HETEROGÊNEO VISITA
::Click Fome::
::Câmera Obscura::
::Expatriado::
::Imaginery::
::A Embaixada::
::Dog Blog - au,au::
::Déa::
::Foi Engano::
::Solidariedade::
::Letícia Hell::
::Opiniões Femininas::
::Dias de Chuva::
::O Dedo do Quevedo::
::Lobbandida e sua Matilha::
::Cristal::
::Elaine Cristina::
::Confraria das Idéias::
::Sarawah Reloaded::
::Pervercidades::
::Crônicas e Histórias::
::Publicidade, Propaganda e Afins::
::Casa de Contos::
::Síndico do Albergue::
::Surreal::
Meus arquivos
Aumente um ponto

[Quinta-feira, Fevereiro 03, 2005]

Mulher do Padre

Parada cardio-respiratória, dizia o boletim médico. Pouco importava, o relevante é que ela estava morta e nada a traria de volta. Apesar da idade e das diversas doenças que a haviam atacado nos últimos anos, nenhuma das meninas se conformava com a perda da sua mestra. Pediram ao padre que rezasse uma missa pela ressurreição da alma de Madame Bardeau.

- Uma missa de sétimo dia para a dona de um bordel?!? - espantou-se o clérigo.
- Mas padre, ela era cristã.
- Uma cristã que não segue os ensinamentos de Jesus não é uma cristã.
- Padre, ela rezava todos os dias e só não vinha à missa aos domingos porque tentou uma vez e todos a olharam torto.
- Sinto muito, minha filha.
- Padre, por favor! - implorou a quenga, aos prantos - A missa da ressurreição não pode ser negada a ninguém! Qualquer alma precisa de luz. Se o senhor acha que ela não achou o caminho certo em vida, ajude-a a encontrá-lo agora! Em nome da Santíssima Trindade e do amor de Cristo!
- Não fale em nome Deles, pecadora!
- Padre, realmente negarás luz a uma alma?
- Esta alma nunca desejou iluminação, porque a desejaria agora?
- Padre, pelo amor de Deus! - implorou a prostituta, de joelhos, cabeça baixa, aos prantos, segurando a mão direita do religioso. Durante alguns segundos, só se ouvia os soluços da suplicante, ecoando pela sacristia.
- Está bem, minha filha, rezarei uma missa em nome de sua falecida patroa. Mas se eu reparar algum decote impróprio ou saia menor do que manda os bons costumes, dentro da Igreja, cancelarei a missa no mesmo instante. Também não quero alarde. Rezaremos com as portas da Igreja fechadas, sem nenhum canto ou instrumento musical. Entrem pala porta lateral, certificando-se que não haja ninguém vendo. Sejamos discretos. Não quero arruinar minha reputação na cidade.
- Como o senhor desejar, Padre.

Para que chamasse menos atenção, a missa foi celebrada às 23:00 h., numa quarta-feira, horário no qual todos na cidade encontram-se adormecidos. Como não havia saguão e não se podia chamar atenção na praça defronte à igreja, a social inerente a qualquer missa de sétimo dia foi realizada dentro da própria sala de orações, onde o padre viu-se envolvido numa prosa com duas quengas sobre como as mulheres tinham poucas opções de trabalho nas pequenas cidades, enquanto que nos grandes centros já ocupavam postos de poder. O papo estava tão animado que o eclesiástico não resistiu a oferecer um vinho às simpáticas visitantes. Mas a garrafa não durou muito. Todas as presentes pediram um gole e o padre, já acostumado a esta bebida, não demonstrou preocupação em poupá-la. Logo retornou com uma garrafa da uva de Baco em cada mão.

O álcool não tardou a produzir um dos seus efeitos mais inevitáveis: liberação da libido. Em alguns minutos o sacerdote viu-se atracado com uma quenga sobre o altar. Sua roupa foi retirada por várias mãos, enquanto ouvia gargalhadas por todos os lados. Mal podia mover-se ou bem compreender o que ocorria. Subitamente percebeu que seu falo estava envolto por um tecido úmido, quente e macio, o que lhe causou um dejá vu, fazendo-o lembra-se de sua pré-adolescência na roça, em meio a cabritas e galinhas. Contudo, a sensação desta vez era muito mais prazerosa e havia um rodízio, quase uma luta por aquele órgão até então ignorado.

Mas a brincadeira durou pouco. Em pouco mais de um minuto o clérigo despejou dúzias de mililitros de vitamina C e frutose sobre alguma das suas amantes. Qual, ele não sabia precisar. Foram todas embora, decepcionadas com a rapidez do padre, deixando-o estirado ofegante, sobre o altar, enquanto Jesus crucificado fitava-o incrédulo. Ele viu o Salvador com os olhos fixos nele, assustou-se, segurou a batina rapidamente sobre o corpo, tapando as partes íntimas e correu em direção ao seu quarto.

