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[Sexta-feira, Junho 22, 2007]

Simbiose

Abelha no ouvido. Um terror! Horrível! Tenebroso! Infernal! Estas palavras devem estar passando pela sua cabeça. Passaram pela minha, mas apenas num instante inicial. Depois, pensei que seria algo deveras inovador se eu me tornasse uma colméia ambulante. Além de vender mel, eu seria chamado para shows ao redor do país. Viraria uma grande atração.

Não sei se foi a proximidade do ouvido com o cérebro que permitiu que eu e a abelha entrássemos em sintonia, numa relação simbiótica, que a fez começar a somar sua cera à minha, dando origem ao primeiro favo. Provavelmente o primeiro favo da história a conter cera abelha e humana.

Certo dia minha amiguinha amarelada encontrou a saída do meu ouvido. Fiquei muito triste, imaginando que ela havia me abandonado por todo o sempre e jamais retornaria. Mas quedei-me inerte, na esperança de ela me encontrar caso retornasse. E não é que ela retornou! Veio maior do que nunca, opulente, magnânima, imponente, carregando pólem entre suas patas. E com ela trouxe duas amiguinhas. Entraram as três no meu ouvido (sim, cabe) e lá ficaram por algumas horas até que uma delas saiu em busca de pólem e retornou igualmente magnânima.

Estabelecemos essa rotina, até que, num dia inesquecível (não me esqueço a data até hoje: 11 de setembro de 2001), jorrou mel de minha orelha. Confesso-lhes que chorei. Chorei de emoção. A simbiose estava completa. Eu era um ser totalmente integrado à natureza, praticamente um elemental. Oh, quanta emoção ao recordar-me!

Mel de eucalipto! Essa era minha produção. Um mel forte, escuro, encorpado, um pouco áspero até. Uma delícia. Havia alguns eucaliptos próximos à minha casa, de onde as minhas queridas Regina, Vera e Marissol recolhiam o pólem que servia de matéria prima para o mel produzido dentro de mim e o qual comecei a vender. Era simples. Fiz um pequeno buraco no meu travesseiro. Ao dormir, encaixava a orelha nesse buraco e embaixo ficava um frasco que recolhia o mel. Era pouquinho, bem pouquinho, algumas gotas por noite. Mas ao final de um mês eu havia preenchido o primeiro frasco. Vendi, vendi por dez reais. Poderia ser mais barato, mas convenhamos, foi um mês de produção.Claro, não narrei o procedimento ao comprador, caso contrário ele ficaria com asco.

Bem, mas este seria o primeiro e único frasco de mel vendido, afinal, de alguma forma, devido à relação simbiótica, ao estreito laço no plano espiritual e mental que eu estabeleci com minhas inquilinas, eu sabia que a vida das minhas queridas estava próxima do fim e isto me atormentava. Me atormentava a realidade de não mais tê-las comigo, não mais vê-las aproximando-se imponentes, como que com o peito estufado, orgulhosas trazendo o pólem de eucalipto que, com tanto custo, buscaram. Mas também me incomodava ver o fim de um sonho, de uma coisa tão diferente que duraria tão pouco tempo. Por que tudo na vida que é diferente, que foge do padrão acaba durando pouco? Por que ser durasse muito tornar-se-ia também um padrão e perderia a graça? Pode ser, mas eu queria mais. Queria continuar criando abelhas no meu ouvido direito. A perda das minhas queridas Regina, Vera e Marissol era inevitável, mas talvez a perda da mini colméia não o fosse.

Pesquisei um pouco e me falaram que há algumas essências que atraem abelha. Pinguei, então, essência de eucalipto, no fundo de meu ouvido. E qual não foi minha surpresa ao ver aproximar-se, magistral, ao mesmo tempo ameaçadora e deslumbrantemente uma fantástica abelha rainha! Enorme, se comparada às demais. Bela, belíssima, linda, saudável! Impávido colosso! Foi direto ao meu ouvido, sem hesitar. Teve dificuldade de nele ingressar, afinal era apertada e já havia três ocupantes. Mas, empurra um pouco de lá, tromba um pouco de cá, dá um passinho para o lado... enfim, o pessoal, digo, abelhal acabou se entendendo e se apertando lá dentro. Confesso que a partir desse momento comecei a sentir um certo incômodo. Não havia muito espaço para o meu tímpano, mas aos poucos acabei me acostumando e algo que era dor passou a ser, simplesmente, uma sensação diferente.
A rainha, que não consegui me decidir se chamaria de Vitória ou Elisabeth, pôs ovos, muitos ovos, que garantiriam minha produção de mel por um grande período.

