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[Terça-feira, Abril 05, 2005]

Meus caros (se é que alguém ainda continua visitando este abandonado endereço), sei que estou sumido desde o fim do ano passado. Por hora, digo apenas que estou, sem exageiro algum, mais atolado que nunca, precisava de dias de 30 horas. Entretanto, se pensam, só porque não tenho atualizado este blog, que a literatura foi jogada para escanteio, enganam-se. Apesar da falta de tempo dou meu jeitinho pra dedica-la, se não o tempo merecido, ao menos uma pontinha dele, mesmo que isto me custe preciosas horas de sono. Em breve mando notícias sobre minhas incursões neste terreno. Por enquanto, deixo-os com um conto que me levou pra final de um concurso de redação, no qual o tema era "Solidariedade". Espero que gostem.

Beijos e abraços.

MUNDO SINGULAR

Apenas sento e lamento. Todas as opções encontram-se esgotadas. Deixo de lamentar e resigno-me. Quedo parado, a contemplar a multidão como se olhasse o infinito. Um vazio cheio me cerca. Pernas e corpos e pastas e ternos e saias cruzam-se e seguem sem valor. Não passam de pernas e corpos e pastas e ternos e saias. Não há seres humanos por trás destes objetos, são apenas o que vejo, de forma isolada, nada mais, não formam um conjunto. Indiferença total a este mundo, é o que sinto. Não amo nem odeio nada. Só não sou indiferente a mim, a única coisa que tem algum significado, o único ser que não é meramente cabeça, tronco e membros, mas uma pessoa, com sentimentos e contradições.
Já eles não me vêem como os vejo. Percebi isto um pouco antes de me isolar completamente e passar a ignorá-los. Olham-me com desprezo e incômodo. Alguns me enxergam como vítima e refletem sobre a injustiça, outros como vagabundo. Por qualquer uma destas óticas, sempre incomodo.
Mas não mais me importo com isto, afinal, doravante nada mais além de mim tem algum significado ou valor. Corpos e pastas e ternos e saias e... voz. Uma voz está próxima e constante. Não passa como todas as demais, mas permanece ao meu lado, estática. Dirijo meu olhar em direção a ela e vejo cabeça, tronco e membros. Um único grupo destas partes corpóreas, de modo que a voz só pode estar a minha procura, a menos que o referido corpo tenha a estranha mania de falar sozinho. Olho-o e nossos olhos se encontram. Neste momento, o corpo deixa de ser um conjunto de partes coladas, para se tornar algo único e pleno de significado. Os ruídos que de sua boca emanam deixam de ser ondas sonoras jogadas ao ar para tornarem-se palavras. Palavras que se transformam em amor e solidariedade.
Seguro a mão do amigo e seguimos juntos, rumo a um mundo cheio de valores, seres humanos, sentimentos, coletivismo e luta.


por Renato Amado * 11:38 PM

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