...
- Aos vinte e oito me prometi que dos trinta não passava.
- É difícil arrumar uma pessoa como eu neste fim de mundo. Que seja caseiro, goste de ler, quieto, mas não perca uma noite forró e forrochô...
- Também acho. Também não consigo encontrar alguém assim... acho que você é a única pessoa deste jeito que conheço, mas...
- Mas o quê?
- Mas você é minha irmã.
- De criação.
- Dá no mesmo.
- O homem não tem o direito de criar parentescos que Deus não criou.
- Não, mas você... - Marissol interrompeu, pousando seu indicador direito sobre seus lábios e então beijou-o
A paixão foi imediata. Em duas semanas, Carlos pediu a mão da bela de cabelos negros.
Ambos de família tradicional, o casamento foi marcado para o dia 22 de maio, mesmo sendo uma segunda-feira. Marissol convidou Marvin e Kessie como padrinhos, ao passo que seu noivo optou pelo irmão da noiva, futuro cunhado e velho amigo, João. Como madrinha, convidou Cláudia, antiga amiga do forró.
No dia do casamento chovia cântaros, inviabilizando que qualquer um saísse de casa, mas os noivos e os padrinhos não poderiam se permitir tal acomodação. Uma amiga e um jovem menino, filho do vizinho, seguravam o vestido de Marissol, a fim de impedir que este sujasse de lama. Quando finalmente estavam a poucos passos da igreja, todos encharcados e com os pés cobertos por barro, viram o topo da torre da sacristia levantar vôo, indo pousar do outro lado da cidade, mas largando o sino logo na decolagem e pousando-o caprichosamente sobre a cúpula do altar, abrindo uma enorme clarabóia.
Marissol caiu de joelhos, com as mãos sobre o rosto, aos prantos. Sua amiga agachou-se para consolá-la enquanto o bem intencionado menino que a ajudava permaneceu segurando o vestido por um tempo, sem querer expondo a coxa da noiva, enquanto fitava, incrédulo, a pequena igreja. Marissol retornou ao seu lar, amparada pela amiga.
Uma segunda tentativa haveria de se realizar dali a dois meses, não fosse a forte pneumonia que atacou o noivo na véspera da cerimônia, deixando-o de cama.
Marcou-se nova data para o casamento: em quinze dias ele ocorreria, mesmo sob as mais adversas circunstâncias. Mas desta vez foi o padre quem adoeceu no próprio dia da celebração, de forma que não havia tempo para que outro pároco viesse da capital do Estado. Não adiantava recorrer às cidades vizinhas, pois o mesmo padre respondia por todas as paróquias, indo de cidade em cidade.
Desesperada após o terceiro fracasso, Marissol foi chorar nos colos de Marvin, o Livreiro.
- Não é possível, Marvin, toda vez que vou casar alguma coisa acontece! Não é normal uma coisa dessas! Alguém deve ter jogado um mau olhado, me ajuda! - desesperou-se a eterna noiva.
- Minha querida, a mente pode tudo. Só que mais poderosa que a mente de um é a mente de todos.
- O que você quer dizer?
- Que qualquer crendice popular funciona simplesmente porque as pessoas acreditam que funciona, que os entes folclóricos existem porque acreditam neles...
- Que meu irmão corre rápido como um raio porque ele acredita que pode. - interrompeu Marissol.
- Exatamente.
- Então quer dizer que se eu não acreditar em mau olhado ele não vai funcionar.
- Exatamente, minha querida, mas você tem que não acreditar de verdade. Se você ficar repetindo na sua cabecinha que não acredita é porque na verdade ainda acredita. Você não tem que tentar não acreditar, você tem que não acreditar.
Marissol enxugou as lágrimas e recompôs-se.
- Fácil assim?
- Fácil assim. Agora, tem que ver se é mesmo mau olhado. Pode ser por motivo de alguma outra crendice, aí você vai ter que descobrir qual a crendice e desacreditar dela.
- Ai Minha Nossa Senhora, bem que eu tava achando muito fácil! Mas como eu posso descobrir qual a crendice?
- Pensa qual é a capaz de impedir casamento. Mas a melhor forma de você se proteger de tudo não é usando figuinha, nem carregando alho. Simplesmente desacredite tudo que possa influenciar na sua vida sem depender de você. Tome as rédeas.
- Ah, mas não acreditar em mais nada assim é difícil.
