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Aumente um ponto

[Terça-feira, Maio 24, 2005]

UM DIA DE TRABALHO

Acordou tarde. Na véspera fora à Feira de São Cristóvão, onde dançou forró até tarde. Mas era verão e ainda havia muito dia pela frente. Pegou os espetos de carne, de frango, os salsichões, a farofa, os queijos coalho, as cervejas, os refrigerantes, água, Hula-hula, isopor, gelo, churrasqueira portátil, fita K7 do Bruno e Marroni, colocou o gelo e as bebidas dentro do isopor, o isopor, a churrasqueira e a comida dentro do porta-mala e a fita no toca-fita do Passat 1997 e seguiu em direção à Urca.

Um pouco antes de chegar à praia, na Rua Marechal Cantuária, já era possível ouvir o burburinho vindo daquela curta faixa de areia. Era sempre o mesmo burburinho, barulho de pessoas conversando enquanto algumas crianças soltavam gritos estridentes, acompanhados por outros de vendedores que ofereciam seus produtos em decibéis proibitivos.
Quando viu a areia branca completamente respingada por pontos negros e pardos, logo imaginou que seria difícil encontrar vaga. Reduziu a velocidade e olhou em volta; mal podia ver a calçada. Eram carros em todos os cantos. O 107 atrás dele fazia barulhos, demonstrando irritação com a baixa velocidade. Reparou na saída da Avenida São Sebastião. Tratava-se de uma ladeira sem saída, estreita, mas com a boca larga como a de um funil. Calculou que se parasse seu automóvel exatamente no meio da entrada do funil haveria espaço para que um carro o contornasse, tanto pela direita, quanto pela esquerda. A Urca era um bairro sem violência, não deveria haver policiais por ali para multá-lo, pensou... e estacionou.
Enquanto retirava a mercadoria do porta-malas, um 206, ano 2002 encostou ao seu lado. Um rapaz jovem, loiro, com olhos claros e um bonito rosto abaixou o vidro e reclamou da "vaga" inventada por João, que olhou em volta e viu diversos carros de moradores estacionados sobre a calçada. Sabia que se tratava de carros de moradores, pois eram modelos do terceiro milênio.
- E aqueles carros ali, parados em cima da calçada? - indagou o suburbano.
- A maioria dos prédios daqui não têm garagem. Se não pararmos na calçada, não temos onde colocar os carros.
- Bem-vindo ao clube.

O jovem murmurou algum xingamento, bateu irritado com as duas mãos contra o volante e seguiu caminho. João terminou de tirar o ganha-pão do carro e seguiu em direção à praia. Logo seus gritos de venda se integrariam ao característico som daquele lugar.