Aos poucos fui percebendo que meu ouvido estava cada vez mais cheio. A população aumentava sensivelmente. Sentia isso. Desenvolvi um tato tão aguçado no meu ouvido direito que sentia sempre que uma nova larva rompia um ovo para conhecer o mundo, o seu mundo, seu pequeno mundinho, que era o meu ouvido direito, nestes primeiros momentos de sua vida.

Com o aumento da população (e o retorno da dor, que novamente deixou de ser uma simples sensação), a produção de mel aumentou, junto com a minha alegria que, infelizmente não durou muito. Marissol nos deixou. Ela, ela que fora a primeira a se encantar pelo meu tímpano direito. Ela, a colonizadora, a precursora, a grande responsável por tudo isso, muito mais do que eu, nos deixou. Sem dúvida agora ela está no céu das abelhas, ocupando um trono à direita da Abelha Rainha-Deus. Seu velório foi emocionante. Todas as demais abandonaram meu ouvido para olharem o ente querido falecido uma última vez. A tristeza era nítida entre elas. Pensas que sou maluco por afirmar isso, mas não sou. Sim, não é possível que reparar que uma abelha está triste através dos sentidos tradicionais, como visão e olfato. Mas, como já disse, minha ligação com elas dava-se em outro plano, em outra dimensão. Não é possível traduzi-la perfeitamente, uma vez que nossa linguagem é hermética, influenciada pelas supostas luzes dos séculos dezessete e dezoito, palavras místicas, tão comuns no vocabulário indígena, foram abandonadas. Místico tornou-se algo pejorativo. Mas, se queres uma palavras para definir minha ligação com minhas inquilinas é esta: mística. E se essa palavra tem um tom pejorativo ou de alguma forma estranho para você, que se exploda. Já estou fazendo muito em narrar-lhe algo que é dificilmente contemplável no plano da narrativa.

Mas voltando. Após a tristíssima morte de Marissol, ocorreram as lamentáveis mortes de Vera e de Regina, nesta ordem. Tudo no espaço de apenas uma semana. Meu coração, meus olhos e minhas vísceras nunca haviam chorado tanto. Foi, sem dúvida, a semana mais difícil de minha existência.
A par dos lamentáveis falecimentos a produção de mel ia bem, ampliando-se, a ponto de encher um pote por semana. Todos devidamente vendidos. Comentava-se muito do sabor dele, que era delicioso. Eu dizia que era porque era de eucalipto, mas os mais entendidos diziam que não, que não era só isso, que havia um algo mais indecifrável. Mas eu decifrei. Era o favo composto por cera humana junto com cera de abelha que dava este sabor especial e místico (olha a palavrinha aí de novo) àquele mel.

Talvez devido a este quê místico meu mel começou a fazer um sucesso estrondoso entre os hippies daqui de Mauá. Começaram a comprá-lo semanalmente e, devido ao sucesso, que se ampliava junto com a população e a produção, fiquei com medo que descobrissem meu segredo e me linchassem ou algo do gênero. Mais não foi isso que ocorreu.

O Raul, um hippie coroa a gente fina, entrou na minha casa de surpresa e viu duas abelhas rondando meu ouvido direito e depois entrando. Ele gritou desesperado, ao me ver calmo:
- Entraram duas abelhas no seu ouvido, bicho, entraram duas abelhas no seu ouvido! Não sentiu não? Caralho, fodeu, elas vão te picar, vamos correr pro poste de saúde!
- Relaxa. - respondi - Elas estão em casa.
- ????
Narrei-lhe a história, já preparado para levar umas porradas ao fim delas, afinal ao Raul era um dos meus principais compradores.
- Caraaaaalho, bicho, que história foda! Meu irmão, isso dava um livro, quadros, todo tipo de arte... é muito lindo, muito bonito, de uma beleza cosmológica, holista, demais! - foi o que obtive como resposta no lugar das esperadas pancadas.
A partir de então virei atração e meu mel quadruplicou de preço. Quarenta reais. Isso mesmo, quarenta reais era o valor do frasco de mel. Pode fazer cara feia, pode se indignar. Já vi muita gente fazer isso por conta do preço justo que fixei. Ora, até prova em contrário, eu era o único homem do mundo a ter uma colméia no ouvido. O preço é definido pela escassez, então, na verdade, eu poderia estar cobrando muito mais. Mas não, ficava nos quarenta reais.