- Um trabalho de anos... e o pior é que depois de desacreditar tudo, você tem que passar a acreditar em tudo.
- Hã?
- Ah, minha filha, acho que falei demais. Desse jeito vou acabar enrolando a sua cabecinha. Por hora, faça o seguinte: descubra o que está te impedindo de casar e desacredite esta coisa.
- Mas como eu posso descobrir o que me impede?
- Acreditando que você pode descobrir. Este mundo é um jogo de acreditar e desacreditar. Dominando estes dois verbos, você domina o mundo.
- Ai... mas parece tão difícil. - disse a doce menina, com rosto de desânimo.
- Alguém aqui falou em facilidade?
Marissol deu um tímido sorriso e abraçou o cigano, que em seguida levantou, perguntando à sua amiga se gostaria de beber um chá de maçã. Diante da resposta afirmativa, abriu uma imperceptível porta, na qual Marissol jamais havia notado, sob a escada do sótão, que dava para a cozinha. A menina segui-o e espantou-se com o que viu. Embora olhando pelo lado de fora da casa nada se visse ali, a discreta porta dava para uma ampla cozinha de mármore branco. Contava com um fogão a lenha, um a gás com uma chaleira em cima, duas pias, um armário de madeira no alto da parede do canto direito e uma prateleira na parede oposta à porta, repleta de saches de chá, de variados sabores.
- Nossa Senhora de Lurdes, como pode ter uma cozinha deste tamanho onde não tem espaço pra nada! - espantou-se Marissol.
- Simplesmente acreditando nela. - respondeu o cigano, enquanto procurava o chá de maça em meio a tantos sabores.
Os dois beberam o chá numa mesa da biblioteca e conversaram amenidades, acompanhados, no final, pela divertida Kessie.
Marissol foi embora impressionada e certa que bastava acreditar que encontraria o motivo para não casar e então desacreditá-lo, que a cerimônia se realizaria. Dormiu ansiosa, porém tranqüila.
No dia seguinte retornou à livraria de Marvin, mas desta vez não o procurava. Tinha ido ao encontro dos livros.
Após quinze minutos de pesquisa, encontrou uma enciclopédia de superstições. Nela, viu uma que poderia enquadrar-se ao seu caso. Diziam as letras: "aquela que tiver o pé varrido jamais se casará." Pensou, pensou, pensou... e lembrou-se. Quando era criança, seu irmão adorava brincar de espada com o vizinho, utilizando a vassoura. Quando a brincadeira terminava ele ia guardar sua arma, mas caso encontrasse com a irmã no caminho, varria-lhe o pé de pirraça, para que a piaçaba a espetasse. Devolveu o livro à estante e foi para casa. No caminho riu de como era boba em imaginar que as varridas que são irmão dera em seu pé na infância poderiam impedi-la de casar. Para certificar-se que realmente havia jogado tal crença fora, ao chegar, pegou uma vassoura e pôs-se a varrer, calma e ironicamente, seu próprio pé. Em seguida, dirigiu-se à casa do noivo.
- Meu amor, podemos remarcar o casamento, tenho certeza que desta vez dará tudo certo.
- Que Jesus te ouça...
Marcaram a cerimônia para dali a sete dias.
Era uma noite de lua cheia, que iluminava a bela tez da noiva. Ela caminhou majestosamente em direção à igreja, iluminada pelas luzes artificiais e pelo sol refletido no satélite. Adentrou a Igreja de braços dados com seu pai, que entregou-a ao noivo. Todos, inclusive o padre, o noivo e os padrinhos, pareciam tensos e com pressa. Queriam realizar a cerimônia logo, antes que algum imprevisto novamente jogasse tudo pelos ares. Apenas Marvin parecia sereno e sorriu discretamente para Marissol quando esta chegou ao altar.
O sermão foi curtíssimo. Era nítido o desconforto e a tensão geral. Todos olhavam em volta, verificando se estava tudo em ordem, se o teto ou a parede não ameaçavam desabar... alguns, por segurança, preferiram assistir à cerimônia do lado de fora da Igreja.
Como Marissol e Marvin tinham certeza, o casamento transcorreu perfeitamente. Os noivos trocaram as alianças, o padre declarou-os marido e mulher e todos tiveram uma ótima noite de festa na Praça Central, acompanhados por uma enorme e laranja lua, ao som da banda da madrinha e do irmão da noiva, Chorões do Rio Preto.
por Renato Amado * 2:26 PM
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