Na madrugada seguinte, Manoel e sua mulher passeavam pela rua, a fim de aproveitar o frescor da noite e o silêncio da cidade, quando viram-se cercados por duas enormes mulas, uma de pelo marrom e outra de pelo preto. Aquela com ferraduras de prata, esta as tinha de aço. Ambas com um freio na boca.

O casal colou suas costas uma na do outro, enquanto os animais os rodiavam e relinchavam em alturas estarrecedoras.

- Manoel, diz que não é o que eu estou pensando! - disse Rosalina, com a voz trêmula.
- É isto mesmo, mulé!
- Ai... e o que a gente faz?
- Num lembro. Tem um jeito delas não atacarem.
- Então lembre logo, homi de Deus, porque elas não tiram os olhos das minhas mãos!
- É isso!
- Isso o quê, homi?
- Deita no chão, de boca fechada e esconde as unhas debaixo do seu corpo.
- Ai... tem certeza que isso funciona?
- Faz logo o que eu tô mandando, antes que elas ataquem!

Rosalina obedeceu, Manoel acompanhou-a e as bestas foram embora.

- Onde já se viu!?! Duas! Este padre é um sem vergo...
- Mulé?
- Oi?
- Não foram só duas.

Mais uma mula apareceu, soltando fogo pelas ventas. Esta tinha o pelo preto, com uma cruz no dorso. Também possuía freio na boca, mas nenhuma ferradura nos pés.

- De novo! - disse Manoel.

Sua mulher deitou-se de bruços, com a boca fechada e as mãos sob os seios. Manoel fez o mesmo.

- Não é possível! Não é possível! - exclamou Rosalina - Isso tem que chegar aos ouvidos do cardeal!
- Me pergunto quem são essas moças. - disse Manoel.
- Pergunto-me também. Será que tem alguma forma d'agente descobrir?
- Num sei não, mulé.
- Vamos amanhã na livraria. Lá deve ter alguma coisa.
- Deve.

No dia seguinte o casal foi à livraria do cigano, onde encontraram algo útil. Dizia o enorme volume, na página cinqüenta e cinco: ¿se queres saber quem é aquela que deitou-se com o padre e transformou-se numa Mula-Sem-Cabeça, há de se atirar um ovo com uma fita amarrada com o nome da suspeita, numa fogueira e rezar três vezes a seguinte oração:

'A mulher do padre
Não ouve missa
Nem atrás dela.
Há quem fique ...
Como isso é verdade,
assa o ovo
e a linha fica'

Caso a linha não se desfaça, então a suspeita é realmente culpada.
Se você desejar quebrar o encantamento deve arrancar o freio da boca da besta.¿
- Impossível! - exclamou Rosalina.
- O quê? - perguntou Manoel, com seu carregado sotaque interiorano.
- Arrancar o freio da boca da bicha!
- É, deve ser bem difícil, mesmo. O melhor que a gente faz é não sair mais a noite.
- Manoel. - disse Rosalina em tom grave e voz baixa.
- Sim.
- Podemos descobrir quem foram e matar as desgraçadas enquanto elas estiverem em forma de gente.
- Que isso, mulé!?! Tá maluca, querendo matar gente! Virou assassina, agora!?!
- Não tô assassinando porque só quero proteger os moradores e estas pessoas não são mais gente, são coisa, besta, fera. Coisa amaldiçoada, do Demônio.
- Mulé, desculpa, mas não posso concordar com um negócio desses.
- Ah, não pode não, é?
- Não.
- Então tá bom! Num preciso de homi pra tudo não! Posso me virar sozinha!

Foram embora brigados. Manoel foi para o Bar do Zé tomar cerveja e jogar sinuca em mesa pequena, enquanto Rosalina passou na quitanda da família de Marrissol para comprar ovo, no armarinho para comprar fitas e foi para casa prepará-las, escrevendo o nome de todas as mulheres da cidade, cada um em uma fita, o que lhe custou algumas horas. Ao chegar em casa, Manoel viu sua mulher sobre a mesa de jantar, com um pilô na mão, escrevendo numa fita, enquanto diversas outras, já com nomes gravados, repousavam sobre o canto da mesa.

- Chegou bem na hora. Esta é a última. - disse Rosalina.
- É mesmo, é?
- É.
- Que pena, por que eu já tinha feito uma pra te adiantar.
- Carece não.
- Mas será que você não se esqueceu de ninguém?
- Não.
- Tem certeza?
- Tenho, homi! Por que pergunta tanto?
- Vê se este nome você escreveu? - e arremessou sobre a mesa, em frente aos olhos de sua mulher, uma fita com o nome "Rosalina" gravado a caneta.