A lotação não se traduziu em boas vendas. A medida que a hora passava a praia enchia, mas seu bolso parecia indiferente a este fato. Desanimado, enquanto fritava um espeto de carne, olhou para o lado esquerdo. Viu o Unibanco. Aos poucos, começou a devolver a cabeça de volta ao alinhamento normal, mas parou logo, ao ver pessoas desembarcando do 107. Não parava de descer gente. Agradeceu a Deus por ter um carro e continuou o movimento com a cabeça. Em seguida viu, na Avenida Portugal, próxima à banca de jornal, uma bela moça passeando com um bonito labrador preto. Ela trajava um short curto e possuía belas coxas. Descansou seus olhos nela por poucos segundos e prosseguiu seu percurso, que desta vez só foi interrompido já na praia, por um grupo de crianças que brincava na água, tacando água uma nas outras. Não tinha graça. Correu os olhos de volta ao espetinho e mudou-o de lado para que não queimasse. Esperou dois minutos, perguntou ao freguês se queria farofa. À resposta negativa, apenas entregou a comida e pegou os dois reais de pagamento.
Ao fim da tarde ainda sobrava muita carne e a praia já estava vazia. Decidiu tentar a sorte com os pescadores da Avenida João Luiz Alvez. No caminho, ainda na praia, cruzou com a menina que vira passeando com um labrador oras antes. Ela estava sozinha e trocara o short por uma calça. Provavelmente cortava caminho pela areia, a fim de não ter que caminhar todo o contorno da praia, por debaixo da antiga T.V.Tupi, onde, hoje em dia, só restava um ¿U¿ na fachada. Num impulso, deu-lhe boa tarde, retribuída com as mesmas palavras, mas num tom bem menos simpático.
Alguns passos adiante seus olhos perderam-se noutra coxa. Uma mulher com a pele branca e cabelo liso jogava vôlei em dupla com um homem. Quando a praia começava a ter mais moradores do que suburbanos era porque realmente estava na hora de partir.
Caminhou cem metros junto à mureta da Avenida João Luiz Alvez, quando se deparou com o primeiro grupo de pescadores. Ficou por ali e decidiu puxar assunto.
Pelo que percebeu os pescadores estavam uma classe social acima do pessoal da praia, de quem falavam com certo desdém. Não moravam na Baixada, mas na Zona Norte, alguns até na Zona Sul. Tinham empregos que João considerava bons, como auxiliar administrativo e cartorário. Poucos minutos após a chegada de João, dois moradores se juntaram à pescaria e logo perguntaram qual o preço da cerveja. João já estava pensando em vendê-la mais caro desde que descobrira que seus novos fregueses moravam em bairros como Tijuca e Flamengo. Agora, então, que surgiam locais, com varas e linhas de qualidade é que não tinha mais dúvida.
- Dois reais a Skol. - respondeu.
Sua estratégia deu certo. A compra do nativo incentivou os demais a abrirem a carteira. Pescaria é algo entediante, pensou, nada melhor que uma cervejinha para animar.
Em duas horas vendeu toda a cerveja, mas a comida cismava em quedar quieta no seu carro. Acabada a cevada fermentada não conseguiu vender mais nada.
Retornou, com a churrasqueira e o isopor, ao seu carro. Trocou o pneu que misticamente arriara e voltou à Baixada. Amanhã chegaria mais cedo, para encontrar uma vaga.


por Renato Amado * 9:09 PM

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Aumente um ponto

[Segunda-feira, Maio 09, 2005]

