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[Terça-feira, Novembro 20, 2007]
As Letras de TUPI
Olhava para minha infância e via todas as letras bem alinhadas, num azul desbotado, porém belo: TV TUPI. Aqueles pedaços de madeira, ou seja lá qual fosse o material, eram testemunhas e provas documentais da história. Mas aos poucos eles foram sumindo. A primeira letra a debandar foi o “V”, que saiu sem se despedir, apenas deixando um breve bilhete: “Vou-me”. E foi-se.
Em seguida, desapareceram os tês. Ao que dizem, cansaram da vida de ruína de patrimônio histórico negligenciado, juntaram-se a um “A” que vagava perdido pelo mundo e fundaram uma multinacional de grande sucesso: AT & T.
Aos treze anos de idade, vi a memorável TV TUPI se transformar num assignificativo “UPI”. O prédio já estava a ponto de desabar desde minha tenra infância, as letras eram as únicas sobras em estado apresentável da histórica casa e agora restavam poucas dentre elas. A TV TUPI de tantas histórias, tantos Repórteres Esso e telenovelas. Ah... a Tupi, sinto saudade dela mesmo ainda não existindo durante sua inigualável trajetória. Agora, um “UPI” era tudo que restava da sede carioca do primeiro canal de televisão deste país, do antigo canal seis. Não podia permitir que este resto de memória se perdesse.
Subi, com uma mochila nas costas, o muro da casa em ruína pela Avenida São Sebastião, que, a despeito do seu prenome, trata-se de uma ruela estreita e sem saída por onde mal passam dois carros. Caminhei sobre o teto e desci para o parapeito, ficando em frente ao meu precioso “UPI”. Abri a mochila, peguei uma rede e argamassa. Prendi muito bem o emaranhado de náilon em volta do resto de história. Pronto, agora tinha certeza de que as letras não fugiriam.
Entretanto, qual não foi minha surpresa no dia seguinte pela manhã, quando me deparei com a rede rasgada e a ausência do “U”. Interroguei um mendigo que vivia sob a antiga construção, que no centro tem um arco, por baixo do qual passa uma avenida. Viver naquele lugar era, sem sombra de dúvida, um ato de extrema coragem, afinal aquele troço podia desmoronar a qualquer momento. O homem me respondeu que durante a madrugada o “U” ficara contorcendo-se, debatendo-se e jogando-se contra a rede. Um transeunte, vendo o desespero da letra, apiedou-se, foi em casa, buscou uma tesoura, subiu no telhado da construção e cortou a rede. Revoltei-me com a atitude do coração mole. Apenas um irracional nos deixaria com aquele “PI”! Uma madrugada fora suficiente para destruir meu primeiro plano. Percebi que teria que me doar com mais afinco à causa se quisesse salvar o que o Poder Público, em conluio com o tempo, estava em vias de destruir.
Na primeira oportunidade em que passei pelo meu quarto, abri o armário e procurei pelo empoeirado vinte e dois do meu avô. Prendi-o no cós da calça, peguei um velho e carcomido saco de dormir, coloquei-o dentro da minha mochila, escalei o mesmo muro e fui para junto das letras. “Muito bem, disse, acabou a farra, ninguém mais escapa! Farei guarda a noite toda, todas as noites. Qualquer movimento além da dilatação leva bala!” O dia não me preocupava, pois sabia que o movimento de carros e pessoas inviabilizaria uma fuga.
Nas oito primeiras noites tudo transcorreu bem. Graças ao controle que tinha sobre meu corpo, adquirido após anos de meditação zen-budista, mantinha o sono leve, de modo que acordava com qualquer barulho ou movimento. Bastava uma dilatação um pouco maior numa noite quente - algo bastante comum na Urca, devido ao calor liberado pelo morro após o fim do dia - para que eu levantasse com a arma engatilhada e apontada para o suspeito, numa fração de segundos. Contudo, este estado de constante alerta não me permitia sonos reparadores. E foi isto que deu ensejo à história da nona e fatídica noite.
Por volta de uma da madrugada, meu corpo cansado se aferrou a um profundo sono. Sequer sonhava, meu estado de total exasperação não permitia tal gasto de energia. O coração batia lenta e fracamente, minha respiração acompanhava-lhe o ritmo. Um leigo podia julgar-me morto. Percebendo o erro fatal, “I”, que apesar de grande como as demais letras, era minúsculo (não o represento aqui desta forma para realçar sua imponência), utilizou seu pingo para cutucar “P”, que, assim como eu, dormia profundamente. Assustada, a letra de Pedro, Paulo e tantos outros nomes, deu um pequeno pulo, incapaz de retirar-me daquele estado de hibernação. “I” apontou para mim com seu pingo. Ao notar a situação em que se encontrava o agora patético guardião, “P” não resistiu e me deu uma cabeçada na boca do estômago. Meu metabolismo se acelerou rapidamente e acordei arfante, sem nenhuma noção do que se passava ou onde estava. Foi quando “I” empurrou-me para fora do parapeito, fazendo com que eu despencasse, ainda ofegante, na Avenida João Luiz Alves. Ao atingir o solo, parei de tentar inspirar, vi as duas últimas letras do monumento se embrenhando no mato do Morro da Urca, enquanto as estrelas me convidavam a compartilhar-lhes a eternidade. Foi quando percebi que havia entrado para a história como o único homem assassinado por um par de letras.
por Renato Amado * 10:48 AM
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