Surgiu um senhor. Um velhinho, que devia ter para lá de oitenta anos, muito interessado no meu mel. Eu já o havia visto por Mauá. Era um médico, um médico meio doido, quase um cientista maluco. Era famoso na região por ter uma máquina de fazer chover e uma tal de caixa orgônica. Diz-se que se você fica quarenta minutos por dia dentro dessa caixa sua saúde se acerta. Eu sei lá, não vou fazer nenhum juízo de valor, apesar de achar o negócio meio esquisito, mas não estou aqui pra julgar, estou para contar. Enfim, esse senhor, chamado Antônio Moraes, começou a se dirigir à minha casa com enorme freqüência, comprar meu mel quase semanalmente. Ele chegava ao ponto de comprar potes ainda não completos, apesar de eu não dar desconto por isso, tamanha era sua sede pelo meu mel. Ele dizia que meu produto tinha uma alta concentração de energia orgônica pelo fato de sua produção envolver dois tipos de vida distintas, quais sejam, gente e abelha. Essa energia, segundo seus relatos, é ótima para a saúde, equilibrando a energia do corpo, de forma a prevenir câncer e outras doenças. Achando que esta história poderia render uma marketing positivo pedi-lhe que fizesse uma medição exata da quantidade de orgon contido em 300 ml do meu mel. Paguei com três frascos gratuitos. Após uma semana de estudos ele me informou que havia uma concentração de 173 unidades de energia por centímetro cúbico. Não teria idéia do que isso significa não fosse ele ter começado a frase com a palavra "impressionante" e findado-a informando que um mel comum tem um já alta concentração de 73 unidades de energia por centímetro cúbico. Em outras palavras, e minha cera sozinha era responsável por 100 unidades de energia por orgônica por centímetro cúbico, isto é, mais do que o mel em si. Isso levou o Dr. Antônio Moraes a passar a recomendar aos seus pacientes que comecem a cera do próprio ouvido e, com base nisso iniciou um estudo sobre a energia orgônica eliminada pelo nosso organismo. Segundo concluiu preliminarmente, devido às nossas couraças, desenvolvidas desde a infância por sentimentos negativos e repressivos, e que impedem a circulação de energia. Essa energia retida, então, acumula-se nas extremidades, sendo desperdiçada. O doutor, então, observou que pessoas com menor circulação energética apresentavam um menor crescimento de cera, unha e cabelo. Contudo, ainda tinha dúvidas se o reingresso dessa energia eliminada pelo nosso corpo era realmente positivo, ou se não seria melhor buscar energia que jamais adentrara em nosso organismo, estando, portanto, menos pura, menos carregada de nossas tensões. Até a presente data esta questão ainda não foi respondida. Enquanto isso, alguns pacientes vão comendo cera a título experimental.
Se as teorias do Dr. Antônio Moraes estão certas ou não não faço idéia, mas o fato é que acrescentei no rótulo do meu mel a concentração de energia orgônica que ele possuía e meu público expandiu-se, junto com meu preço.Mas quando eu estava no auge da lucratividade o doutor maluquinho procurou-me:
- Seu mel não é mais o mesmo.
- Por que, doutor?
- Você não está mais fazendo isso com o coração. Tem fins capitalistas, pretende acumular capital acima de tudo, se rende às leis de mercado, subindo o preço quando sobe a demanda. Com isso, sentimentos negativos cresceram em você, reforçando suas couraças, ampliando sua produção de cera. Mas essa energia que está chegando na sua cera está muito, muito suja. O último mel que comprei estava intragável! Tive que passá-lo por um filtro orgônico para que pudesse consumi-lo com alguma satisfação. Você precisa aumentar o amor e a compaixão dentro de você, caso contrário a qualidade do seu mel vai continuar em franca decadência.