Conto de Carnaval

O carnaval no Vale do Rio Preto parece desafiar o tempo. Nesta região ainda é praticado o famigerado entrudo, trazido pelos colonizadores no século XVII, tendo resistido no país por duzentos anos. Mas no Vale do Rio Preto ainda é forte elemento carnavalesco. Talvez pelo fato da região ter passado um longo período estagnada no tempo até a aventura do italiano Giovane Crespin.
Marissol e seu marido, já estafados das agressivas e nojentas práticas do entrudo, decidiram inovar. Vestiram belas fantasias. Ela fez-se linda e irresistível num leve vestido de seda branco, bem rodado na altura do joelho. Colocou uma bela máscara branca com um rosto estilizado que sorria um sorriso alegre e sincero, em preto.
Fábio, colocou sobre o corpo uma longa túnica de pano negra e sobre o rosto uma máscara semelhante, mas com as extremidades dos lábios caídas, demonstrando uma enorme tristeza e um profundo sofrimento, daqueles que faltam palavras para descrever e mal se pode chorar pois o choro é incapaz de alcançar a intensidade do desespero que fulmina a alma. Romantizando o sofrido ser encarnado, Fábio pegou um bandolim emprestado com Cid e saiu pelas ruas declamando versos de amor para sua amada, enquanto, no início da maioria dos versos e no final de outros, ressonava um acorde aleatório que transparecia sua total falta de intimidade com o instrumento, mera alegoria.
E assim saíram pelas ruas de Maricá do Rio Preto, num ato de coragem e bravura, a fim de dar um ponto final nos violentos entrudos. Tinham esperança que, ao verem tão bela e romântica cena, os foliões fraquejassem e não tivessem coragem de atirar nada como água, farinha ou limão de cheiro sobre o casal. E estavam certos.
Durante toda a tarde o par romântico rodou a cidade. Ele proclamando seu amor e ela fazendo-se de difícil até sucumbir aos seus encantos e dar-lhe um carinhoso abraço, caindo em seus braços. Ninguém na cidade sabia quem eram aqueles mascarados, o que atraiu ainda mais atenção, esvaziando quase que por completo os tradicionais entrudos.
Caída a noite, Maricá do Rio Preto sofria uma transformação. A folia noturna era caracterizada por elementos mais modernos. Cada um dos quatro dias de carnaval era dedicado a um ritmo da região, que varava a noite pela única vez no ano. No sábado, o ritmo que acompanhava os foliões por toda a madrugada era o boi, no domingo o chorinho, na segunda-feira a obscuridade e o silêncio da noite eram totalmente desrespeitados pelo animadíssimo forrochô e finalmente, a quarta-feira de cinzas amanhecia ao ritmo do forró.
Mas ainda estamos nas primeiras horas que sucedem o por do sol de terça-feira e Marissol e seu esposo decidiram desrespeitar a divisão tarde-noite e ir direto para o forró, fantasiados, deixando os locais curiosos sobre quem seriam os misteriosos amantes. Queriam ver se alguém descobriria.
Para a surpresa do casal, ao chegarem ao forró viram um outro homem fantasiado. Considerando que eles haviam sido os primeiros a se fantasiar na história do carnaval da região, surgir outro fantasiado na mesma noite era, no mínimo, uma inacreditável e praticamente impossível coincidência. Mas ao olhar os trajes deste terceiro inesperado era difícil crer que ele havia sido feito no mesmo dia, após ver o casal fantasiado. O indivíduo trajava farrapos coloridos em forma de losangos. Eram centenas, talvez milhares de losangos, que lhe cobriam todo o corpo. Cada um de uma cor, quase não se via repetição de tonalidades. Utilizava uma máscara no mesmo estilo da de Marissol e Fábio, mas nela via-se um sorriso de galhofa, zombador. Na cabeça, em total contraste e descompasso com a fantasia, destacava-se como um corpo estranho um alinhado chapéu panamá. Fábio perguntou à sua amada quem seria. Ela deu de ombros e puxou seu marido para dançar. Esfregaram e bateram suas coxas durante quase uma hora e então sentaram para descansar. Enquanto recuperavam o fôlego, o homem mascarado surgiu aparentemente do nada, pegando o casal de surpresa e, pondo seu corpo de lado, flexionando levemente os joelhos e estendendo a mão direita, convidou Marissol para uma dança. Ela olhou para seu marido, que parecia exasperado. Ele deu de ombros. Ela sabia que se tivesse que esperar ele se recuperar para dançar ficaria mais uma hora sentada, pois a diferença de preparo físico entre os dois, na hora de dançar forró, era gigantesca. Embora no dia a dia Fábio parecesse mais bem disposto, quando a sanfona mugia, a bela dos cabelos negros retirava energia Deus sabe de onde e era capaz de dançar uma noite inteira ininterruptamente. Consequentemente, seu marido já estava acostumado a vê-la dançar com outros homens. A autorização que Marissol pediu ao olha-lo ocorreu somente desta vez, pelo fato de não terem vaga idéia de quem se encontrava sob aquela bem trabalhada fantasia.
Enquanto sua mulher dançava, Fábio acompanhava-a com os olhos. Não era um homem ciumento, pelo menos era o que dizia e exteriorizava, mas na verdade, sempre uma pontinha de um ciúme irracional, deste que nenhum homem consegue se livrar completamente, pelo qual se condenava, cutucava-lhe o coração sempre que via as cochas de Marissol encontrarem-se com as de outro homem.