A mulher de Manoel levantou-se num pulo e com o dedo em riste, apontando o rosto do marido, gritou:

- O que é isso!?! Você não respeita mais a sua mulher não, é!?!
- Quem é capaz de descumprir um mandamento é capaz de descumprir dois.
- Pois veja bem, seu calhorda! Sei que você faz isso comigo só pra me deixar nervosa! Então quero que você se dane!
- Vai jogar a fita na fogueira ou não vai?
- Que se dane essa fita e você! Eu ignoro os dois! Se você quiser, que taque e faça a reza, vou ignorar qualquer coisa que você faça!
- Tá bom, então.

Manoel foi tomar banho enquanto sua mulher preparava a fogueira. Um a um ela foi tacando os ovos enrolados pelas fitas na fogueira e recitando três vezes o verso que aprendera. Três fitas não queimaram. Cada uma com o nome de uma prostituta. Quando o ritual terminou, Manoel dirigiu-se para junto da fogueira, pegou um ovo que sobrara, enrolou-o com a fita gravada com o nome de sua mulher, tacou-o na fogueira e executou a reza três vezes, conforme o livro mandava. A fita queimou-se por completo.

- Satisfeito agora?
- Tô.

Rosalina passou quase toda a noite em claro, elaborando um plano para matar as quengas. Só adormeceu pela manhã e quando acordou estava toda amarrada na cama. Seu marido, tranqüilo, tocava violão. Ela começou a gritar e ele terminou a música serenamente, como se nada estivesse ocorrendo. Em seguida, puxou uma cadeira, colocou-a ao lado da cama, sentou-se e começou a conversar com sua mulher.

- Vai ficar aí até eu resolver o problema das mulas-sem-cabeça, sem matar ninguém.
- Desgraçado! Eu te mato!
- Ah, é? Como?
- Espera eu sair daqui!

Durante quase uma semana Rosalina foi alimentada pelo seu marido presa à cama. Nos primeiros dias, cuspia a comida na cara de Manoel, em sinal de protesto, mas à medida que a fome apertava, sua resistência à comida reduzia-se, até chegar ao ponto de cobrar o jantar do seu marido. Quando ele não estava em casa, suas necessidades eram feitas numa fralda geriátrica. Nos momentos em que seu esposo estava presente, levava-a ao toalete e entrava junto com ela, para que não trancasse a porta. Em seguida, a escoltava de volta para a cama e a amarrava novamente. Nas poucas vezes em que decidiu gritar, Manoel amordaçou-a, mas ele acabou por convencê-la de que aquele tipo de expediente de nada adiantaria, ou melhor, apenas a prejudicaria, pois ele seria obrigado a contar a todos a razão daquela bizarra atitude. Como toda a cidade o conhecia, a população saberia que falava a verdade.

Manoel procurou seu amigo e companheiro de banda, o inacreditavelmente habilidoso, João da Silva. Pediu que o jovem o ajudasse a retirar o freio da boca das mulas na próxima vez que aparecessem. João, diante da gravidade da situação, não pode recusar utilizar suas capacidades extraordinárias. Passaram a fazer ronda todas as noites, mas apenas uma semana depois da primeira aparição, na madrugada de quinta para sexta-feira, as mulas-sem-cabeça surgiram. Desta vez, as três juntas.

O marido de Rosalina partiu em direção a uma delas e sem hesitar, meteu-lhe a mão na boca, para tentar arrancar-lhe o freio. Entretanto, a mula fechou a boca com sua mão dentro dela e começou a chupar o dedo de Manoel. Enquanto isto, João, sem muita dificuldade, uma vez que movia-se numa velocidade impossível, arrancava o freio das outras duas mulas. Quando abriu a boca da terceira mula, salvando João, enquanto arrancava o freio do animal, viu um cotoco de dedo sair da boca da mulher metamorfoseada. O indicador de Manoel resumia-se a um fino pedaço de carne, em formato de picolé chupado.

Enquanto Manoel estrebuchava de dor, no chão, os animais iam, aos poucos, tomando forma de gente, até voltarem a ser as quengas que atacaram o padre. Nuas, correram para o Cabaré da Madame Bardeua, uma vez que já se encontravam em uniforme adequado ao trabalho. Manoel, vendo aqueles belos corpos despidos, esqueceu-se da dor e acompanhou-as, já que sabia que, diante dos últimos eventos, doravante necessitaria delas para satisfazer sua libido. Como as havia salvo da maldição e praticamente perdido um dedo por isto, exigiu atendimento VIP e gratuito, no que foi atendido. Em troca, tocava violão para os clientes gratuitamente, duas vezes por semana, sempre que não estava viajando com a sua banda..


por Renato Amado * 2:02 PM

___________________