Não sei se as teorias do doutor estavam certas ou se ele espalhou isso por toda Visconde de Mauá, mas o fato é que pouco após esse diálogo as vendas e a também a expectativa de vida das minhas abelhas, caíram. Provavelmente ele estava certo. Mas como eu resolveria a questão? Se eu buscasse ampliar a compaixão com o fim de melhorar minhas vendas na verdade não estaria alimentando qualquer sentimento solidário, mas apenas reforçando minha veia egoísta. Teria que buscar o amor ao próximo pelo simples prazer de amá-lo, a solidariedade como um fim em si mesmo. Mas... ora, se eu fizesse isso não viria a subir os preços jamais. Pelo contrário, talvez o preço caísse. Bem, então talvez não valesse a pena essa tal de compaixão. Além disso, esse papo todo estava me dando um nó na cabeça. Decidi ignorar as palavras do velhinho e aceitar as variações de mercado como coisa natural, de época. Assim como as frutas têm época, meu mel também podia ter.

As vendas estacionaram no patamar acima apresentado. Isso me irritou. Pela primeira vez passava meses sem ampliar a vendagem. Isso estava me irritando. Queria fazer sucesso, um estrondoso sucesso, com meu mel de eucalipto de dupla cera. Mas as coisas não iam bem. Novamente o Dr. Antônio Moraes me procurou.
- Você tem que alterar seu rótulo.
- Por que?
- Porque reestudei e a atual concentração de unidade de energia pura, limpa, aproveitável por centímetro cúbico é de 85.
- Quanto é do mel normal mesmo?
- 73.
- Hmm... bem, ainda estou no lucro. Ok, vou ver o que faço. ¿ e ele retirou-se. Claro que eu não alterei meu rótulo. Deixei como estava. Ele voltou a procurar-me.
- Vou ter que espalhar que você mente. Não é ético o que você está fazendo.
- Doutor, eu nunca falei para nenhum paciente seu para deixar de ser otário e ficar pagando para entrar numa caixa de madeira com algodão que o senhor diz acumular energia e melhorar a saúde.
- Baseio-me em estudos científicos.
- Doutor, o senhor não é cientista, é um bruxo.
- Engana-se. Sou cientista.
- Pois bem, doutor, faça como quiser. Não cederei a ameaças.
- Pois é, mas na hora em que minhas palavras te foram úteis você não hesitou em colocá-las no seu rótulo.
- Passar bem, doutor.

De fato, em pouco tempo, ganhei fama de mentiroso em toda Visconde de Mauá e meu mel passou a acumular-se na minha casa. Precisava de mais energia. Precisava de uma maldita caixa orgônica, para melhorar a qualidade do meu mel. Procurei o Dr. Antônio Moraes. Ele, primeiramente, fez uma massagem energética um tanto diferente em mim. Disse que era para desatar os nós, permitindo que a energia que entraria via caixa orgônica circulasse bem dentro de mim. Em seguida, me deixou dentro da caixa por quarenta minutos. A única coisa que senti, num primeiro momento, foi um certo incômodo no intestino. Ao perguntar-lhe o preço, ele apenas acenou com a mão para que eu fosse embora e mandou que eu retornasse diariamente, para entrar na caixa orgônica.

Fui aos poucos me sentindo melhor, mais equilibrado. Sentia que a energia fluía melhor pelo meu corpo. Estava mais alegra, mais flexível física e socialmente. Tinha prazer em conversar com os fregueses, explicar-lhes sobre o meu mel, minha abelhas, energia orgônica... às vezes o papo era tão bom que o aceitava como pagamento. E assim minha alegria e minha espontaneidade foram me deixando, bem como às minhas amigas abelhas, pleno. Meu mel melhorou sensivelmente, a clientela aumentou, mas mantive o preço, pois queria minha casa sempre cheia. Mesmo que o mel acabasse e eu não tivesse como vender mais, o mero prazer da prosa já me trazia plenitude muito maior do que qualquer trocado. E assim vivi feliz por dois longos anos, até que a rainha morreu. Mas minha vida jamais seria a mesma: estava energeticamente equilibrado e surdo do ouvido direito.


por Renato Amado * 12:40 PM

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