Seu olho acompanhava-a displicentemente, pois não queria dar na vista o ciúme. Então, eventualmente olhava para os lados. Numa das vezes em que fez isto, ao retornar seus olhos para a área de dança, não viu sua amada. Seus globos oculares passaram, então, a mover-se muito, de um lado para outro, através das pessoas, contornando pés e coxas, investigando toda a região. Mas não viu sua amada. Fábio, então, foi atrás de Marissol, no meio da multidão. Seus lábios aos poucos amoldavam-se aos traços dos lábios da máscara que cobria-lhe o rosto. Seu coração batia acelerado, a agonia era grande.
Enquanto isto, girando... girando... girando... com Marissol o desconhecido mascarado levou-a para fora da área do forró, que era realizado numa pequena praça na periferia da cidade. E a medida que girava... girava.... e girava, sua mão escorregava... e escorregava pelas costas de Marissol até chegar às suas nádegas, quando encostou-a contra a parede externa de uma casa pouco afastada do local da festa, mas que dobrava uma esquina, de modo que era impossível alguém vê-los, tirou-lhe a máscara, pressionou seu corpo contra o dela, retirou a sua máscara rapidamente, colocando o chapéu de volta ao seu lugar numa fração de segundo e beijou Marissol. Tudo feito tão rapidamente que a mulher de Fábio não teve como reagir. Mais impossibilitada ainda de tomar alguma atitude ficou quando sentiu aquela língua que já conhecia vasculhar sua boca. No momento em que percebeu a familiaridade daquela textura e daqueles movimentos que investigavam cada canto erógeno de sua boca, perdeu sua personalidade. Todo dado cultural que adquirira desde o seu nascimento desapareceu naquele momento e Marissol tornou-se meramente um animal, um animal completamente tomado pelo instinto de reprodução. O mundo, naquele momento, reduzia-se a apenas duas sensações: prazer e tesão. Aliás, esta talvez fosse a única característica humana que Marissol ainda guardava, o que a colocava num patamar acima até dos animais quando realizam o ritual da cópula, pois os bichos não sentem tesão, apenas uma certa vontade de copular que não se compara ao tesão do ser humano, pois somos capazes de imaginar os acontecimentos seguintes, aonde a mão do parceiro encerrará o lento e suave movimente que perfaz, gerando uma enorme expectativa que é correspondida por uma explosão de prazer quando o destino é atingido.
E o amante de Marissol, enquanto a pressionava contra seu corpo, apertando e apalpando suas vergonhas, enquanto beijava-lhe o pescoço, recomeçou a rodar e rodar e rodar. E Marissol ia rodando e girando meio suspensa pelos músculos do homem, mas principalmente pelo êxtase e prazer inigualáveis que já não sentia há tanto tempo e dos quais até hoje sentia enorme saudade que se manifestava nos seus sonhos, quando acordava suada no meio da noite dizendo ao marido que tivera um pesadelo e fazendo com que ele a abraçasse forte, na esperança de que o sonho pecaminoso não retornasse. E realmente não retornava, pois o Misterioso tinha que povoar o sonho de muitas moças e damas por todo o Vale do Rio Preto, o que não lhe permitia gastar muito tempo numa só. E eles rodavam... rodavam... e giravam, para fora da cidade.
Enquanto isto, Fábio, já completamente dominado pela adrenalina corria de um lado para outro, em meio às cinturas que requebravam, em busca de sua amada. Nem sinal dela. Nem do Misterioso. Entendendo o ocorrido, sentou-se de volta na cadeira de metal em que antes se encontrava, apoiou o bandolim verticalmente sobre suas pernas, segurando o instrumento com as mãos, que sustentavam sua cabeça tremendamente chorosa. A máscara perdeu todo o seu caráter ilusório, pois passou a retratar fielmente o homem por detrás dela.
E girando... e girando... e girando... primeiro em pé, depois no chão, os amantes foram cair nas águas do Rio Preto, onde o Misterioso proporcionava os momentos de maior prazer na vida de qualquer mulher. Marissol experimentou, então, uma sensação muito mais forte que a de momentos antes, pressionada contra a parede externa de uma casa. Seria leviandade tentar descrever o que sentiu a bela de cabelos negros, pois após pesquisa em dicionários de diversas línguas, conclui-se que a humanidade jamais obteve êxito em cunhar um adjetivo capaz de descrever tão intensa e maravilhosa sensação. Marissol não pensava em seu marido. Aliás, não pensava em nada além daquele corpo que roçava o seu. Era humanamente impossível pensar em mais alguma coisa.
Terminada a cópula, num êxtase pós-coito muito mais forte do que a sensação que a maioria das pessoas sente durante o próprio ato, Marissol, ainda praticamente inconsciente de sua natureza humana, só foi capaz de raciocinar o suficiente para achar o caminho de casa. Sequer atentou para o fato de estar despida. Mas o caminho para sua residência não passava pelo local de movimento, então ninguém a viu caminhando naquele estado. Ao chegar ao seu lar, deitou-se estirada sobre a cama, com braços e pernas abertas, formando um "x", ignorando as pernas e torso do marido que ficaram, respectivamente, sob sua perna e braço direitos. Aliás, ignorando também seu choro copioso que preenchia todo o ambiente. Mas como Marissol, assim como os animais, não era capaz naquele momento de compreender o significado de um choro, dormiu, nua e em êxtase estirada sobre o marido.
Ao amanhecer, tudo parecia normal na casa do apaixonado casal. Era quarta-feira de cinzas, acabara o carnaval.


por Renato Amado * 4:06 PM

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